Não tenho muito a dizer ao mundo. Seguramente
que há muitas coisas, coisas verdadeiramente importantes e pertinentes,
verdades e afazeres que perdurarão no tempo, porque verdadeiramente terão
contas e fortunas a dar ao mundo. Mas ainda assim, mesmo sabendo da escassez de
sentido e propósito desta vida, deste texto, ainda assim há um presente, há um
dia para viver, há uma consciência a frenar e uma tristeza constante que é
preciso suportar. Por isso, quando se abre a janela e se escutam os ecos da
vida lá fora, e os odores e aromas gastronómicos das outras casas, e o barulho
dos pratos ao princípio do final da tarde, findos os repastos e inaugurado por
fim aquele apaziguante silêncio pós-prandial, há uma serenidade que se assoma à
dureza do dia, que se alia à solidão e ao propositado despropósito das nossas
vidas. Estaremos sempre aqui, sempre aqui.
~
monte
Abril 2020
