Tuesday, December 17, 2019

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Quando fazes merda por todo o lado e ainda assim segues o teu coração e os teus nervos.
Quando adormeces e acordas sem ninguém a teu lado além de ti e da tua cabeça e voz pesadas.
Quando na vida és de todos menos de ti, e sonhas sempre com aquilo que não está errado ante os teus olhos fixados num mundo justo e perfeito, que não existe.
Quando depois de tudo isso vem a fome, o sem tempo para comer porque tudo e nada esperam por ti, o sem tempo para sentir o tempo, o lugar que ocupas sem estares nele.
Quando consomes todos os teus músculos e sorrisos.
Quando desesperas porque a felicidade não esperou por ti.
Quando te falha um abraço que deixas por dar a quem de ti espera um beijo terno, mesmo que sem nome, sem motivo, sem ideia, sem solução.
Quando dás por ti e não és nada, nunca foste.
Quando o presente já não te pertence e o futuro não existe.
Quando de tristeza, só, tristeza, se faz o momento.
O que fazer, o que fazer.

Monday, October 21, 2019

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este passeio
foi feito para
pessoas felizes

para moços
e moças
com saúde

para crianças
sorrindo 
e brincando 
alegres

para senhores
e senhoras
de colete 
amarelo
fluorescente
usando fitas
na cabeça

para gente 
correndo
de fones
e pescoço 
corcovado

foi feito
para passar
sem medos
nem porquês

amplo
azul 
tejano

este passeio
não foi feito
para nós

Tuesday, October 15, 2019

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que fazemos nós
aqui
que arrogância
e determinação
são estas
que nos empurram
para o abismo
de nós mesmos

que dizemos nós
no silêncio
mutualístico
em que vivemos
tranquilos e sós

que mundo 
é este
sem espaço
para amar
serenamente
levemente
docemente
nuamente

que vazio este

ruído de gente
passando 
como coisa

coisas
que nos ferem 

(não mais
do que a
palavra ausente)

amo-te
absoluto inefável
tristeza
imensa e inútil

amo-te
sem princípio
sem nome
no fim de tudo
o que não serve
no recomeço
de um dia
qualquer

(...)

 

Tuesday, August 20, 2019

Tuesday, June 18, 2019

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 coruche 2019

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E é na tua ausência que me revisito, só. Nada de novo por aqui. Apenas uma saudade imensa, um perder-te constante, a cada gesto, a cada olhar recusante. Perco-me na imensidão deste sentir vasto e sempre quérulo, porque me falhas, porque me faltas. Tudo se resume a um vazio imenso, a um abraço imenso que te não posso dar. Tenho sempre saudade. O tempo, pudesse o tempo aproximar-nos, equalizar a distância que nos afasta. Pudesse eu dizer-te tudo isto, assim, sem meias-palavras, sem mundo além de nós. E em tudo isto, em todo este afastamento, és intensamente grande na presença, no espaço que é teu apenas, sempre teu. Não há esperança maior do que o tempo, restando, por entre as folgas deste viver confuso.

Wednesday, March 13, 2019

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Não tenho muito, nem saber, nem sonho, nem esperança. Vivo do sentir restante. Do que outrora de bom em mim poderá ter tocado alguém. Não tenho memória do que fui, nem saber do que estudei ou fiz (fazia) sem esforço. Sou vazio, total e absoluto. Corpo que se move, incessantemente, em direcção a nada. Guitarra que foi som. Mão que palpou, ouvido que escutou outros murmúrios, outros sentires. É difícil viver assim, sempre em dor, em desesperança. Vivo do amor restante, do pouco mar que ainda é mar. E no princípio, mesmo sem nome ou razão, tenho tudo aquilo de que preciso para ser feliz. Mas não encontro, não te encontro.