Tuesday, October 30, 2018

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Quando pelo inverno, naquela altura em que o odor lenificado do ar frio ressoava estridente pelos vidros do meu quarto, e a vida, a vida, era um enigma fremente e vasto. 

Quando pelo inverno, o nervo e a dor não existiam além dos limites possíveis do nervo, da dor, quando o corpo dava tudo, mesmo no limbo da exaustão, que se não sentia. 

Quando o sabor doce de nada fazer impelia à acção, sem medos nem questões complexas concernindo ao peso do prazer sobre a inércia, ao gosto do sentir sobre o dever. 

Quando a música refringente do concerto para piano em lá menor de Grieg, no seu andamento segundo, cercava os meus olhos de um calor enorme e repuxava o meu corpo todo que vibrava quando ali não era eu, mas a biologia, a química, a física, a música, a natureza, o universo todo, presente e distante, a plenitude plena. 

Quando a palavra e o gesto eram verdadeiros e certos por si mesmos, por virem de outro alguém, por serem consequência e causa da nossa existência, razão da nossa vida.

Quando a perfídia e o medo eram estados ausentes, realidades impossíveis, tamanho o esplendor daquele ar frio, daquela sombra ondulante das árvores sobre a calçada e a chuva em si escorrente. 

Quando hoje, hoje sim, hoje já, que foi hoje sem passar, olho para trás, neste mesmo lugar, ao som desta mesma música, percebo que não há antes, nem depois. Há o meu corpo, o meu mesmíssimo corpo, aqui e agora, como dantes e depois e sempre. 

Agarro-me com força, com toda a força restante, sem mágoas, mas com uma saudade imensa, saudade de alguém que foi eu. Seguro-me a este lugar, a este cais salgado e frio e verde como o mar .

Não sei para onde nem por onde. O tempo passou, as perspectivas mudaram, fiquei eu apenas, memória inquieta, sensação perene e estranha de falta, de medo, de desvio. 

Não quero voltar a ser criança, não, não quero voltar atrás. Preciso apenas de ti, de ti somente, essência simples e ingénua e crua de outrora. 


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