Não tenho muito, nem saber, nem sonho, nem esperança. Vivo do sentir
restante. Do que outrora de bom em mim poderá ter tocado alguém. Não tenho
memória do que fui, nem saber do que estudei ou fiz (fazia) sem esforço. Sou
vazio, total e absoluto. Corpo que se move, incessantemente, em direcção a
nada. Guitarra que foi som. Mão que palpou, ouvido que escutou outros
murmúrios, outros sentires. É difícil viver assim, sempre em dor, em
desesperança. Vivo do amor restante, do pouco mar que ainda é mar. E no
princípio, mesmo sem nome ou razão, tenho tudo aquilo de que preciso para ser
feliz. Mas não encontro, não te encontro.
Wednesday, March 13, 2019
Tuesday, March 5, 2019
Saturday, March 2, 2019
~
O mundo desperta com a luz da manhã. Há uma vida lá fora, cumprindo-se em
contínuo, sem que a nossa pressa, sem que o nosso desespero e intransigente
inquietude a perturbem.
Há um campo vasto de luz, lá fora, e o odor fresco, verde, salgado, que se
não pode atingir. Distam os nossos tempos, as nossas cores contrastantes, as
nossas angústias, os nossos silêncios estridentes e vastos. Procuro-te,
incessantemente, nesta manhã, nesta dor constante que é sentir-te, estando, só.
Não muito distantes, há dois apelos que por mim chamam e saltam e explodem
de alegria quando a meu lado. Mas tudo pesa, e nem essa energia vital e
brilhante e verdadeira, nem aquele amor que se não exprime por palavras
inteligíveis, poema de um vocabulário próprio e essencial, nem este abraço garantido,
nada substitui o sentido ausente.
Procuro sem direcção aquilo que não sinto. Porque há, sei que existe, alguma
coisa maior, uma essência que se agita acima de todas as coisas do quotidiano
normal, de qualquer intento, de qualquer domínio que se possa controlar por
gestos ou palavras secas.
E entre mim (entre nós) e o universo resplandecente e claro que se não
alcança, há um vale imenso e oscilante, uma dor que corrói e persiste, uma
saudade imensa e intransponível. Nem a música, a música.
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