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Monday, October 21, 2019

~

este passeio
foi feito para
pessoas felizes

para moços
e moças
com saúde

para crianças
sorrindo 
e brincando 
alegres

para senhores
e senhoras
de colete 
amarelo
fluorescente
usando fitas
na cabeça

para gente 
correndo
de fones
e pescoço 
corcovado

foi feito
para passar
sem medos
nem porquês

amplo
azul 
tejano

este passeio
não foi feito
para nós

Tuesday, October 15, 2019

~


~

que fazemos nós
aqui
que arrogância
e determinação
são estas
que nos empurram
para o abismo
de nós mesmos

que dizemos nós
no silêncio
mutualístico
em que vivemos
tranquilos e sós

que mundo 
é este
sem espaço
para amar
serenamente
levemente
docemente
nuamente

que vazio este

ruído de gente
passando 
como coisa

coisas
que nos ferem 

(não mais
do que a
palavra ausente)

amo-te
absoluto inefável
tristeza
imensa e inútil

amo-te
sem princípio
sem nome
no fim de tudo
o que não serve
no recomeço
de um dia
qualquer

(...)

 

Tuesday, June 18, 2019

~




 coruche 2019

~

E é na tua ausência que me revisito, só. Nada de novo por aqui. Apenas uma saudade imensa, um perder-te constante, a cada gesto, a cada olhar recusante. Perco-me na imensidão deste sentir vasto e sempre quérulo, porque me falhas, porque me faltas. Tudo se resume a um vazio imenso, a um abraço imenso que te não posso dar. Tenho sempre saudade. O tempo, pudesse o tempo aproximar-nos, equalizar a distância que nos afasta. Pudesse eu dizer-te tudo isto, assim, sem meias-palavras, sem mundo além de nós. E em tudo isto, em todo este afastamento, és intensamente grande na presença, no espaço que é teu apenas, sempre teu. Não há esperança maior do que o tempo, restando, por entre as folgas deste viver confuso.

Saturday, March 2, 2019

~

O mundo desperta com a luz da manhã. Há uma vida lá fora, cumprindo-se em contínuo, sem que a nossa pressa, sem que o nosso desespero e intransigente inquietude a perturbem.

Há um campo vasto de luz, lá fora, e o odor fresco, verde, salgado, que se não pode atingir. Distam os nossos tempos, as nossas cores contrastantes, as nossas angústias, os nossos silêncios estridentes e vastos. Procuro-te, incessantemente, nesta manhã, nesta dor constante que é sentir-te, estando, só.

Não muito distantes, há dois apelos que por mim chamam e saltam e explodem de alegria quando a meu lado. Mas tudo pesa, e nem essa energia vital e brilhante e verdadeira, nem aquele amor que se não exprime por palavras inteligíveis, poema de um vocabulário próprio e essencial, nem este abraço garantido, nada substitui o sentido ausente.

Procuro sem direcção aquilo que não sinto. Porque há, sei que existe, alguma coisa maior, uma essência que se agita acima de todas as coisas do quotidiano normal, de qualquer intento, de qualquer domínio que se possa controlar por gestos ou palavras secas.

E entre mim (entre nós) e o universo resplandecente e claro que se não alcança, há um vale imenso e oscilante, uma dor que corrói e persiste, uma saudade imensa e intransponível. Nem a música, a música.

Monday, February 18, 2019

~

É tão simples, o teu sorrir. E o ânimo com que fazes as tarefas normais do dia. E a cor que as coisas simples em ti despertam. Vives bem contigo, assim, no teu dia-a-dia normal e feliz. E é tão bom sentir essa tranquilidade indefinida. É tão certo sentir que estás bem em ti. Tão certo.

Tuesday, February 12, 2019

~

É difícil sentir-te, manhã azul e clara. Silêncio promissor. Serenidade que não existe.

Ouve-se ainda o rumor fremente e baixo que corrói as casas e os pilares de madeira que sustentam as casas. Cheiram a tinta ainda, as casas, a tinta estalada e seca. Não há sopro nem essência que se encontre nelas. E por mais vestígios de vida, há sempre um vazio triste e distante. 

Há a cultura, o saber fazer social, o parecer maior que ser, a crueldade meiga da palavra consentida, o gesto ausente.

Procuro o mar, que é longe, e a frescura verdejante dos campos sem nome. Imagino e sonho no presente, no impossível e inoperável presente. Falho sempre à chegada, quando tudo parece estar a ficar bem, quando há um motivo sólido e real e absoluto.

E aqui estou eu, de novo regressando ao início, ao princípio de tudo, desprovida como dantes daquilo que me é essencial e eterno. Resta-me a saudade, a sensação vigente de estar sempre a mais, de ser sempre a mais. Resta-me, de novo, a solitude obrigativa e sem sentido, a inoperância comum, o vazio duro e triste que é recomeçar só, que é sentir-me e perder-me só num caminho que se exige prático e vital e próspero.

Viver é transitar entre tudo e nada, entre ti e a ausência de ti, palavra repetida. E é fazê-lo vezes sem fim. Caminhar, caminhar, rumo ao lugar aonde aportam todas as direcções, todos os indícios de vida, toda a essência da verdade. Caminhar sem fim.

Friday, February 8, 2019

~

perdi-me
na imensidão
de amar
sentindo
apenas
a vibração
branda e doce
que no teu
sentido
com o teu
sentido
ganhou
forma
e nome
e grandeza
que não
sou

esqueci-me
de como
eram os dias
quando
te não via
assim
como hoje és
para mim

era tudo
tão pequeno
tão anguloso
e habilmente
feio e vazio
que nem
entendia
a cor ausente
das coisas
que me eram
familiares
e consentidas

desaprendi
a vida
que me cabia
lesta e seca
como eu

eu que
noutro então
não cindia
nada
que sentisse
ou desesperasse
e despertasse
cá dentro

mas encontrei-te
tarde
sem tempo
nem lugar
que pudéssemos
habitar
somente

ousei imaginar
a nossa presença
una e constante
na intransigência
enorme
da verdade

mas tudo
é sempre
depois
tudo é
indevido
e está a mais
e foi a mais
sempre a mais

quando à noite
no regresso
a uma casa
sem onde
e de ninguém
o meu corpo
se entorna
e a contenção
amarga
que carrega
o dia
se esgota
exausta e só

quando
o dia se revela
sem sentido

é o teu
abraço
que me falha
e falta
sem princípio
nem fim

e é tão
ridículo
chorar
naquele abraço
que não existe

tão perverso
pensar
se serei
para ti
também
esperança
e desalento

que me traz
a tua
ausência

sinto-me fraca
sem tempo
de que não
precise
para recompor
o estrago
ansioso
e triste
que não passa

é noite já
apagou-se o azul
claro do mar
que hoje
não foi nosso

e a noite
quando vem
é saudade

locução
tremenda
daquilo que
não existe

Wednesday, February 6, 2019

~


sinto-me hoje
no cumprimento
pleno
das tarefas
da vida
corrente e prática
é Belo este lar
e os pássaros
afora
cantando e rindo
de nós

somos fechados
no bafo quente
e ruidoso
que vem de cima
de lado
de todo o lado
de lado algum

não há voto
que não seja casto
neste silêncio maior
do que o vazio
estridente
restringente
hilário

comporta-te
ó Ruy
que és rei
antes do nome
poema
que entardece
com o verde
da tarde calma
que surgirá
por detrás
desta amálgama
de blocos pardos
banhados em cimento
arinto

chove
fazendo de conta
que chove
nesta vontade
suburbana
e triste
de caçar leões
e desferir
lonjuras
e sonhares
antigos

por agora
para sempre
desde agora
não há chinelo
nem pijama
nem robe
acetinado
que nos
caiam bem

só o dever
cordial
maquinal
deste ofício
único
e intransigentemente
inútil
de ser
mais um
e ainda assim
(ter de)
ser cada

~


é difícil acreditar
em nós
quando à luz
do dia
se está triste
e só

é difícil agir
quando o infinito
que foi
num dia
passado
se extingue
na tua ausência

é difícil
concentrar forças
nos limites do tempo
que passa
por nós
e que que vai indo
sem nós
veloz e em diante
sempre

é impossível
viver
quando a solidão
infecta o vazio
pesado
que é não ter-te
abraço imperfeito
mas inexactamente
amplo

e pensar num futuro
para nós
seres ausentes
deste mundo
mas que ainda assim
precisam de comer
no desespero
que é a falha
de motivo válido
para existirmos
desconexos
absurdos
insistentemente
em vão

é frondoso
o caminho
frio e geado
que percorro
ainda
pensando-te
manhã sadia
de outrora
futuro antecipado
que se não
operou

assim passo
os dias
uns melhores
outros nem tanto
mergulhando
no quotidiano
simples
da casa
da rua
das compras
do amar-te
desapercebidamente
nas coisas simples
que aproximam
os nossos tempos
desfasados

é triste viver
fora do que somos
habitar o espaço
alegre e triste
de uma memória
intrinsecamente
presente
desde o princípio
de nós

viver
morrendo
a cada silêncio
a cada gesto
que me trespassa
e não fica
a cada palavra
que não posso dizer
a cada abraço
enredado
no constrangimento

viver assim
na presença distante
de ti
porque te amo
incondicionalmente
infinitamente
tanto
que talvez
só tu
o consigas sentir
e saber
por mais que o
não diga

correm frágeis
os dias
sem ti