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Showing posts from August, 2017

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A amizade. Aquele sentimento bom, feliz e livre. Livre de convenções, de barreiras, de segredos, de constrangimentos.  Aquele estar, amplo e leve, apenas por estar, não importa o que se diga. Aquele querer sempre estar, aqui, além, do infinito ao ante finito, que é o pouco tempo que nos resta.  Aquele amar sem vergonhas, sem rodeios, sem medos. Aquele gostar que aumenta sempre, sem que nos importem as contrariedades, nem as venças e desavenças, desfeitas num abraço sentido. Por isso, por ser tão verdade, a amizade não tem fim nem hora marcada para o regresso.  A amizade é um reencontro constante, é brisa doce que ondula ao verde-mar do campo, da terra perfumada.  A amizade é sermos humanos, é sabermos que somos falhos e imperfeitos, é reconhecer os nossos erros e os dos nossos irmãos-amigos, e recebê-los com delicadeza, compreensão e respeito.  Porque nesta vida andamos todos a aprender, todos, sem exceção.

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Danço. Danças. E a música é lenço branco voando. E a noite é fumo, fumo que arde, inconsequente e férreo, veloz, voraz. É sede e força que se abraçam. É sombra e voz que se ligam, imaginação imperfeita dos corpos que não existem. Suor, suor frio e quente, toque, toque leve e envergonhado. Corre, que o presente não suporta a nossa dor. Quebra a luz, entra na escuridão luminescente do álcool, vem comigo, partamos ao meio a fatia de solidão que nos calhou, choremos juntos a verdade que a embriaguez consola. Porque o presente é insuportável e não ouve ninguém. Queremos o bem do mundo, tão só o bem simples do mundo, mas somos sempre em falha, passageiros sem bilhete, multa imperativa, tristeza magoada que se afunda e nos afunda, sempre mais e mais. Madeira é a que cheira este estrado em que me deito e estico, tabaco impregnado de tempo, olho turco que espelhando-me a ti espelha, coisa sem sombra que sou, que somos, vapor, vapor sem lembrança. Voz ao fundo, música de fundo lento, sala onde ...

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Manhã. Noite. Manhã, noite, noite, manhã. O dia é sempre igual à noite. Neste lugar. Aqui, onde o tempo não passa. Onde a solidão das máquinas, o rubor das luzes, o gás vesicante das balas, se não calam. Onde os teus olhos, os teus olhos sós, baços de sofrer, ardentes de tantos silêncios e pausas e evicções, emudecem os corações que passam sem parar. Porque o teu corpo, grande, braçudo, maciço. Porque o teu corpo tropeçou no embaraço da força cadente. Porque a tua força ficou ausente sem que assim quisesses. Porque a tua vontade foi vencida. Porque não pudeste dizer sim ou não. Porque o vazio que deixaste cedo se fechou. Assim partiste. Tão perto da verdade que temias. Tão silente, para que ninguém soubesse. Partiste sem deixar rasto, partiste como chegaste, levando contigo tudo aquilo que trazias – nada. Porém muito deixaste, acredita, deixaste, e como dói o que ficou. Como dói a incapacidade, a crueldade, a esperança imodesta e falsa que te dei, o aperto de mãos que trocámos naquela...