Mas não vim para falar-te da revolução, deste corpo estranho que jaz esquecido na desunião dos homens, reacendendo-se apenas quando é preciso vender souvenirs épicos ou animar os canais televisivos com uns quantos documentários, cumprindo estes a sua missão informativa e educativa, tantas vezes relegada para segundo plano, pois que não convém que as massas se animem de força crítica, daquela consciência que abala os pilares da indiferença.
Vim para falar-te da tolerância entre os homens, daquele estado nominal de alma de que depende toda e qualquer evolução, daquela forma de estar e ser equilibrada em que o desproporcional peso da frustração, os ímpetos de ira surgindo quando algo ocorre de forma inesperada e indesejada, não servem de motivo nem desculpa para estados de tristeza ou de agressividade infundados.
Não existem mundos perfeitos, assim como não existem fármacos perfeitos, nem seres perfeitos, nem corações perfeitos, pois que a interacção com o exterior desperta em nós os mais reminiscentes sentimentos de competição, de luta, de auto-defesa, mesmo que isso implique infligir contra aqueles que nos acompanham nesta luta inglória pela sobrevivência.
Vivemos na era do safe-se quem puder, atoladamente isolados, sem amigos que nos apoiem nos momentos em que de facto estamos mais fragilizados, e não apenas quando, plenos das nossas faculdades, lhes estendemos as mãos e nos prontificamos a dar o melhor de nós. Vivemos saqueando os outros até à exaustão, procurando a sua companhia tão somente quando dela se vislumbra um pedaço de pão, sorrindo-lhes e acenando-lhes com o perfídio intuito de alcançar projecção.
É por isso que vim falar-te de tolerância, pois sendo ela o garante da amizade, também ela se extingue nos limites da verdade. Idealizei, amei, dei de mim como se fosses sangue do meu sangue, corri pelo teu bem, calei quando precisavas de alguém que te ouvisse, dei-te a minha força quando o cansaço te arrastava, partilhei os segundos de que tanto precisava. Por momentos achei que poderia entregar-me por completo àquela amizade que parecia pura, sincera e honesta, desprovida de interesseirismo, de ambição. Pensei que um qualquer sorriso teu seria de facto um sorriso de alma. Tolerei desvarios na certeza de que não eras má pessoa, de que não eram mais do que acessos fugazes motivados pelas vicissitudes de um dia-a-dia que tanto exigia de nós.
Mas o silêncio ensina e a distância abre alas ao pensamento, à razão puramente desprovida daquele sentimento e devoção que me amauravam. Agora já consigo ver, já consigo perceber como estava errada quando pensei que a tua luta era a minha, quando acreditei que partilhavas as mesmas convicções, que serias capaz de assumir publicamente aquilo que, não bastando dizeres que apoiavas, incitavas ao longo das nossas infindáveis conversas.
Na senda daquilo que considerava justo, esgrimi argumentos, expus-me ao ridículo para defender os interesses dos outros, dei o meu nome à causa, sem qualquer tipo de anseio, sem qualquer tipo de receio de um dia poder vir a precisar, de um dia quem sabe reconhecerem o meu nome, de um dia... Receio sim um dia partir desta vida mesquinha e insalubre com a boca seca de tanto repetir a mesma frase sem beber da sua seiva, sem agir. E onde estavas nesses momentos, nessas alturas em que cada voz contava!? Estavas exactamente no lado oposto, cumprindo os desígnios determinados por lei, mesmo que não concordasses ou dissesses não concordar com eles.
Vim falar-te de tolerância porque procuraste saber em que estado estava a nossa amizade, ao que respondo dela nada saber.



