Neblina
2009Não. Não me canso de repetir o silêncio e de nele envolver o meu rosto, o meu dorso, as minhas mãos. Não me canso de repetir, no silêncio, o pensamento que à escrita me traz e acorre, dia após dia de ausente presente, manhã após noite, tarde, antetarde, diluindo-se no vulgo transitar das horas.
Percorro o espaço na [des]razão do fazer incerto, fintando a lazeira a passos céleres, adoptando ao dever de explicar o gosto de dar a conhecer do pouco que julgo saber, partilhando a entrega e o âmbito com que esboço o porvir incerto, esperando, esperando e ansiando pelos dias que tardam, pela escolha que se impõe cada vez mais forte e perene, pela decisão tomada ansiando na iminente eventualidade do [in]concretizável.
Por vezes não sei se o que penso chega a ser pensamento, ou se por contrário será não mais que uma manifestação involuntária cantada em verso suado e escravo - métrica de uma vida autómata, impondo-se ante a fraqueza e o fracasso. Há uma sucessão de acontecimentos que passam, mantendo-se incólume o recanto da deliberação e da vontade. Em si nada perturba a dormência em que se encontra encerrado (tempos idos, quando o querer era um poder mais que o não poder).
Agora?! Agora aquilo que corre somente corre desgastando um corpo a mais, [sub]jugado, jogado como pedra cansada por sobre si tod'água vogar, sem que nada fique. Nada de terno, nada de sincero, nada de contencioso. Se passo pelas coisas sem as ver, passam-me elas de viés, sem que um gesto meu infira um sorriso, um acenar não-cénico, acénico, aCÉnIcO, aCÉNICO.
Mas sobrevivo sem mágoa nem desprazer, pois que é mais forte a força d'acção, da razão de ser desta contenda entre o presente e o acaso. Quando me faltas, sonho, pensamento involuntário; quando trespassas aquilo-eu que ama, como coisa fosse, como objecto transponível esbanjando beijos que se não sentem e não voam; quando tudo inflora de ti em mim e realizo a solidão, a tua sempre presente ausência - logo habito e me habito na alvura do hábito, na candura que a dor instiga, na fragilidade escoando de um socalco-franzir de desamparo e sofrimento.
Talvez hoje saiba aquilo que procurei esquecer quando errante deambulava no melindroso idílo que inventara. Talvez hoje saiba tratar-se de uma espécie de pensamento autómato, de um tal de querer anópsico que inusitadamente me abarcara a ti.
Por agora, sei que todos os dias são dias.