Sunday, August 13, 2017
Saturday, August 12, 2017
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Danço.
Danças. E a música é lenço branco voando. E a noite é fumo, fumo que arde,
inconsequente e férreo, veloz, voraz. É sede e força que se abraçam. É sombra e
voz que se ligam, imaginação imperfeita dos corpos que não existem. Suor, suor
frio e quente, toque, toque leve e envergonhado. Corre, que o presente não
suporta a nossa dor. Quebra a luz, entra na escuridão luminescente do álcool, vem
comigo, partamos ao meio a fatia de solidão que nos calhou, choremos juntos a
verdade que a embriaguez consola. Porque o presente é insuportável e não ouve
ninguém. Queremos o bem do mundo, tão só o bem simples do mundo, mas somos
sempre em falha, passageiros sem bilhete, multa imperativa, tristeza magoada
que se afunda e nos afunda, sempre mais e mais. Madeira é a que cheira este
estrado em que me deito e estico, tabaco impregnado de tempo, olho turco que espelhando-me
a ti espelha, coisa sem sombra que sou, que somos, vapor, vapor sem lembrança. Voz
ao fundo, música de fundo lento, sala onde dançamos, de cabelos e braços
desnudados, sombras, vultos perdidos e soltos, liberdade que só o vento, muito
vento, nos traz. Assim vagueamos pela noite, pelas noites das memórias vagas. Sentir
vibrante, como te quero. Porque o amor não se basta e o amar concreto é
horizonte que se não revela. Suor, calor, alma em partilha contínua. Fazes-me
falta e não sabes, nem da falta que me fazes, nem de mim. Nem de mim… Do eu,
que sou e mais não posso. Não posso gritar mais pelo que não existe, por ti. Há
coisas e palavras que se não ouvem na confusão dos dias secos. Pudéssemos ao
menos dizer a todos os cantos e recantos e recortes como o amor é denso e mudo
e belo. Pudéssemos quebrar toda a distância. Pudesse eu fazê-lo por nós, por
mim, por ti só. Mas o astro da convenção, do como deve de ser, arrasa-nos com desculpas
e medos infundados. Tenho a mim e ao dia estafado de tanto amar em perda.
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Manhã. Noite. Manhã, noite,
noite, manhã. O dia é sempre igual à noite. Neste lugar. Aqui, onde o tempo não
passa. Onde a solidão das máquinas, o rubor das luzes, o gás vesicante das
balas, se não calam. Onde os teus olhos, os teus olhos sós, baços de sofrer, ardentes
de tantos silêncios e pausas e evicções, emudecem os corações que passam sem
parar. Porque o teu corpo, grande, braçudo, maciço. Porque o teu corpo tropeçou
no embaraço da força cadente. Porque a tua força ficou ausente sem que assim
quisesses. Porque a tua vontade foi vencida. Porque não pudeste dizer sim ou
não. Porque o vazio que deixaste cedo se fechou. Assim partiste. Tão perto da
verdade que temias. Tão silente, para que ninguém soubesse. Partiste sem deixar
rasto, partiste como chegaste, levando contigo tudo aquilo que trazias – nada. Porém
muito deixaste, acredita, deixaste, e como dói o que ficou. Como dói a
incapacidade, a crueldade, a esperança imodesta e falsa que te dei, o aperto de
mãos que trocámos naquela manhã, na manhã que não foi noite, nem manhã, nem
nunca mais além do momento, daquele momento, daquele rasgo de luminosidade pérfida e fugaz. Desculpa,
desculpa-me se te magoei demais.
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