Monsaraz
2009
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A chuva escorre pelos vidros. Vêm reflexos de luzes, gemidos de uma multidão longínqua que se atropela, sirenes que em tons de azul desesperam, agonia que impera, sangue que exaspera em mim, aqui. Tudo lá fora tem vida que se esconde entre as fragas da solidão, e eu, só, vivo a energia deste silêncio, da vibrante calma que o consente.
Tudo dorme a par do cansaço lúgubre dos tempos. De repente, como se lá estivesse, ouço passos de gente que se aproxima, maquinal como o correr dos dias, maciça como o cimento dos prédios que me cercam. Cidade incrustada em mim.
A noite vai longa e a chuva ressalta nos cristais de que são feitas as pedras. Vagueio pela escrita sem rumo à procura de um lugar, mas nada encontro, e então esqueço. Esqueço quem sou, se é que sou. Recrudescente de interrogações, divago ao odor lenhoso de um toro colossal ardendo na praça. Estendo ao gelo floral da planície um rol imenso de incertezas e interrogações, indagando a autenticidade daqueles momentos que em tudo aparentavam ser verdade. Erro, pensante, o sentir apaixonado que a razão condena. Falho sempre, por acreditar na inverosímil comunhão de nossas crenças.
Longa vai a madrugada e a reconfortante solidão deste Alentejo que me habita desde as origens. Alentejo, ventre maternal onde germina a força e a esperança, arquétipo da melodia serena e clara ressoando ao vago abrigo do horizonte, terra das "searas ondulando ao luar", luar límpido, companheiro, arauto da impossibilidade em nossas vidas.
Transbordam ossos, músculos e articulações. Dos meus vasos jorra uma espécie de sangue que se espraia ao vento. Dos meus nervos, descarnados, escoam vermes rastejando pelo chão, infiltrando-se na terra. De súbito rebento e renasço ao pó de que fui feita, e sinto em mim a música que ilumina, o som que embala.
Vem, melodia serena e bela. Abraça-me com todo o teu fulgor e leva-me nessa viagem. Por ti vivo e em ti concretizo a paixão que por mim alastra silente. Vem trazer-me ao encontro o reencontro da vida que um dia extinguiu em mim. Não tardes.
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Joly Braga Santos, Aria
(José Pereira de Sousa, violoncelo; Álvaro Teixeira Lopes, piano)
[foto: À noite em Monsaraz (2009)]