não consigo sentir
não consigo chegar
a ti
meu desejo antigo
mudo-me inconstante
sem sentido
de ali para sem onde
por esta terra seca
e lábil
inerte e só
já nem a noite
nem a lua-mar
me trazem a brisa
viva
de outros tempos
nem os lugares
que vivemos
eu e tu
meu velho peito
vazio aberto
nem a música
nem o calor brando
das noites
de poesia
nem o frio
que escasseia
neste outono
por demais claro
e rasgado à vida
que é escassa
e frágil
não há abraço
que me abrace
neste sonho
desavindo
neste querer infinito
e vago
que se não mostra
e não explica
neste projecto
que se vai gastando
em condicionalismos
ambiciosos
absurdos
tudo é denso
e transitório
o mundo pesa
tanto
sempre com pressa
sempre com um objectivo
a mais na calha
sempre com um sempre
a mais no sempre
que se não cumpre
não consigo ser
neste hoje
angustiado
mal começa o dia
e o amanhã se apronta
obsessivo
clástico
não consigo encontrar
nesta amálgama
selvática e viril
nesga de água
fresca
brilhando ao céu
profundo
de estrelas e sóis
ardente
não consigo
ver-te assim
reflexo meu
convexo
debruçado
sobre a sombra
inconspícua
da acção
inconsequente e bela
que demora horas
e dias
e anos
existindo simples
na engrenagem
intrínseca e infinita
e indemonstrável
da verdade
despojada
não consigo amar
não consigo sorrir
além do contexto da dor
que passa
da mão que nos aperta
apertadamente
do olhar que nos não foge
e que só ele entende
o nosso igual olhar
desprotegido e só
[proémio
do verbo falado
das palavras duras
que não precisamos
de dizer
nem a eles
nem a nós]
não sei o que dizer
de tudo isto
que é a vida possível
a vida que nem o pão
nem o vinho
enternecem
a vida que é só uma
e para nós tantas vidas
que são uma e uma só
lutando sem defesa
no leito da descrença
da exaustão
da falta de ideias e recursos
e conhecimento
da coragem
(...)