Sunday, June 21, 2020

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Não tenho muito a dizer ao mundo. Seguramente que há muitas coisas, coisas verdadeiramente importantes e pertinentes, verdades e afazeres que perdurarão no tempo, porque verdadeiramente terão contas e fortunas a dar ao mundo. Mas ainda assim, mesmo sabendo da escassez de sentido e propósito desta vida, deste texto, ainda assim há um presente, há um dia para viver, há uma consciência a frenar e uma tristeza constante que é preciso suportar. Por isso, quando se abre a janela e se escutam os ecos da vida lá fora, e os odores e aromas gastronómicos das outras casas, e o barulho dos pratos ao princípio do final da tarde, findos os repastos e inaugurado por fim aquele apaziguante silêncio pós-prandial, há uma serenidade que se assoma à dureza do dia, que se alia à solidão e ao propositado despropósito das nossas vidas. Estaremos sempre aqui, sempre aqui.

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monte
 Abril 2020

Wednesday, April 15, 2020

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Por mais sentidos possíveis, por mais portas e luzes que se revelem possíveis, há sempre dois caminhos que se repetem e mudam, na exaustão de si mesmos, cada um por si. Partimos sempre sem pensar, na certeza de que o partir é a escolha mais sólida e segura. Chegamos tristes mas confiantes, cansados mas cientes da força que ressurge, por novas aragens, por novos rostos e esperança renovada. Mas o tempo passa, e essa força renovada é cansaço renovado, e tudo isto, ciclicamente, repetindo-se vezes sem conta. Prometemos a nós mesmos, confiamos a nós mesmos uma certeza que não existe, uma vontade que é de nós mas não é nossa. Combatemos a inércia, a falta de vontade, a inoperância, com brindes e instantes inebriados. E há nesses partires cíclicos, nessas rupturas recorrentes e sofridas, no limiar de cada segundo, um precipício da vontade, um golpe de silêncio, de saudade. Estar-se onde se não está, ir para onde nos remete o coração, sem medos, sem perguntas nem remorso. Mas todo o partir é uma saudade renovada, todos os regressos são a triste constatação de um tempo irrecuperável, de opções e decisões irreversíveis, de perdas e perdas sem fim. Viver é um desequilíbrio equidistante entre o sentir e a norma, entre o medo e a liberdade para ser, em plenitude, em verdade. E neste momento, neste agora, transitados tantos sentidos semelhantes, perdidos tantos momentos, tantas possibilidades verdadeiras, parece-me a mim que tudo isto não passa de um sonhar patético, de um problema de alma, de uma mente perturbada e inconsequente. Parece-me a mim que o problema não vem de fora, deste mundo estranho e árido. Talvez seja eu só, sejamos nós, sós, os causadores de toda esta tormenta, de todo este desespero ilógico. Talvez a incapacidade de relacionamento com o exterior, a dificuldade no estabelecimento de elos, a intransigência para com as pessoas que decidem sobre os nossos futuros, a incapacidade para calar e deixar de transmitir opiniões e questionamentos inúteis, talvez tudo isso seja um defeito nosso e não do mundo, que é sempre o mesmo, que, segundo se diz por aí, foi sempre assim. E nesta dúvida, na percepção de que talvez haja uma fonte de razão quando nos afirmam haver uma constância no mundo que se não pode, não podemos, mudar, nesta assumpção da falha que é minha, que sou eu, no final de tudo isto resta uma tristeza enorme, uma impossibilidade enorme, uma incerteza enorme. Resiste-se esquecendo, em sonos inquietos, a injustificação da vida, a fragilidade deste existir intenso mas sempre inconsequente, deste amar imenso mas antecipadamente só, porém eternamente possível e aberto ao futuro e a todos os sonhos de que somos feitos. Do princípio ao fim, de nós.


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explorações
(no tempo)

Friday, April 10, 2020

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São longos os dias. Por mais ocupações, por mais deveres ou preocupações em mente, são sempre longos os dias, estes dias, de vazio. Não há espelho que nos sirva, ideia que nos capte a atenção, a constância necessária para um sono sossegado. Porque constante, perene, é a tristeza que trazemos, é a desunião que nos une nesta solidão atroz, é o desprazer de haver gente e mais gente que morre, e de ainda não ter chegado a nossa hora, por ora refastelada e doce, tragada num cálice de porto regado com ameixas e chocolate negro. E por mais que este nosso presente não seja o pior dos cenários do momento, por mais que sobre a nossa cama não pairem seringas infusoras, nem da nossa boca não saia um tubo de plástico. Por mais que possamos abrir os olhos e espreitar, conscientes, a nesga de luz que passa pelos estores corridos dos nossos quartos, por mais que possamos comer à mesa com a solidão, porém bem abastecidos e fastos. Por mais que ainda estejamos vivos e possamos fingir que há uma vida que continua e espera, que existe um futuro-breve,  normal, para o qual fomos educados. Por mais que tudo isto, e toda esta maquinal eloquência, repetida à exaustão do desespero, da incapacidade, da inércia determinada pela falência do que somos enquanto seres, dotados de imperfeição e medos e incapacidade para reconhecermos na morte do outro a imagem da nossa ignorância e mediocridade. Longos são os dias em que preferia arriscar a vida num abraço terno, eterno, no abraço forte que me falha e tarda, infinitamente, pelos dias longos, por estes dias longos e sem sentido. Porque na verdade, e esta é a verdade, somos na medida de por quem somos, e só sorrimos e acordamos felizes na penumbra vital daqueles que amamos e nos amam. Faça chuva, sol, frio, vento, ou uma qualquer tempestade viral que nos arraste e leve. É a solidão a nossa maior hecatombe. É a vibração, o som baixo de quem respira sobre o som baixo que é em nós, de nós, dos nossos corações cruentos por não poderem sentir nem bater por quem, é a vida no limiar do amar absoluto, desprovidamente verdadeiro e essencial, que nos prende a um motivo maior. É o amor, apenas o amor, que nos garante a tolerância bastante para este mundo desigual, cruel, imundo. E nesta loucura, neste apartamento intransigente e feroz, neste viver virtual e cómodo, nesta distância imposta pelo medo, nesta coragem deposta pelo pavor de morrer, e de fazer morrer, como se ainda aqui estivéssemos, vivos e vorazes. Neste vazio frio e mordente, neste congelamento do tempo, no amanhã, não muito longe, naquela sempre manhã azul e clara de verão que por nós espera. Nesta expectativa constante, confiante, segura de si. Em tudo isto reside a longura das horas longas, e este sentir putativo e apaziguador, sobejando sempre, ardente e duro. Pudesse, pudéssemos quebrar as barreiras semânticas do respeito, sair para a rua de braços abertos ao mundo e à vida restante. Pudéssemos viver sem que ao amor se chamasse perversão, nem ao desejo de ser livre se lhe atribuísse o epíteto - egoísmo. Pudéssemos esquecer, assim, tão facilmente, o nome de quem se ama letra a letra revelado. A saudade.

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 Fevereiro de 2020

Monday, February 24, 2020

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No fim do caminho, quando a tarde finda em cores infinitas e sons de recolhimento silvestre, e o aroma cítrico da aragem densa e robusta traz a tua ausência presente, o teu porte de árvore grande e imensa, a tua mão esculpindo uma casca de pinheiro, um barco, um gaio, um corvo entoando um eco livre e aberto a tudo o que se não sabe, se não diz ou faz.

Nesse rastilho de verdade, nesse prumo torto e curvilíneo, qual tronco retorcido pelo vento, nesse corcel que é a nossa vontade intrínseca, a nossa incapacidade eterna para sermos felizes entre dentes de oiro e odores de fábrica.  

Nesse sem sentido comum, que em tempos vários é e foi vida, nesse horizonte verde de gradientes vários que é cá dentro turbilhão, insatisfação, tristeza, saudade. 

Em tudo isso, e em tudo o mais o que sentimos e não sabemos, é a razão mais simples e absoluta para esta ausência de sentido, para esta distância imposta pelo partir, tão cedo.

Caminhamos, caminharemos sempre nesta harmonia silente,  neste aqui e agora que é nosso só, nesta partilha espontânea que dispensa todas as palavras, todas as lucubrações que à mente humana se impõem, nesta verdade que se não explica, mas sente.

Não existe nada maior do que este espaço, do que esta terra que nos deste a conhecer e fizeste nossa. E o caminho, que não finda, é sempre recomeço, é sempre motivo para seguir sem medos, no abraço demorado que nos espera. 

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cascavel 
Fevereiro 2020

Tuesday, December 17, 2019

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Quando fazes merda por todo o lado e ainda assim segues o teu coração e os teus nervos.
Quando adormeces e acordas sem ninguém a teu lado além de ti e da tua cabeça e voz pesadas.
Quando na vida és de todos menos de ti, e sonhas sempre com aquilo que não está errado ante os teus olhos fixados num mundo justo e perfeito, que não existe.
Quando depois de tudo isso vem a fome, o sem tempo para comer porque tudo e nada esperam por ti, o sem tempo para sentir o tempo, o lugar que ocupas sem estares nele.
Quando consomes todos os teus músculos e sorrisos.
Quando desesperas porque a felicidade não esperou por ti.
Quando te falha um abraço que deixas por dar a quem de ti espera um beijo terno, mesmo que sem nome, sem motivo, sem ideia, sem solução.
Quando dás por ti e não és nada, nunca foste.
Quando o presente já não te pertence e o futuro não existe.
Quando de tristeza, só, tristeza, se faz o momento.
O que fazer, o que fazer.

Monday, October 21, 2019

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este passeio
foi feito para
pessoas felizes

para moços
e moças
com saúde

para crianças
sorrindo 
e brincando 
alegres

para senhores
e senhoras
de colete 
amarelo
fluorescente
usando fitas
na cabeça

para gente 
correndo
de fones
e pescoço 
corcovado

foi feito
para passar
sem medos
nem porquês

amplo
azul 
tejano

este passeio
não foi feito
para nós

Tuesday, October 15, 2019

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que fazemos nós
aqui
que arrogância
e determinação
são estas
que nos empurram
para o abismo
de nós mesmos

que dizemos nós
no silêncio
mutualístico
em que vivemos
tranquilos e sós

que mundo 
é este
sem espaço
para amar
serenamente
levemente
docemente
nuamente

que vazio este

ruído de gente
passando 
como coisa

coisas
que nos ferem 

(não mais
do que a
palavra ausente)

amo-te
absoluto inefável
tristeza
imensa e inútil

amo-te
sem princípio
sem nome
no fim de tudo
o que não serve
no recomeço
de um dia
qualquer

(...)

 

Tuesday, August 20, 2019

Tuesday, June 18, 2019

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 coruche 2019

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E é na tua ausência que me revisito, só. Nada de novo por aqui. Apenas uma saudade imensa, um perder-te constante, a cada gesto, a cada olhar recusante. Perco-me na imensidão deste sentir vasto e sempre quérulo, porque me falhas, porque me faltas. Tudo se resume a um vazio imenso, a um abraço imenso que te não posso dar. Tenho sempre saudade. O tempo, pudesse o tempo aproximar-nos, equalizar a distância que nos afasta. Pudesse eu dizer-te tudo isto, assim, sem meias-palavras, sem mundo além de nós. E em tudo isto, em todo este afastamento, és intensamente grande na presença, no espaço que é teu apenas, sempre teu. Não há esperança maior do que o tempo, restando, por entre as folgas deste viver confuso.

Wednesday, March 13, 2019

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Não tenho muito, nem saber, nem sonho, nem esperança. Vivo do sentir restante. Do que outrora de bom em mim poderá ter tocado alguém. Não tenho memória do que fui, nem saber do que estudei ou fiz (fazia) sem esforço. Sou vazio, total e absoluto. Corpo que se move, incessantemente, em direcção a nada. Guitarra que foi som. Mão que palpou, ouvido que escutou outros murmúrios, outros sentires. É difícil viver assim, sempre em dor, em desesperança. Vivo do amor restante, do pouco mar que ainda é mar. E no princípio, mesmo sem nome ou razão, tenho tudo aquilo de que preciso para ser feliz. Mas não encontro, não te encontro.

Saturday, March 2, 2019

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O mundo desperta com a luz da manhã. Há uma vida lá fora, cumprindo-se em contínuo, sem que a nossa pressa, sem que o nosso desespero e intransigente inquietude a perturbem.

Há um campo vasto de luz, lá fora, e o odor fresco, verde, salgado, que se não pode atingir. Distam os nossos tempos, as nossas cores contrastantes, as nossas angústias, os nossos silêncios estridentes e vastos. Procuro-te, incessantemente, nesta manhã, nesta dor constante que é sentir-te, estando, só.

Não muito distantes, há dois apelos que por mim chamam e saltam e explodem de alegria quando a meu lado. Mas tudo pesa, e nem essa energia vital e brilhante e verdadeira, nem aquele amor que se não exprime por palavras inteligíveis, poema de um vocabulário próprio e essencial, nem este abraço garantido, nada substitui o sentido ausente.

Procuro sem direcção aquilo que não sinto. Porque há, sei que existe, alguma coisa maior, uma essência que se agita acima de todas as coisas do quotidiano normal, de qualquer intento, de qualquer domínio que se possa controlar por gestos ou palavras secas.

E entre mim (entre nós) e o universo resplandecente e claro que se não alcança, há um vale imenso e oscilante, uma dor que corrói e persiste, uma saudade imensa e intransponível. Nem a música, a música.

Monday, February 18, 2019

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É tão simples, o teu sorrir. E o ânimo com que fazes as tarefas normais do dia. E a cor que as coisas simples em ti despertam. Vives bem contigo, assim, no teu dia-a-dia normal e feliz. E é tão bom sentir essa tranquilidade indefinida. É tão certo sentir que estás bem em ti. Tão certo.

Tuesday, February 12, 2019

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É difícil sentir-te, manhã azul e clara. Silêncio promissor. Serenidade que não existe.

Ouve-se ainda o rumor fremente e baixo que corrói as casas e os pilares de madeira que sustentam as casas. Cheiram a tinta ainda, as casas, a tinta estalada e seca. Não há sopro nem essência que se encontre nelas. E por mais vestígios de vida, há sempre um vazio triste e distante. 

Há a cultura, o saber fazer social, o parecer maior que ser, a crueldade meiga da palavra consentida, o gesto ausente.

Procuro o mar, que é longe, e a frescura verdejante dos campos sem nome. Imagino e sonho no presente, no impossível e inoperável presente. Falho sempre à chegada, quando tudo parece estar a ficar bem, quando há um motivo sólido e real e absoluto.

E aqui estou eu, de novo regressando ao início, ao princípio de tudo, desprovida como dantes daquilo que me é essencial e eterno. Resta-me a saudade, a sensação vigente de estar sempre a mais, de ser sempre a mais. Resta-me, de novo, a solitude obrigativa e sem sentido, a inoperância comum, o vazio duro e triste que é recomeçar só, que é sentir-me e perder-me só num caminho que se exige prático e vital e próspero.

Viver é transitar entre tudo e nada, entre ti e a ausência de ti, palavra repetida. E é fazê-lo vezes sem fim. Caminhar, caminhar, rumo ao lugar aonde aportam todas as direcções, todos os indícios de vida, toda a essência da verdade. Caminhar sem fim.

Friday, February 8, 2019

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perdi-me
na imensidão
de amar
sentindo
apenas
a vibração
branda e doce
que no teu
sentido
com o teu
sentido
ganhou
forma
e nome
e grandeza
que não
sou

esqueci-me
de como
eram os dias
quando
te não via
assim
como hoje és
para mim

era tudo
tão pequeno
tão anguloso
e habilmente
feio e vazio
que nem
entendia
a cor ausente
das coisas
que me eram
familiares
e consentidas

desaprendi
a vida
que me cabia
lesta e seca
como eu

eu que
noutro então
não cindia
nada
que sentisse
ou desesperasse
e despertasse
cá dentro

mas encontrei-te
tarde
sem tempo
nem lugar
que pudéssemos
habitar
somente

ousei imaginar
a nossa presença
una e constante
na intransigência
enorme
da verdade

mas tudo
é sempre
depois
tudo é
indevido
e está a mais
e foi a mais
sempre a mais

quando à noite
no regresso
a uma casa
sem onde
e de ninguém
o meu corpo
se entorna
e a contenção
amarga
que carrega
o dia
se esgota
exausta e só

quando
o dia se revela
sem sentido

é o teu
abraço
que me falha
e falta
sem princípio
nem fim

e é tão
ridículo
chorar
naquele abraço
que não existe

tão perverso
pensar
se serei
para ti
também
esperança
e desalento

que me traz
a tua
ausência

sinto-me fraca
sem tempo
de que não
precise
para recompor
o estrago
ansioso
e triste
que não passa

é noite já
apagou-se o azul
claro do mar
que hoje
não foi nosso

e a noite
quando vem
é saudade

locução
tremenda
daquilo que
não existe

Wednesday, February 6, 2019

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sinto-me hoje
no cumprimento
pleno
das tarefas
da vida
corrente e prática
é Belo este lar
e os pássaros
afora
cantando e rindo
de nós

somos fechados
no bafo quente
e ruidoso
que vem de cima
de lado
de todo o lado
de lado algum

não há voto
que não seja casto
neste silêncio maior
do que o vazio
estridente
restringente
hilário

comporta-te
ó Ruy
que és rei
antes do nome
poema
que entardece
com o verde
da tarde calma
que surgirá
por detrás
desta amálgama
de blocos pardos
banhados em cimento
arinto

chove
fazendo de conta
que chove
nesta vontade
suburbana
e triste
de caçar leões
e desferir
lonjuras
e sonhares
antigos

por agora
para sempre
desde agora
não há chinelo
nem pijama
nem robe
acetinado
que nos
caiam bem

só o dever
cordial
maquinal
deste ofício
único
e intransigentemente
inútil
de ser
mais um
e ainda assim
(ter de)
ser cada