Não tenho muito, nem saber, nem sonho, nem esperança. Vivo do sentir
restante. Do que outrora de bom em mim poderá ter tocado alguém. Não tenho
memória do que fui, nem saber do que estudei ou fiz (fazia) sem esforço. Sou
vazio, total e absoluto. Corpo que se move, incessantemente, em direcção a
nada. Guitarra que foi som. Mão que palpou, ouvido que escutou outros
murmúrios, outros sentires. É difícil viver assim, sempre em dor, em
desesperança. Vivo do amor restante, do pouco mar que ainda é mar. E no
princípio, mesmo sem nome ou razão, tenho tudo aquilo de que preciso para ser
feliz. Mas não encontro, não te encontro.
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Wednesday, March 13, 2019
Saturday, March 10, 2018
~
vieira
2018
2018
~
de regresso a casa
a este espaço silente
em que sou eu só
sem expectativas
nem retornos
a este sonho
que reinvento
sem aparas
ao ser-me
agora
de novo
sem saber
quem fui
esqueci-me
de tudo
do todo
a que me dei
inteiramente
se grande
tiver sido
o pouco
do que fui
por inteiro
terá sido
naquele
dar-me
constante
humilde
(e)terno
naquele
estar
verdadeiro
e pleno
consumido
pela verdade
de outros olhos
de outros modos
de entender
a vida
por agora
não sei
como
sobreviver
a este
regresso
a esta
casa
estranha
silente
sem
retorno
Wednesday, March 30, 2016
~
Manhã cedo. É Março. Escuta-se o reboliço dos pássaros contentes. Há sol que entra pelas persianas. O céu é inesperadamente azul, assim se aguente para o resto do dia. Sinto que talvez seja hoje o dia ideal para voltar a acreditar nos homens. Escolho o azul porque é a cor que apetece, dentro das cores de que disponho no armário.
Espera-me uma entrevista concursal e, ainda que não seja legume de exposição, há que manter o aspecto dentro da normalidade que se aplica a estas situações. Ir pelo menos penteada, com sapatos íntegros e roupa ajustada ao tamanho.
E então lá vou, sem grandes nem pequenas expectativas, pois que essas não as tenho há algum tempo. Chego mais cedo e por isso as cadeiras estão vazias. Abatanado, tostas, bolo alentejano. Tudo em silêncio matinal, fora os pássaros que no jardim continuam a cantar, mais e mais. São horas de ir.
Chego com trinta minutos de avanço, para procurar o local exacto da reunião e porque o cumprimento horário assim o exige, pelo menos a meu ver - antes cedo do que tarde ou em cima da hora. O júri atrasa-se uns minutos. A entrevista começa.
Bom dia. Apresentações. Muito obrigada e tal por ter vindo. Sabe, o seu currículo, bom, é um excelente currículo mas não obedece aos critérios da grelha. Porque escolheu vir cá? Foi uma epifania?
Não sendo eu crente, achei que deveria justificar a escolha de forma cordial e delicada. Bom, porque as decisões que se tomam na vida vão mudando no seu decurso, porque somos seres que se esperam versáteis num tempo que se apresenta dinâmico e vário. Porque sou apaixonada pelo que me proponho a fazer. Porque (penso para comigo) se não estivesse convicta daquilo que considero ser capaz, não viria sequer aqui, importunar os senhores doutores e a mim mesma.
Desiludida, lá respondo às questões. Duram cerca de cinquenta minutos, sendo que desde os cinco primeiros persistiu um certo menosprezo, uma certa condescendência protocolar.
- Pronto, mas olhe, não desista do seu sonho. Se não for desta, continue o esforço e tente noutras oportunidades. Vá ter aulas de canto. Tem boa voz, tem talento. Quando melhorar, num sem nunca à tarde, pode voltar. É provável que estejam por cá outras pessoas. Deixamos a batata quente para elas, que agora faz muito calor e queima, queima.
Procuro manter a calma e tranquilidade de quem se sabe a falar para três paredes, espessas, porque nem sequer ecoa.
Currículos à parte, grelhas postas fora, ficam os braços e a vontade transparente e imensa.
Saio triste mas fortalecida. Não me enganei. Não só na minha especialidade continua a ser o papel que importa. Não só as pessoas em quem confiei a minha formação se submetem a desígnios vários e duvidosos.
Claro que o papel serve para muita coisa. Usa-se para publicar, para pedir análises e receitas, para fazer aviões, para jogar ao quantos-queres, para pagar contas, para limpar os beiços e as regiões pudendas, para jogar ao totoloto, entre tantas outras coisas.
O problema é que nós não somos feitos de papel. Somos de carne, osso, espírito. Também não somos todos iguais, não nos guiamos pela mesma bitola. Não quer isso dizer que sejamos mais ou menos competentes, melhores ou piores.
Somos, simplesmente, diversos, e por mais que me esforce, não consigo conceber a natureza de outro modo.
Felizmente que é Março e os pássaros cantam e as flores cheiram e o céu é azul e há aqueles que nos amam e que incondicionalmente esperam por nós.
Felizmente que há uma utilidade próxima e intensa para esta nossa vidinha de papel e riso.
Espera-me uma entrevista concursal e, ainda que não seja legume de exposição, há que manter o aspecto dentro da normalidade que se aplica a estas situações. Ir pelo menos penteada, com sapatos íntegros e roupa ajustada ao tamanho.
E então lá vou, sem grandes nem pequenas expectativas, pois que essas não as tenho há algum tempo. Chego mais cedo e por isso as cadeiras estão vazias. Abatanado, tostas, bolo alentejano. Tudo em silêncio matinal, fora os pássaros que no jardim continuam a cantar, mais e mais. São horas de ir.
Chego com trinta minutos de avanço, para procurar o local exacto da reunião e porque o cumprimento horário assim o exige, pelo menos a meu ver - antes cedo do que tarde ou em cima da hora. O júri atrasa-se uns minutos. A entrevista começa.
Bom dia. Apresentações. Muito obrigada e tal por ter vindo. Sabe, o seu currículo, bom, é um excelente currículo mas não obedece aos critérios da grelha. Porque escolheu vir cá? Foi uma epifania?
Não sendo eu crente, achei que deveria justificar a escolha de forma cordial e delicada. Bom, porque as decisões que se tomam na vida vão mudando no seu decurso, porque somos seres que se esperam versáteis num tempo que se apresenta dinâmico e vário. Porque sou apaixonada pelo que me proponho a fazer. Porque (penso para comigo) se não estivesse convicta daquilo que considero ser capaz, não viria sequer aqui, importunar os senhores doutores e a mim mesma.
Desiludida, lá respondo às questões. Duram cerca de cinquenta minutos, sendo que desde os cinco primeiros persistiu um certo menosprezo, uma certa condescendência protocolar.
- Pronto, mas olhe, não desista do seu sonho. Se não for desta, continue o esforço e tente noutras oportunidades. Vá ter aulas de canto. Tem boa voz, tem talento. Quando melhorar, num sem nunca à tarde, pode voltar. É provável que estejam por cá outras pessoas. Deixamos a batata quente para elas, que agora faz muito calor e queima, queima.
Procuro manter a calma e tranquilidade de quem se sabe a falar para três paredes, espessas, porque nem sequer ecoa.
Currículos à parte, grelhas postas fora, ficam os braços e a vontade transparente e imensa.
Saio triste mas fortalecida. Não me enganei. Não só na minha especialidade continua a ser o papel que importa. Não só as pessoas em quem confiei a minha formação se submetem a desígnios vários e duvidosos.
Claro que o papel serve para muita coisa. Usa-se para publicar, para pedir análises e receitas, para fazer aviões, para jogar ao quantos-queres, para pagar contas, para limpar os beiços e as regiões pudendas, para jogar ao totoloto, entre tantas outras coisas.
O problema é que nós não somos feitos de papel. Somos de carne, osso, espírito. Também não somos todos iguais, não nos guiamos pela mesma bitola. Não quer isso dizer que sejamos mais ou menos competentes, melhores ou piores.
Somos, simplesmente, diversos, e por mais que me esforce, não consigo conceber a natureza de outro modo.
Felizmente que é Março e os pássaros cantam e as flores cheiram e o céu é azul e há aqueles que nos amam e que incondicionalmente esperam por nós.
Felizmente que há uma utilidade próxima e intensa para esta nossa vidinha de papel e riso.
Thursday, January 28, 2016
~
ressurgir-me
porque
porque
lá fora
há um sol
e um mar
consumir-me
pela dúvida
pela dúvida
que é nossa
só
não há sentido
possível
possível
nem resposta
para a vida
que começa
e acaba
síncrona
não há expressão
alegre ou triste
alegre ou triste
num corpo
arrefecido
somos
o que vamos
o que vamos
sendo
o absoluto
intangível
intangível
que procuramos
entender
são as nossas
limitações
a eternidade
não existe
não existe
senão
no egoísmo
nosso
de querer
deter
a vida
a termo
próprio
suspender
o cair
das folhas
secas
fixar o verde
dos campos
os troncos
cansados
é preciso
inexistir
inexistir
para que
as flores
despontem
e os pássaros
cantem
o dia novo
partir
é um sopro
é um sopro
que se extingue
em nada
somos
amar breve
e imperfeito
amar breve
e imperfeito
e o sol
e o mar
não esperam
Wednesday, October 21, 2015
Poslúdio
Sábado. Manhã fria. Daquelas em que o ar arrefece o peito, bem dentro de nós. É cedo e por isso o silêncio de quem dorme ameniza o bulício da semana que passou. São horas de acordar. Há um dia para viver.
Nem sempre é fácil, sobretudo quando a dor que sentimos por dentro é maior do que nós. Não há limiar nem limite nem fim para ela. Está sempre, simplesmente.
Mas hoje é uma manhã diferente. Uma manhã de revelação. Um despertar sem ontem. Sinto-me triste, ou pelo menos magoada, com a hipocrisia e cinismo de algumas pessoas. Revoltam-me as injustiças. Indispõem-me as manifestações de vassalagem e medo. Dispenso aqueles que se vergam, que não olham de frente. Que se não olham. Os (ine)céfalos que não contestam nem pensam. Os tristes que não dispensam o protagonismo, seja a que custo for.
É certo que nem sempre estamos tão preparados quanto julgamos para enfrentar o inevitável. Ontem foi um dia assim, de surpreendimento sem surpresa. De revelação revelada. De representação.
Por vezes é-nos inacessível o entendimento das coisas e pessoas em redor. Talvez porque aquilo que julgamos ser verdadeiro seja tão somente a reprodução dos silogismos éticos que cedo nos ensinaram, dos padrões de conduta do afrouxamento.
Desilusão. Talvez seja essa a palavra certa para a confirmação clara do que em nós existe de pérfido e grotesco. Mesmo entre pessoas como estas, que vivenciam os limites frágeis da vida, todos os dias. Para pessoas que deveriam ter já como certa a vulnerabilidade do ser, sem título algum de acesso à eternidade.
Independentemente da crença de cada um, certo é que somos todos feitos da mesma massa, que todos nós sentimos e pensamos. Que todos temos o dever e o direito de partilhar ideias, de expor sem subterfúgios a insignificância irrisória que é a nossa existência quando comparada com a vida imensa que é dentro de nós. É nisto que reside parte da magia, como nas histórias que ouvimos e nos fizeram vibrar.
Importa agora parar para sentir as cores, os aromas, os sons que ficaram longe. E embora seja triste esta manhã que desponta, há nela uma serenidade intrínseca, um peso que se abate sobre o que passou.
Mais importante que o sentir-me humilhada, é despertar e saber que não estou só. Que neste mundinho pequenininho e mesquinho existe alguém, por mim.
Há um caminho a traçar, de fronte erguida e, por mais que se prevejam tempos difíceis, não há preço para sermos livres e em verdade.
Por vezes é-nos inacessível o entendimento das coisas e pessoas em redor. Talvez porque aquilo que julgamos ser verdadeiro seja tão somente a reprodução dos silogismos éticos que cedo nos ensinaram, dos padrões de conduta do afrouxamento.
Desilusão. Talvez seja essa a palavra certa para a confirmação clara do que em nós existe de pérfido e grotesco. Mesmo entre pessoas como estas, que vivenciam os limites frágeis da vida, todos os dias. Para pessoas que deveriam ter já como certa a vulnerabilidade do ser, sem título algum de acesso à eternidade.
Independentemente da crença de cada um, certo é que somos todos feitos da mesma massa, que todos nós sentimos e pensamos. Que todos temos o dever e o direito de partilhar ideias, de expor sem subterfúgios a insignificância irrisória que é a nossa existência quando comparada com a vida imensa que é dentro de nós. É nisto que reside parte da magia, como nas histórias que ouvimos e nos fizeram vibrar.
Importa agora parar para sentir as cores, os aromas, os sons que ficaram longe. E embora seja triste esta manhã que desponta, há nela uma serenidade intrínseca, um peso que se abate sobre o que passou.
Mais importante que o sentir-me humilhada, é despertar e saber que não estou só. Que neste mundinho pequenininho e mesquinho existe alguém, por mim.
Há um caminho a traçar, de fronte erguida e, por mais que se prevejam tempos difíceis, não há preço para sermos livres e em verdade.
Sunday, February 24, 2013
~
foto retirada de www.olhares.com (link do autor)
~
é noite aqui
e a neve
junta-me
aos bocados
restantes
do sonho
inconsumado
longe
daqui
deste espaço
sem mar
nem céu
além-gelo
nem estrelas
nem luar
que o
trespasse
escuto-te
-
-
guitarra
plangente
que tocas
adentro
e só
pelas horas
desprovidas
de esperança
.
.
trazes-me
a pedra
quente
as sombras
dos átrios
por onde
vagueio
sem hora
nem estar
invocas-me
os passos
dolentes
de nós
esculpidos
em saberes
e desejos
devolutos
e as vozes
uníssonas
que cantam
à surdina
o amor
primeiro
saudade
vaga
de um tempo
findo
sem lugar
nos lugares
comuns
e transigentes
de nós
.
porque
a vontade
a emancipação
do pensar
a concretização
do ser
que nos
fervilha
essas
tiraram-nas
aos dias
e às cores
que não
escolhemos
.
toca
guitarra
alma
portuguesa
toda
que trazes
em ti
tristeza
doce
e escura
dos trajes
(im)ponentes
das capas
negras
cruzadas
ao vento
plácido
da serenata
fria
.
geme
guitarra
a dor
que é
saber antes
a verdade
e lutar
em consciência
e sem
vontade
pela causa
já vencida
.
geme
guitarra
a clausura
do amar
breve
e sem depois
a solidão
sem lar
a resposta
que se cala
de olhar
baixo
a palavra
adiada
que o orgulho
não consente
chora
o espaço
que nos
não
pertence
porque
somos
a mais
sempre
.
mostra-me
guitarra
longe
um caminho
por que
seguir
se ele
existe
.
leva-me
na distância
de ti
e a esta
mágoa
que é
saudade
recusada
(…)
Tuesday, November 13, 2012
~
~
despertasses em mim
paixão imensa
ao largo do dia claro
de Novembro
intrínsec’ ao azul
do céu
e ao canto livre
e pelejante
das gaivotas
sonhando um sonho
que foi já meu
despertasses em mim
força obstinada
o desejo compulsivo
de querer
o que não posso
e ser
o que não consigo
e ter
o que não tenho
despertasses-me
um sentido
por que seguir
e em mim
palavra primeira
que não fosse amor
.
.
pudesse eu ser breve
no que sinto
assertiva na verdade
que recuso
pudesse eu ser-me
sem mim
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