Friday, April 10, 2020
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São longos os dias. Por mais ocupações, por mais deveres ou preocupações em mente, são sempre longos os dias, estes dias, de vazio. Não há espelho que nos sirva, ideia que nos capte a atenção, a constância necessária para um sono sossegado. Porque constante, perene, é a tristeza que trazemos, é a desunião que nos une nesta solidão atroz, é o desprazer de haver gente e mais gente que morre, e de ainda não ter chegado a nossa hora, por ora refastelada e doce, tragada num cálice de porto regado com ameixas e chocolate negro. E por mais que este nosso presente não seja o pior dos cenários do momento, por mais que sobre a nossa cama não pairem seringas infusoras, nem da nossa boca não saia um tubo de plástico. Por mais que possamos abrir os olhos e espreitar, conscientes, a nesga de luz que passa pelos estores corridos dos nossos quartos, por mais que possamos comer à mesa com a solidão, porém bem abastecidos e fastos. Por mais que ainda estejamos vivos e possamos fingir que há uma vida que continua e espera, que existe um futuro-breve, normal, para o qual fomos educados. Por mais que tudo isto, e toda esta maquinal eloquência, repetida à exaustão do desespero, da incapacidade, da inércia determinada pela falência do que somos enquanto seres, dotados de imperfeição e medos e incapacidade para reconhecermos na morte do outro a imagem da nossa ignorância e mediocridade. Longos são os dias em que preferia arriscar a vida num abraço terno, eterno, no abraço forte que me falha e tarda, infinitamente, pelos dias longos, por estes dias longos e sem sentido. Porque na verdade, e esta é a verdade, somos na medida de por quem somos, e só sorrimos e acordamos felizes na penumbra vital daqueles que amamos e nos amam. Faça chuva, sol, frio, vento, ou uma qualquer tempestade viral que nos arraste e leve. É a solidão a nossa maior hecatombe. É a vibração, o som baixo de quem respira sobre o som baixo que é em nós, de nós, dos nossos corações cruentos por não poderem sentir nem bater por quem, é a vida no limiar do amar absoluto, desprovidamente verdadeiro e essencial, que nos prende a um motivo maior. É o amor, apenas o amor, que nos garante a tolerância bastante para este mundo desigual, cruel, imundo. E nesta loucura, neste apartamento intransigente e feroz, neste viver virtual e cómodo, nesta distância imposta pelo medo, nesta coragem deposta pelo pavor de morrer, e de fazer morrer, como se ainda aqui estivéssemos, vivos e vorazes. Neste vazio frio e mordente, neste congelamento do tempo, no amanhã, não muito longe, naquela sempre manhã azul e clara de verão que por nós espera. Nesta expectativa constante, confiante, segura de si. Em tudo isto reside a longura das horas longas, e este sentir putativo e apaziguador, sobejando sempre, ardente e duro. Pudesse, pudéssemos quebrar as barreiras semânticas do respeito, sair para a rua de braços abertos ao mundo e à vida restante. Pudéssemos viver sem que ao amor se chamasse perversão, nem ao desejo de ser livre se lhe atribuísse o epíteto - egoísmo. Pudéssemos esquecer, assim, tão facilmente, o nome de quem se ama letra a letra revelado. A saudade.
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Fevereiro de 2020
Monday, February 24, 2020
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No fim do caminho, quando a tarde finda em cores infinitas e sons de
recolhimento silvestre, e o aroma cítrico da aragem densa e robusta traz a tua
ausência presente, o teu porte de árvore grande e imensa, a tua mão esculpindo
uma casca de pinheiro, um barco, um gaio, um corvo entoando um eco livre e aberto
a tudo o que se não sabe, se não diz ou faz.
Nesse rastilho de verdade, nesse prumo torto e curvilíneo, qual tronco retorcido pelo vento, nesse corcel que é a nossa vontade intrínseca, a nossa incapacidade eterna para sermos felizes entre dentes de oiro e odores de fábrica.
Nesse sem sentido comum, que em tempos vários é e foi vida, nesse horizonte verde de gradientes vários que é cá dentro turbilhão, insatisfação, tristeza, saudade.
Em tudo isso, e em tudo o mais o que sentimos e não sabemos, é a razão mais simples e absoluta para esta ausência de sentido, para esta distância imposta pelo partir, tão cedo.
Caminhamos, caminharemos sempre nesta harmonia silente, neste aqui e agora que é nosso só, nesta partilha espontânea que dispensa todas as palavras, todas as lucubrações que à mente humana se impõem, nesta verdade que se não explica, mas sente.
Não existe nada maior do que este espaço, do que esta terra que nos deste a conhecer e fizeste nossa. E o caminho, que não finda, é sempre recomeço, é sempre motivo para seguir sem medos, no abraço demorado que nos espera.
Nesse rastilho de verdade, nesse prumo torto e curvilíneo, qual tronco retorcido pelo vento, nesse corcel que é a nossa vontade intrínseca, a nossa incapacidade eterna para sermos felizes entre dentes de oiro e odores de fábrica.
Nesse sem sentido comum, que em tempos vários é e foi vida, nesse horizonte verde de gradientes vários que é cá dentro turbilhão, insatisfação, tristeza, saudade.
Em tudo isso, e em tudo o mais o que sentimos e não sabemos, é a razão mais simples e absoluta para esta ausência de sentido, para esta distância imposta pelo partir, tão cedo.
Caminhamos, caminharemos sempre nesta harmonia silente, neste aqui e agora que é nosso só, nesta partilha espontânea que dispensa todas as palavras, todas as lucubrações que à mente humana se impõem, nesta verdade que se não explica, mas sente.
Não existe nada maior do que este espaço, do que esta terra que nos deste a conhecer e fizeste nossa. E o caminho, que não finda, é sempre recomeço, é sempre motivo para seguir sem medos, no abraço demorado que nos espera.
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cascavel
Fevereiro 2020
Tuesday, December 17, 2019
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Quando fazes merda por todo o lado e ainda assim segues o teu coração e
os teus nervos.
Quando adormeces e acordas sem ninguém a teu lado além de ti e
da tua cabeça e voz pesadas.
Quando na vida és de todos menos de ti, e sonhas
sempre com aquilo que não está errado ante os teus olhos fixados num mundo justo
e perfeito, que não existe.
Quando depois de tudo isso vem a fome, o sem tempo
para comer porque tudo e nada esperam por ti, o sem tempo para sentir o tempo, o
lugar que ocupas sem estares nele.
Quando consomes todos os teus músculos e sorrisos.
Quando
desesperas porque a felicidade não esperou por ti.
Quando te falha um abraço que deixas por dar a quem de ti espera um beijo terno, mesmo que sem nome, sem
motivo, sem ideia, sem solução.
Quando dás por ti e não és nada, nunca foste.
Quando o presente já não te pertence e o
futuro não existe.
Quando de tristeza, só, tristeza, se faz o momento.
O que fazer, o
que fazer.
Monday, October 21, 2019
~
este passeio
foi feito para
pessoas felizes
para moços
e moças
com saúde
para crianças
sorrindo
e brincando
alegres
para senhores
e senhoras
de colete
amarelo
amarelo
fluorescente
usando fitas
na cabeça
para gente
correndo
de fones
e pescoço
corcovado
foi feito
para passar
sem medos
nem porquês
amplo
azul
tejano
tejano
este passeio
não foi feito
para nós
Tuesday, October 15, 2019
~
que fazemos nós
aqui
que arrogância
e determinação
são estas
que nos empurram
para o abismo
de nós mesmos
que dizemos nós
no silêncio
mutualístico
em que vivemos
tranquilos e sós
que mundo
é este
sem espaço
para amar
serenamente
levemente
docemente
nuamente
que vazio este
ruído de gente
passando
como coisa
como coisa
coisas
que nos ferem
(não mais
do que a
palavra ausente)
amo-te
absoluto inefável
tristeza
imensa e inútil
amo-te
sem princípio
sem nome
no fim de tudo
o que não serve
no recomeço
de um dia
qualquer
(...)
(...)
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