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A amizade. Aquele sentimento bom, feliz e livre. Livre de convenções, de barreiras, de segredos, de constrangimentos.  Aquele estar, amplo e leve, apenas por estar, não importa o que se diga. Aquele querer sempre estar, aqui, além, do infinito ao ante finito, que é o pouco tempo que nos resta.  Aquele amar sem vergonhas, sem rodeios, sem medos. Aquele gostar que aumenta sempre, sem que nos importem as contrariedades, nem as venças e desavenças, desfeitas num abraço sentido. Por isso, por ser tão verdade, a amizade não tem fim nem hora marcada para o regresso.  A amizade é um reencontro constante, é brisa doce que ondula ao verde-mar do campo, da terra perfumada.  A amizade é sermos humanos, é sabermos que somos falhos e imperfeitos, é reconhecer os nossos erros e os dos nossos irmãos-amigos, e recebê-los com delicadeza, compreensão e respeito.  Porque nesta vida andamos todos a aprender, todos, sem exceção.

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  coruche 2019 ~ E é na tua ausência que me revisito, só. Nada de novo por aqui. Apenas uma saudade imensa, um perder-te constante, a cada gesto, a cada olhar recusante. Perco-me na imensidão deste sentir vasto e sempre quérulo, porque me falhas, porque me faltas. Tudo se resume a um vazio imenso, a um abraço imenso que te não posso dar. Tenho sempre saudade. O tempo, pudesse o tempo aproximar-nos, equalizar a distância que nos afasta. Pudesse eu dizer-te tudo isto, assim, sem meias-palavras, sem mundo além de nós. E em tudo isto, em todo este afastamento, és intensamente grande na presença, no espaço que é teu apenas, sempre teu. Não há esperança maior do que o tempo, restando, por entre as folgas deste viver confuso.

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#1 Abril 2018

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Óbidos Fevereiro 2018 ~ circula o tempo  mas o espaço  permanece e nesse  movimento errático disestésico nessa presença dolente e (in)constante é primeira  a mágoa triste da saudade sempre tácita e rugosa antes das coisas e motivos e cores que se assomam aos dias desconexos e vastos desta viagem  sem onde existir na certeza final de que tudo finda seja para quem for  naquela mesmíssima  hora derradeira naquele lugar  desvalido despertar  com essa verdade que por ser verdade magoa  com a força toda das pedras contra o mar em que me espalho  e extingo é sem sentido e neste azul  de desencanto nesta luz matinal desvanecente não  encontro  motivo além  daquele universal que nos encanta e trai motivo  que  em nós  falta quando nos escapa a verdade e o que resta  é um sent...

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costa  Fevereiro 2018 ~ queria dizer a palavra amo a ti  e ao mundo  pois quando  amamos  amamos alguém  e ao mundo  todo  que nos ama queria dizê-la em silêncio e no  silêncio  ouvir ouvir-te dizer o nome de todas as coisas do mundo queria amar  assim amar-te perdidamete como naqueloutro poema-vida que não escrevi e em tal  vazio-  -libertação  plena da ausência ser sermos com a força toda da razão de sermos

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porque além  de tudo  o que nos pesa porque além  de tudo  aquilo  que nos obriga a além do pensamento  que não passa das horas de solidão  primeira porque além  do mar sem fim há um vazio  profundo  e cheio  de esperança . porque atrás do silêncio  há o olhar  nosso pedinte e pronto e no final um ponto  convergente a todos nós inquiridores  da vida  desigual e sem critério  da justiça ausente despontada a cada silêncio  maior a cada sentir mais lêvedo  a cada perda a cada amanhã assaz frágil  e incerto . porque além de nós existe o sonho  que nos espera sereno e doce aquela memória distante eluente do turbilhão  denso e voraz que nos engole e demencia . porque além  da vida existe o viver insatisfeito e nele o abraço imperioso  q...

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não consigo sentir não consigo chegar a ti meu desejo antigo mudo-me inconstante sem sentido de ali para sem onde por esta terra seca e lábil inerte e só já nem a noite nem a lua-mar me trazem a brisa viva de outros tempos nem os lugares que vivemos eu e tu meu velho peito vazio aberto nem a música nem o calor brando das noites de poesia nem o frio que escasseia neste outono por demais claro e rasgado à vida que é escassa e frágil não há abraço que me abrace neste sonho desavindo neste querer infinito e vago que se não mostra e não explica neste projecto que se vai gastando em condicionalismos ambiciosos absurdos tudo é denso e transitório o mundo pesa tanto sempre com pressa sempre com um objectivo a mais na calha sempre com um sempre a mais no sempre que s...

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remar setembro 2017   ~ Falta-me a força para caminhar. Tremem as pernas, a cabeça. Na transição para o piso há um torpor que se interpõe entre o meu corpo e a terra. Não é inverno nem verão, aqui. Não é calma nem revolta. Não é silêncio nem estrondo. Burburinho, talvez.  Passados tantos anos de para aqui vir, há uma estranheza residente, um querer inconstante, uma dúvida persistente. Atrás, o pano da esperança. É Setembro. Está na hora de acabarem as férias. Aproximam-se as aulas, os livros, os cadernos frescos, as folhas de papel, o cheiro a novo dos livros, acabados de comprar. A praia, o sal impregnado no cabelo, os gelados, as pulseiras de couro, as horas mortas de calor, o corpo estafado de nadar. Contra as ondas, o teu rosto, que foi meu, o dever cumprido, a ordem, a descontracção merecida, depostas as horas de marranço inconsequente. Mais vale parecer do que ser. Mais vale a ordem cega do que a consciência do nada que somos. Por...

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Danço. Danças. E a música é lenço branco voando. E a noite é fumo, fumo que arde, inconsequente e férreo, veloz, voraz. É sede e força que se abraçam. É sombra e voz que se ligam, imaginação imperfeita dos corpos que não existem. Suor, suor frio e quente, toque, toque leve e envergonhado. Corre, que o presente não suporta a nossa dor. Quebra a luz, entra na escuridão luminescente do álcool, vem comigo, partamos ao meio a fatia de solidão que nos calhou, choremos juntos a verdade que a embriaguez consola. Porque o presente é insuportável e não ouve ninguém. Queremos o bem do mundo, tão só o bem simples do mundo, mas somos sempre em falha, passageiros sem bilhete, multa imperativa, tristeza magoada que se afunda e nos afunda, sempre mais e mais. Madeira é a que cheira este estrado em que me deito e estico, tabaco impregnado de tempo, olho turco que espelhando-me a ti espelha, coisa sem sombra que sou, que somos, vapor, vapor sem lembrança. Voz ao fundo, música de fundo lento, sala onde ...

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não existe modo perfeito ou justo para começar  um poema escrevo  de forma seca na língua-mãe que ignorantemente desconheço falta-me o cheiro o verde húmido dos campos que sonhei está longe o mar foi-se a vontade em poeira e vento e o meu corpo moído das cãibras impregnado de xilitol e menta barata todo ele se envolve e emaranha de forma consentida e (in)sensata em papéis e metas e prioridades alheias ditadas por quem nada sabe do amor claro e inquieto das coisas simples do silêncio são e imperfeito que é nesta manhã despovoada e doce

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Morreste amor nos caminhos conturbados da vida. Fomos alvo,  somos vespas cambiantes entre solidões e defesas frondosas. Não encanta a nova poesia nossa. Falta-lhe o suor nos mastros. Somos todo cristalino, crisálidas uivantes nas noites caladas. Quis-te, quimera alada pelo luar sem fim da noite clara. Foste sopro musculado, música vacilante entre espaços de mágoa. Vieste com o fruto-mar, desavesso e errante, e foste logo contradição. Porque tudo é cá dentro, toda a força que não fala, todo o sentir que se não diz. Foste vida no campo denso da falha, esgar contido na felicidade impossível. Porque ao lado nosso existiu o acaso leso, a parábola derradeira do sentir, a tristeza esgueirada pelo vácuo imenso da planície perturbada. E de tudo isso, de toda a inconsistência que fomos, houve ainda a força, aquele nosso motivo maior, a causa por que corremos sem fim, esta saudade imensa (que é saudade porque longe), o teu rosto-sombra que nada disse, a distância curta do nosso entendimento...

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Vai-se vivendo entre gente. Os lugares estão todos ocupados, nos cafés, nas lojas, nos bancos frente às lojas de gelados. Serve-se sempre um cafezinho por aqui e por ali. Até escrever sobre o momento ficou mais fácil, seja num telemóvel, seja num computador armadilhado com corretor ortográfico. Piora sempre um pouco, é certo, quando nos corrige palavras às quais se comeram letras, ou quando somos coagidos a aceitar tal transformação incorreta, in-co-rre-()-ta, sob pena daquele tracejar ziguezagueado vermelho nos vir a afetar o discernimento. Infelizmente somos muito fracos e o tempo é muito curto para nos dedicarmos a tais contendas reivindicativas, ditas fora do plano e objetivos vigentes. Ser diferente, tentar sê-lo, dá ocupação, mas tira trabalho, e é preciso comer. Gostava tanto que o meu instinto de sobrevivência fosse tão laxo quanto o meu querer estar nesta vida diária. Mas os circuitos divergem algures na nossa cabeça e as águas separam-se a ponto de nos tornarmos autó...

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O mundo, como era dantes, esvazia-se a prumo, na desilusão ambígua do esquecimento, conhecido e aceite a todas as horas deste não querer saber.  Olho ante o presente, penso em ti, no reencontrar-te que se faz tarde. Prontamente, porém, vem-me aquela sensação estranha e familiar de saber-te ausente deste mundo dos outros, que para ti deverá ser ainda mais risível e bacoco do que o era quando não era mundo dos outros, mas nosso, estranho e absurdo mundo, o nosso.  Pensei em ligar-te, mas não sei o número. Como é que se liga para aí? É incrível como mais facilmente conseguiria falar com um estranho, qualquer, à distância fónica de nove dígitos e uns toques.  Recorro por isso à memória, coisa que me vem assistindo mais do que aquilo que seria desejável. Nunca recordei tanto, acredita. Nunca vivi tanto ou senti tanto, parada, entre quatro paredes sólidas.  A vida estreita-se-me, entranha-se-me nestas roupas que visto, nesta cabeleira imensa que são o...

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Cacela (foto de MJF) ~ O meu lugar no mundo é sonhar. Acordar é uma névoa que perturba, que em mim estreita a capacidade de viver. Valem-me aqueles que amo e me são próximos, certamente que sim. Valem-me as emoções conjuntas, o sentir que não estou só. Mas fixar o rosto nos ponteiros do relógio, atentar na cinética lenta da luz, seguir o rasto certo da terra quente, segundo a segundo, de vazio em vazio, exaspera e corrói. Há vários caminhos a seguir. Há perfeições diversas, que ora singram, ora caem no saco fundo da repulsa. Há certos e errados simultâneos. Há sorrisos e trismos cínicos coincidentes, brilhando nas mesmas bocas ímpias, mas alvas. Porém, ciente da homogeneização dos opostos, da continuidade dos sentidos, que se opõem e tocam sincronicamente, tudo faço para evitar o que me é estranho. E talvez seja por isso que não consigo conceber a vida prática sem pólos, sem modelos binários, sem verdades opostas e exclusivas entre si. Porque pensar de...