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A amizade. Aquele sentimento bom, feliz e livre. Livre de convenções, de barreiras, de segredos, de constrangimentos.  Aquele estar, amplo e leve, apenas por estar, não importa o que se diga. Aquele querer sempre estar, aqui, além, do infinito ao ante finito, que é o pouco tempo que nos resta.  Aquele amar sem vergonhas, sem rodeios, sem medos. Aquele gostar que aumenta sempre, sem que nos importem as contrariedades, nem as venças e desavenças, desfeitas num abraço sentido. Por isso, por ser tão verdade, a amizade não tem fim nem hora marcada para o regresso.  A amizade é um reencontro constante, é brisa doce que ondula ao verde-mar do campo, da terra perfumada.  A amizade é sermos humanos, é sabermos que somos falhos e imperfeitos, é reconhecer os nossos erros e os dos nossos irmãos-amigos, e recebê-los com delicadeza, compreensão e respeito.  Porque nesta vida andamos todos a aprender, todos, sem exceção.

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Somos, dizia um amigo algures no tempo, demasiadamente tenrinhos, sobretudo para o mundo que nos espera lá fora.  O pior é que nos achamos sempre maiores, alguma coisa mais importante do que tudo aquilo que evidentemente nos perturba e causa dúvida e incertezas. Na realidade, não passamos de uns moços armados em seres com super-poderes, dotados de super-inteligência.  Acreditem, caríssimos, que este tecto velho só ainda não ruiu porque são ruins as carcaças que o carregam. Vocação, que vocação? A vocação constrói-se, dia-a-dia, com humildade e perseverança. Mais do que passar dias e noites em claro, a decorar frases sem nexo, para manter o   status   académico, há que parar para olhar em volta, respirar um pouco de ar, compreender o mundo em que somos e são os nossos pares, as pessoas reais, perecíveis e carentes, como nós. A dor não se alivia exclusivamente com fármacos. A angústia, o medo, a frustração, a perda, não se compadecem com meia dúzia de...

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O mundo, como era dantes, esvazia-se a prumo, na desilusão ambígua do esquecimento, conhecido e aceite a todas as horas deste não querer saber.  Olho ante o presente, penso em ti, no reencontrar-te que se faz tarde. Prontamente, porém, vem-me aquela sensação estranha e familiar de saber-te ausente deste mundo dos outros, que para ti deverá ser ainda mais risível e bacoco do que o era quando não era mundo dos outros, mas nosso, estranho e absurdo mundo, o nosso.  Pensei em ligar-te, mas não sei o número. Como é que se liga para aí? É incrível como mais facilmente conseguiria falar com um estranho, qualquer, à distância fónica de nove dígitos e uns toques.  Recorro por isso à memória, coisa que me vem assistindo mais do que aquilo que seria desejável. Nunca recordei tanto, acredita. Nunca vivi tanto ou senti tanto, parada, entre quatro paredes sólidas.  A vida estreita-se-me, entranha-se-me nestas roupas que visto, nesta cabeleira imensa que são o...

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Cacela (foto de MJF) ~ O meu lugar no mundo é sonhar. Acordar é uma névoa que perturba, que em mim estreita a capacidade de viver. Valem-me aqueles que amo e me são próximos, certamente que sim. Valem-me as emoções conjuntas, o sentir que não estou só. Mas fixar o rosto nos ponteiros do relógio, atentar na cinética lenta da luz, seguir o rasto certo da terra quente, segundo a segundo, de vazio em vazio, exaspera e corrói. Há vários caminhos a seguir. Há perfeições diversas, que ora singram, ora caem no saco fundo da repulsa. Há certos e errados simultâneos. Há sorrisos e trismos cínicos coincidentes, brilhando nas mesmas bocas ímpias, mas alvas. Porém, ciente da homogeneização dos opostos, da continuidade dos sentidos, que se opõem e tocam sincronicamente, tudo faço para evitar o que me é estranho. E talvez seja por isso que não consigo conceber a vida prática sem pólos, sem modelos binários, sem verdades opostas e exclusivas entre si. Porque pensar de...

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Cacela (foto de FP ) ~ O meu lugar no mundo é sonhar. Acordar é uma névoa que perturba, que em mim estreita a capacidade de viver. Valem-me aqueles que amo e me são próximos, certamente que sim. Valem-me as emoções conjuntas, o sentir que não estou só. Mas fixar o rosto nos ponteiros do relógio, atentar na cinética lenta da luz, seguir o rasto certo da terra quente, segundo a segundo, de vazio em vazio, exaspera e corrói. Há vários caminhos a seguir. Há perfeições diversas, que ora singram, ora caem no saco fundo da repulsa. Há certos e errados simultâneos. Há sorrisos e trismos cínicos coincidentes, brilhando nas mesmas bocas ímpias, mas alvas. Porém, ciente da homogeneização dos opostos, da continuidade dos sentidos, que se opõem e tocam sincronicamente, tudo faço para evitar o que me é estranho. E talvez seja por isso que não consigo conceber a vida prática sem pólos, sem modelos binários, sem verdades opostas e exclusivas entre si. Porque pensar de...