Sunday, March 5, 2017

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Vai-se vivendo entre gente. Os lugares estão todos ocupados, nos cafés, nas lojas, nos bancos frente às lojas de gelados. Serve-se sempre um cafezinho por aqui e por ali. Até escrever sobre o momento ficou mais fácil, seja num telemóvel, seja num computador armadilhado com corretor ortográfico. Piora sempre um pouco, é certo, quando nos corrige palavras às quais se comeram letras, ou quando somos coagidos a aceitar tal transformação incorreta, in-co-rre-()-ta, sob pena daquele tracejar ziguezagueado vermelho nos vir a afetar o discernimento.

Infelizmente somos muito fracos e o tempo é muito curto para nos dedicarmos a tais contendas reivindicativas, ditas fora do plano e objetivos vigentes. Ser diferente, tentar sê-lo, dá ocupação, mas tira trabalho, e é preciso comer. Gostava tanto que o meu instinto de sobrevivência fosse tão laxo quanto o meu querer estar nesta vida diária. Mas os circuitos divergem algures na nossa cabeça e as águas separam-se a ponto de nos tornarmos uns autómatos do paradoxo, incoerentes como o tal sentido de justiça, de uma justiça que se afigura com tino e verosimilhança, mas que não existe além dos manuais da jurisprudência, tal como o nome indica, dos manuais, tão somente.  

Hoje está tudo cheio. Até os passeios estão cheios de malta, de putos fumegantes passando o tempo sobre rodas de skate e charros e garrafas de vodka ou absinto. Sim, porque a Lisboa do Cesário ainda vive a absinto e luzes toscas e oleosidades estranhas.
Mas voltando ao atolamento das ruas, das casas, das famílias, que sempre questionam quando voltamos para casa e não conseguimos esboçar um sorriso, proferir um cumprimento que seja de acordo com o amor e tolerância que por nós têm aqueles que nos amam e que amamos, ou que vamos amando dentro do possível, mas regressando a este atolamento comportamental, errado e feio e displicente, sobrevém a dormência, este estado de anestesia em que vivo, esta aceitação atormentada e incómoda que se perpetua, de dia em dia, de pedaço  em pedaço do tempo que passa.

E nem os exemplos extremos, nem nas mãos cansadas do trabalho, de levarem pancada, nem na fome, nem na solidão dos outros, se afasta esta angústia egoísta, esta tristeza perene, quando a vida nem tem sido assim tão má.

Sinto-me a pior pessoa do mundo, é um facto, sinto-me longe dos propósitos primordiais, coloco-me à margem da partilha, da aceitação dos pares. Na realidade, violo todas as leis que considero justas e salutares. Porque a ânsia, que teima e persiste, a angústia sempre presente, a sensação eminente de perda, a saudade latente das coisas que foram más, mas que foram, a sensação de seguir no caminho errado, a superação de mim que a mim imponho, o não aceitar que a vida é mesmo isto e só.

Resvalo assim, faminta e triste, por estas ruas cheias, preenchidas de vazios como o meu, de silêncios que se extinguem em sorrisos e abraços e gelados e crepes e copos de três ou quatro ou nem sei já. Resvalo só no aconchego gelado do desespero apaziguado, da gente que sorri. 

Sunday, February 19, 2017

Sunday, December 18, 2016

poíesis

criar
mas o quê
que formas
que letras
que figuras
ou cores
consonantes
com a 
sensibilidade
do momento

criar 
o quê
se nem sentir 
consigo
se nem chorar
nem gritar
nem viver
conforme
consigo

visto-me
com 
o que tenho
respiro 
e acordo
e levanto-me
com 
o possível

corro
porque 
me corre
o chão

escrevo
porque 
me pedem
as mãos presas
desabituadas

bato-me
mordo-me
arrasto-me
para sentir-me
além do peso 
que dura
dura dura
até de noite

,

desejados 
são os dias 
que terminam
com um copo
de vinho 
alentejano 
e um sono
profundo e
quieto

SILÊNCIO

só preciso 
de silêncio

Tuesday, November 22, 2016

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Somos, dizia um amigo algures no tempo, demasiadamente tenrinhos, sobretudo para o mundo que nos espera lá fora. 

O pior é que nos achamos sempre maiores, alguma coisa mais importante do que tudo aquilo que evidentemente nos perturba e causa dúvida e incertezas.

Na realidade, não passamos de uns moços armados em seres com super-poderes, dotados de super-inteligência. 

Acreditem, caríssimos, que este tecto velho só ainda não ruiu porque são ruins as carcaças que o carregam.

Vocação, que vocação? A vocação constrói-se, dia-a-dia, com humildade e perseverança. Mais do que passar dias e noites em claro, a decorar frases sem nexo, para manter o status académico, há que parar para olhar em volta, respirar um pouco de ar, compreender o mundo em que somos e são os nossos pares, as pessoas reais, perecíveis e carentes, como nós.

A dor não se alivia exclusivamente com fármacos. A angústia, o medo, a frustração, a perda, não se compadecem com meia dúzia de teorias. 

A fluência médica resulta da espontaneidade do momento, da troca e partilha entre pessoas, da subjectividade, do olhar profundo que a experiência nos vai dando em crescendo. 

Na faculdade não nos ensinam a ser homens, porque não há tempo, porque se teima em enfiar o Rossio na Rua da Betesga. Vociferam-se palavrões, num tempo de antena tantas vezes imposto a contra-gosto e sem vontade.

Mas no meio de toda a falta de sentido, de toda a desistência que se nos oferece e ocorre, há que manter o fio condutor de nós mesmos. Há que, com calma e tempo, sedimentar o conhecimento. Há que procurar sempre o caminho no sentido inverso, colocarmo-nos no lugar do outro, daquela pessoa que sofre e que espera de nós a mesma dignidade e respeito.

Não bastarão seis anos de curso mais outros tantos de internato, nem mesmo uma vida inteira. Ser médico é aprender sempre, é um não saber permanente, é um partir constante para algo que continuadamente se questiona, cá dentro, mesmo naqueles instantes breves em que sentimos ter feito algo de bom por alguém.

Tocar no corpo vivo, que estendido sobre a marquesa passa a ser a extensão das nossas mãos e braços, tomar o corpo quedado, que em nós confia, sentir e escutar a dor, que quase sempre transgride as cercanias do tangível, tudo isto são formas líricas de dizer o quanto de intrusivo há naquilo que fazemos.

Pesa-nos, portanto, uma responsabilidade imensa, uma honestidade imensa que se não pode quebrar, mesmo quando o nosso mais profundo desejo é não sentir a tal massa dura que cresce, é não ver a hipotransparência heterogénea e excêntrica que escandalosamente se revela.

Ser médico é amar o próximo sem direito a sonegar o diagnóstico mais cruel. É estar em permanente colisão com o desejo sincero de que se não passe nada, de que esteja tudo bem. É suportar o fardo terrível da comunicação sincera e clara, por pior que seja o veredicto patológico. É assumir guerras e batalhas que se sabem perdidas à partida, sempre com uma palavra de conforto, de esperança. Ser médico é arregaçar as mangas, sem coibição no esforço. É ser justo e humilde. É respeitar, respeitar.

Ser médico é também ser pessoa. E ser pessoa é ser frágil, débil no sono que tarda quando são connosco as memórias que trazemos para casa, para a vida corrente.

E depois, no meio de tudo isto, de toda esta ambivalência, há o amor, que complementa a ausência de sentido. O amor combativo, que a sensação de perda, iminente, não deverá nunca interditar. 

Porque amar em plenitudes e vazios, e reconhecendo essas plenitudes e vazios, imprevisíveis mas antecipáveis, é o motivo maior para que se não perca a esperança no homem e no propósito de viver.


(...)

Wednesday, October 26, 2016

~

O mundo, como era dantes, esvazia-se a prumo, na desilusão ambígua do esquecimento, conhecido e aceite a todas as horas deste não querer saber. 

Olho ante o presente, penso em ti, no reencontrar-te que se faz tarde. Prontamente, porém, vem-me aquela sensação estranha e familiar de saber-te ausente deste mundo dos outros, que para ti deverá ser ainda mais risível e bacoco do que o era quando não era mundo dos outros, mas nosso, estranho e absurdo mundo, o nosso. 

Pensei em ligar-te, mas não sei o número. Como é que se liga para aí? É incrível como mais facilmente conseguiria falar com um estranho, qualquer, à distância fónica de nove dígitos e uns toques. 

Recorro por isso à memória, coisa que me vem assistindo mais do que aquilo que seria desejável. Nunca recordei tanto, acredita. Nunca vivi tanto ou senti tanto, parada, entre quatro paredes sólidas. 

A vida estreita-se-me, entranha-se-me nestas roupas que visto, nesta cabeleira imensa que são os meus sonhos e propósitos frustrados. 

Sente-se tão bem, vê-se tão bem esse apagamento, essa mutação das coisas, esta inconstância do que somos, segundo a segundo. 

Não deixa de ser aprazível sentir que não existo para os que me são presentes, assim como não existo para mim senão pela memória do que fui com os que foram densamente, intensamente, comigo. 

Cresci com pessoas que já não são aqui, caminhei e descobri por ruas que são fechadas, senti e amei por caminhos intransitáveis, fui feliz numa cidade que já não existe, com gente que não existe, com projectos e músicas que se não tocam já.

Talvez as coisas sejam mais fáceis para este mundo dos novos, mundo esse que codifica e descodifica a cada instante, de rosto voltado para objectos incipientes e estáticos. Talvez as coisas sejam mesmo mais fáceis sem o toque, sem a pulsação, sem a energia de ouro alguém que sente e existe e nos faz saber que a vida não é feita de plástico nem de filamentos nanométricos de materiais indefinidos. 

Contudo, e apesar da ilusão que nos consome, continuamos a ser carne, e osso, e trabéculas de sentires e afazeres íntimos, que se calam e fecham em tensão, porque, simples e absurdamente, não há interlocutor possível, não há resposta possível a não ser silêncio, de quem tão perdido quanto quem se sente perdido se volta ao contrário na cama e dorme.

Gostava tanto de conseguir falar contigo, aqui, agora, sempre. De ouvir-te novamente, mesmo que fosse para criticares a minha falta de conhecimento ou aquela permanente aplicação escassa. Sim, as cordas continuam a partir-se por falta de uso.

Mas não, neste mundo globalmente coarctado, não há número, nem telefone, nem carta, nem invenção alguma que me faculte o acesso a ti. Talvez para bem teu, sim, haja alguma positividade no afastamento.

Quem sabe, um dia, na ausência de tudo isso?

Tuesday, September 27, 2016

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FCG - 2016
 
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Por mais silêncio que faça, há sempre uma voz que fala, ruminantemente, intransigentemente, por dentro deste meu semblante probo e indeciso.

Fala-me de erros, de imperfeições, sempre em tom recriminatório. Não se cala nunca, de tal modo que vem sempre desapaziguar o ambiente estéril que o estar de bem com a vida requer, para que assim o corpo se não jogue três centímetros a mais para diante, findo o precipício denso e ignóbil que o vai sustentando.

Mas não é deste ruído que me queixo. É, sim, da natureza frágil de que é feito este corpo que o contém, maleável, labiríntico, plasticizável, consoante a aridez do meio e do tempo.

É comigo só, esta contenda. Este descontentamento perene e lábil. Este faltar sempre, de não sei o quê, que se tem e larga, impiedosamente.

Perdidamente, disseste-nos tu, num de tantos dias, perdidamente é o teu verbo, que releio à exaustão, cá dentro, à exaustão.
Amar perdidamente, talvez seja essa a fonte de vida e dor, talvez seja assim a chama que nos consome, que nos destrói e regenera.

Mas por que caminhos, por que razão seguir esse infinito, se aqueles que nos acompanham no percurso se vão ficando pelas metas incumpridas do destino, sempre em procura, no interregno desvelado do partir?

Olho em redor e desconheço todos os passos, todas as vozes, todos os muros da instabilidade material que é hoje soberana. Desconheço o presente, não te encontro amigo, senão naquele passado feliz, porque passou.

Pudesse eu voltar atrás no tempo, reencontrar-te, falar-te, dizer-te o quanto me fazes falta, tu, que és gente e sentir e lugar do passado, deste passado que persiste e falha.

Houvesse uma forma de reelaborar a malha que fomos, de conjuntar os nossos quereres e sentires irmãos, de cristalizar numa só imagem a imagem que focámos juntos, nos momentos partilhados.

É difícil perder os sentidos e sentires que se fizeram juntos, ao som uníssono do mar bramindo sobre a nossa integridade jovem e espontânea, ao ar fresco do ponto mais alto da nossa ingenuidade, ao largo dos deveres e imposições e regras cáusticas que nos foram matando, sempre sob o auspício daquilo de deve ser, como manda a lei, e o mais que pudesse estar para aqui a vomitar para bem de uma vidinha próspera e feliz.

Estar só é falar para um público que não escuta nem sente de semelhante forma, é ter de representar diariamente um papel imposto e colado a cuspo, é ter de esgrimir argumentos trapaceiros para que o corpo se levante e não desmorone em picardias ou lágrimas de desespero.

Faltares-me é falar para dentro, é guardar o sentir para que se não extinga, é frenar as explosões da alma, quando o sol cai sobre o horizonte vermelho e roxo, e com ele a vida toda, o sentido todo, aquarelados.

Sinto saudades, sabendo, porém, que as saudades nos não faziam grande mossa, naqueles tempos em que o sentir nos bastava. Mas o que não sabíamos, então, era que a música que escutávamos seria transitória, que também os verbos se regeneram e gastam com o tempo.

Talvez por isso me não sinta preparada para o embate, cada vez mais forte, tão tremendamente célere. Talvez por isso sejam o silêncio e o distanciamento os modos mais seguros e imediatos de estar.

Não compreendo o sentido, o motivo de tudo isto que fomos e somos e seremos. Consinto-me no erro que é calar, porque a vida é uma só e o tempo, que o ser novo tende a desvalorizar, é demasiadamente vital para que o deixemos à margem do pensar livre.

Assim pensando, talvez o tempo físico e o tempo intrínseco a cada sentir, a cada ser, de entre todos os seres, sejam realidades que se não tocam senão na sua relatividade. Estar enrugado não é ser enrugado nas ideias, no sentir, no desejo infinito de galgar o horizonte, de alcançar a sombra, de encontrar a felicidade, o porto da esperança de qualquer coisa mais, de qualquer gesto mais que se espera, ao limbo do existir longo, vastamente só.

Perdi tempo, esqueci-me de viver quando amar-te perdidamente, a ti, querer, vontade, força intempestiva e bruta, motivo vital, me parecia absurdo e dispensável.

Sei-o agora, que escrevo envolta em esperas e dúvidas e questões colocadas fora de tempo, do nosso tempo.
Sofrer é deixarmo-nos ir na corrente dos outros, é perdermos a capacidade de sonhar, de procurar o sopro que nos falta, por mais incertezas e contrariedades e dúvidas e fomes que possam surgir pelo caminho.

Sei e sinto que só assim, em sendo-nos livremente, o silêncio será silêncio e a voz, insistente e clara, o motor-motim que perdidamente nos tornará à vida, àquele viver de poeta à solta, àquela energia que nos preenche e ergue face ao vento fresco da manhã, quando o dia é todo por cumprir.

Monday, September 5, 2016