Manhã. Noite. Manhã, noite,
noite, manhã. O dia é sempre igual à noite. Neste lugar. Aqui, onde o tempo não
passa. Onde a solidão das máquinas, o rubor das luzes, o gás vesicante das
balas, se não calam. Onde os teus olhos, os teus olhos sós, baços de sofrer, ardentes
de tantos silêncios e pausas e evicções, emudecem os corações que passam sem
parar. Porque o teu corpo, grande, braçudo, maciço. Porque o teu corpo tropeçou
no embaraço da força cadente. Porque a tua força ficou ausente sem que assim
quisesses. Porque a tua vontade foi vencida. Porque não pudeste dizer sim ou
não. Porque o vazio que deixaste cedo se fechou. Assim partiste. Tão perto da
verdade que temias. Tão silente, para que ninguém soubesse. Partiste sem deixar
rasto, partiste como chegaste, levando contigo tudo aquilo que trazias – nada. Porém
muito deixaste, acredita, deixaste, e como dói o que ficou. Como dói a
incapacidade, a crueldade, a esperança imodesta e falsa que te dei, o aperto de
mãos que trocámos naquela manhã, na manhã que não foi noite, nem manhã, nem
nunca mais além do momento, daquele momento, daquele rasgo de luminosidade pérfida e fugaz. Desculpa,
desculpa-me se te magoei demais.
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