Monday, February 24, 2020

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No fim do caminho, quando a tarde finda em cores infinitas e sons de recolhimento silvestre, e o aroma cítrico da aragem densa e robusta traz a tua ausência presente, o teu porte de árvore grande e imensa, a tua mão esculpindo uma casca de pinheiro, um barco, um gaio, um corvo entoando um eco livre e aberto a tudo o que se não sabe, se não diz ou faz.

Nesse rastilho de verdade, nesse prumo torto e curvilíneo, qual tronco retorcido pelo vento, nesse corcel que é a nossa vontade intrínseca, a nossa incapacidade eterna para sermos felizes entre dentes de oiro e odores de fábrica.  

Nesse sem sentido comum, que em tempos vários é e foi vida, nesse horizonte verde de gradientes vários que é cá dentro turbilhão, insatisfação, tristeza, saudade. 

Em tudo isso, e em tudo o mais o que sentimos e não sabemos, é a razão mais simples e absoluta para esta ausência de sentido, para esta distância imposta pelo partir, tão cedo.

Caminhamos, caminharemos sempre nesta harmonia silente,  neste aqui e agora que é nosso só, nesta partilha espontânea que dispensa todas as palavras, todas as lucubrações que à mente humana se impõem, nesta verdade que se não explica, mas sente.

Não existe nada maior do que este espaço, do que esta terra que nos deste a conhecer e fizeste nossa. E o caminho, que não finda, é sempre recomeço, é sempre motivo para seguir sem medos, no abraço demorado que nos espera. 

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cascavel 
Fevereiro 2020

Tuesday, December 17, 2019

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Quando fazes merda por todo o lado e ainda assim segues o teu coração e os teus nervos.
Quando adormeces e acordas sem ninguém a teu lado além de ti e da tua cabeça e voz pesadas.
Quando na vida és de todos menos de ti, e sonhas sempre com aquilo que não está errado ante os teus olhos fixados num mundo justo e perfeito, que não existe.
Quando depois de tudo isso vem a fome, o sem tempo para comer porque tudo e nada esperam por ti, o sem tempo para sentir o tempo, o lugar que ocupas sem estares nele.
Quando consomes todos os teus músculos e sorrisos.
Quando desesperas porque a felicidade não esperou por ti.
Quando te falha um abraço que deixas por dar a quem de ti espera um beijo terno, mesmo que sem nome, sem motivo, sem ideia, sem solução.
Quando dás por ti e não és nada, nunca foste.
Quando o presente já não te pertence e o futuro não existe.
Quando de tristeza, só, tristeza, se faz o momento.
O que fazer, o que fazer.

Monday, October 21, 2019

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este passeio
foi feito para
pessoas felizes

para moços
e moças
com saúde

para crianças
sorrindo 
e brincando 
alegres

para senhores
e senhoras
de colete 
amarelo
fluorescente
usando fitas
na cabeça

para gente 
correndo
de fones
e pescoço 
corcovado

foi feito
para passar
sem medos
nem porquês

amplo
azul 
tejano

este passeio
não foi feito
para nós

Tuesday, October 15, 2019

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que fazemos nós
aqui
que arrogância
e determinação
são estas
que nos empurram
para o abismo
de nós mesmos

que dizemos nós
no silêncio
mutualístico
em que vivemos
tranquilos e sós

que mundo 
é este
sem espaço
para amar
serenamente
levemente
docemente
nuamente

que vazio este

ruído de gente
passando 
como coisa

coisas
que nos ferem 

(não mais
do que a
palavra ausente)

amo-te
absoluto inefável
tristeza
imensa e inútil

amo-te
sem princípio
sem nome
no fim de tudo
o que não serve
no recomeço
de um dia
qualquer

(...)

 

Tuesday, August 20, 2019

Tuesday, June 18, 2019

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 coruche 2019

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E é na tua ausência que me revisito, só. Nada de novo por aqui. Apenas uma saudade imensa, um perder-te constante, a cada gesto, a cada olhar recusante. Perco-me na imensidão deste sentir vasto e sempre quérulo, porque me falhas, porque me faltas. Tudo se resume a um vazio imenso, a um abraço imenso que te não posso dar. Tenho sempre saudade. O tempo, pudesse o tempo aproximar-nos, equalizar a distância que nos afasta. Pudesse eu dizer-te tudo isto, assim, sem meias-palavras, sem mundo além de nós. E em tudo isto, em todo este afastamento, és intensamente grande na presença, no espaço que é teu apenas, sempre teu. Não há esperança maior do que o tempo, restando, por entre as folgas deste viver confuso.