Monday, February 18, 2019

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É tão simples, o teu sorrir. E o ânimo com que fazes as tarefas normais do dia. E a cor que as coisas simples em ti despertam. Vives bem contigo, assim, no teu dia-a-dia normal e feliz. E é tão bom sentir essa tranquilidade indefinida. É tão certo sentir que estás bem em ti. Tão certo.

Tuesday, February 12, 2019

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É difícil sentir-te, manhã azul e clara. Silêncio promissor. Serenidade que não existe.

Ouve-se ainda o rumor fremente e baixo que corrói as casas e os pilares de madeira que sustentam as casas. Cheiram a tinta ainda, as casas, a tinta estalada e seca. Não há sopro nem essência que se encontre nelas. E por mais vestígios de vida, há sempre um vazio triste e distante. 

Há a cultura, o saber fazer social, o parecer maior que ser, a crueldade meiga da palavra consentida, o gesto ausente.

Procuro o mar, que é longe, e a frescura verdejante dos campos sem nome. Imagino e sonho no presente, no impossível e inoperável presente. Falho sempre à chegada, quando tudo parece estar a ficar bem, quando há um motivo sólido e real e absoluto.

E aqui estou eu, de novo regressando ao início, ao princípio de tudo, desprovida como dantes daquilo que me é essencial e eterno. Resta-me a saudade, a sensação vigente de estar sempre a mais, de ser sempre a mais. Resta-me, de novo, a solitude obrigativa e sem sentido, a inoperância comum, o vazio duro e triste que é recomeçar só, que é sentir-me e perder-me só num caminho que se exige prático e vital e próspero.

Viver é transitar entre tudo e nada, entre ti e a ausência de ti, palavra repetida. E é fazê-lo vezes sem fim. Caminhar, caminhar, rumo ao lugar aonde aportam todas as direcções, todos os indícios de vida, toda a essência da verdade. Caminhar sem fim.

Friday, February 8, 2019

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perdi-me
na imensidão
de amar
sentindo
apenas
a vibração
branda e doce
que no teu
sentido
com o teu
sentido
ganhou
forma
e nome
e grandeza
que não
sou

esqueci-me
de como
eram os dias
quando
te não via
assim
como hoje és
para mim

era tudo
tão pequeno
tão anguloso
e habilmente
feio e vazio
que nem
entendia
a cor ausente
das coisas
que me eram
familiares
e consentidas

desaprendi
a vida
que me cabia
lesta e seca
como eu

eu que
noutro então
não cindia
nada
que sentisse
ou desesperasse
e despertasse
cá dentro

mas encontrei-te
tarde
sem tempo
nem lugar
que pudéssemos
habitar
somente

ousei imaginar
a nossa presença
una e constante
na intransigência
enorme
da verdade

mas tudo
é sempre
depois
tudo é
indevido
e está a mais
e foi a mais
sempre a mais

quando à noite
no regresso
a uma casa
sem onde
e de ninguém
o meu corpo
se entorna
e a contenção
amarga
que carrega
o dia
se esgota
exausta e só

quando
o dia se revela
sem sentido

é o teu
abraço
que me falha
e falta
sem princípio
nem fim

e é tão
ridículo
chorar
naquele abraço
que não existe

tão perverso
pensar
se serei
para ti
também
esperança
e desalento

que me traz
a tua
ausência

sinto-me fraca
sem tempo
de que não
precise
para recompor
o estrago
ansioso
e triste
que não passa

é noite já
apagou-se o azul
claro do mar
que hoje
não foi nosso

e a noite
quando vem
é saudade

locução
tremenda
daquilo que
não existe

Wednesday, February 6, 2019

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sinto-me hoje
no cumprimento
pleno
das tarefas
da vida
corrente e prática
é Belo este lar
e os pássaros
afora
cantando e rindo
de nós

somos fechados
no bafo quente
e ruidoso
que vem de cima
de lado
de todo o lado
de lado algum

não há voto
que não seja casto
neste silêncio maior
do que o vazio
estridente
restringente
hilário

comporta-te
ó Ruy
que és rei
antes do nome
poema
que entardece
com o verde
da tarde calma
que surgirá
por detrás
desta amálgama
de blocos pardos
banhados em cimento
arinto

chove
fazendo de conta
que chove
nesta vontade
suburbana
e triste
de caçar leões
e desferir
lonjuras
e sonhares
antigos

por agora
para sempre
desde agora
não há chinelo
nem pijama
nem robe
acetinado
que nos
caiam bem

só o dever
cordial
maquinal
deste ofício
único
e intransigentemente
inútil
de ser
mais um
e ainda assim
(ter de)
ser cada

~


é difícil acreditar
em nós
quando à luz
do dia
se está triste
e só

é difícil agir
quando o infinito
que foi
num dia
passado
se extingue
na tua ausência

é difícil
concentrar forças
nos limites do tempo
que passa
por nós
e que que vai indo
sem nós
veloz e em diante
sempre

é impossível
viver
quando a solidão
infecta o vazio
pesado
que é não ter-te
abraço imperfeito
mas inexactamente
amplo

e pensar num futuro
para nós
seres ausentes
deste mundo
mas que ainda assim
precisam de comer
no desespero
que é a falha
de motivo válido
para existirmos
desconexos
absurdos
insistentemente
em vão

é frondoso
o caminho
frio e geado
que percorro
ainda
pensando-te
manhã sadia
de outrora
futuro antecipado
que se não
operou

assim passo
os dias
uns melhores
outros nem tanto
mergulhando
no quotidiano
simples
da casa
da rua
das compras
do amar-te
desapercebidamente
nas coisas simples
que aproximam
os nossos tempos
desfasados

é triste viver
fora do que somos
habitar o espaço
alegre e triste
de uma memória
intrinsecamente
presente
desde o princípio
de nós

viver
morrendo
a cada silêncio
a cada gesto
que me trespassa
e não fica
a cada palavra
que não posso dizer
a cada abraço
enredado
no constrangimento

viver assim
na presença distante
de ti
porque te amo
incondicionalmente
infinitamente
tanto
que talvez
só tu
o consigas sentir
e saber
por mais que o
não diga

correm frágeis
os dias
sem ti

Friday, November 16, 2018

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Um dia. Talvez um dia regressemos ao momento em que tudo era claro e leve. Em que o sorriso era sempre um sorriso, fizesse chuva, ou sol, ou nada. 

Um dia, talvez, naquele dia, o som regresse ameno, e a brisa, a brisa fresca e ágil da noite, seja imensidão e sonho e tempo infinitamente doce. 

É duro viver sem passado, sem ponto algum além da perda, perene perda que fustiga e corrói. Não há força, não há desejo, não há ímpeto que resista ao esquecimento constante de nós. 

Pensar, repensar um sentido, quando se viu já a esperança sem nome a rebentar das bocas destruídas, sós. Quando seguravas, naquele sopro último, um computador-pessoa, só. Quando embalavas a noite com o respirar ondulante e profundo de quem partia, só. Quando jorravas planos entre golfadas de lucidez, de sangue, só. 

Não há bem possível, plausível, quando a realidade inteira se nos depara assim, imperiosa e dura, numa hora qualquer de silêncios partilhados. 

Um dia. Talvez um dia regresse a ti, a vós. Talvez nesse dia possamos apertar de novo as mãos. E nesse dia, mesmo que as minhas mãos sejam ausentes (e as vossas também), partilharemos juntos a nossa ausência conjunta, a nossa privação alegre do desespero que é viver e saber de tudo isto.