Wednesday, March 13, 2019

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Não tenho muito, nem saber, nem sonho, nem esperança. Vivo do sentir restante. Do que outrora de bom em mim poderá ter tocado alguém. Não tenho memória do que fui, nem saber do que estudei ou fiz (fazia) sem esforço. Sou vazio, total e absoluto. Corpo que se move, incessantemente, em direcção a nada. Guitarra que foi som. Mão que palpou, ouvido que escutou outros murmúrios, outros sentires. É difícil viver assim, sempre em dor, em desesperança. Vivo do amor restante, do pouco mar que ainda é mar. E no princípio, mesmo sem nome ou razão, tenho tudo aquilo de que preciso para ser feliz. Mas não encontro, não te encontro.

Saturday, March 2, 2019

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O mundo desperta com a luz da manhã. Há uma vida lá fora, cumprindo-se em contínuo, sem que a nossa pressa, sem que o nosso desespero e intransigente inquietude a perturbem.

Há um campo vasto de luz, lá fora, e o odor fresco, verde, salgado, que se não pode atingir. Distam os nossos tempos, as nossas cores contrastantes, as nossas angústias, os nossos silêncios estridentes e vastos. Procuro-te, incessantemente, nesta manhã, nesta dor constante que é sentir-te, estando, só.

Não muito distantes, há dois apelos que por mim chamam e saltam e explodem de alegria quando a meu lado. Mas tudo pesa, e nem essa energia vital e brilhante e verdadeira, nem aquele amor que se não exprime por palavras inteligíveis, poema de um vocabulário próprio e essencial, nem este abraço garantido, nada substitui o sentido ausente.

Procuro sem direcção aquilo que não sinto. Porque há, sei que existe, alguma coisa maior, uma essência que se agita acima de todas as coisas do quotidiano normal, de qualquer intento, de qualquer domínio que se possa controlar por gestos ou palavras secas.

E entre mim (entre nós) e o universo resplandecente e claro que se não alcança, há um vale imenso e oscilante, uma dor que corrói e persiste, uma saudade imensa e intransponível. Nem a música, a música.

Monday, February 18, 2019

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É tão simples, o teu sorrir. E o ânimo com que fazes as tarefas normais do dia. E a cor que as coisas simples em ti despertam. Vives bem contigo, assim, no teu dia-a-dia normal e feliz. E é tão bom sentir essa tranquilidade indefinida. É tão certo sentir que estás bem em ti. Tão certo.

Tuesday, February 12, 2019

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É difícil sentir-te, manhã azul e clara. Silêncio promissor. Serenidade que não existe.

Ouve-se ainda o rumor fremente e baixo que corrói as casas e os pilares de madeira que sustentam as casas. Cheiram a tinta ainda, as casas, a tinta estalada e seca. Não há sopro nem essência que se encontre nelas. E por mais vestígios de vida, há sempre um vazio triste e distante. 

Há a cultura, o saber fazer social, o parecer maior que ser, a crueldade meiga da palavra consentida, o gesto ausente.

Procuro o mar, que é longe, e a frescura verdejante dos campos sem nome. Imagino e sonho no presente, no impossível e inoperável presente. Falho sempre à chegada, quando tudo parece estar a ficar bem, quando há um motivo sólido e real e absoluto.

E aqui estou eu, de novo regressando ao início, ao princípio de tudo, desprovida como dantes daquilo que me é essencial e eterno. Resta-me a saudade, a sensação vigente de estar sempre a mais, de ser sempre a mais. Resta-me, de novo, a solitude obrigativa e sem sentido, a inoperância comum, o vazio duro e triste que é recomeçar só, que é sentir-me e perder-me só num caminho que se exige prático e vital e próspero.

Viver é transitar entre tudo e nada, entre ti e a ausência de ti, palavra repetida. E é fazê-lo vezes sem fim. Caminhar, caminhar, rumo ao lugar aonde aportam todas as direcções, todos os indícios de vida, toda a essência da verdade. Caminhar sem fim.

Friday, February 8, 2019

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perdi-me
na imensidão
de amar
sentindo
apenas
a vibração
branda e doce
que no teu
sentido
com o teu
sentido
ganhou
forma
e nome
e grandeza
que não
sou

esqueci-me
de como
eram os dias
quando
te não via
assim
como hoje és
para mim

era tudo
tão pequeno
tão anguloso
e habilmente
feio e vazio
que nem
entendia
a cor ausente
das coisas
que me eram
familiares
e consentidas

desaprendi
a vida
que me cabia
lesta e seca
como eu

eu que
noutro então
não cindia
nada
que sentisse
ou desesperasse
e despertasse
cá dentro

mas encontrei-te
tarde
sem tempo
nem lugar
que pudéssemos
habitar
somente

ousei imaginar
a nossa presença
una e constante
na intransigência
enorme
da verdade

mas tudo
é sempre
depois
tudo é
indevido
e está a mais
e foi a mais
sempre a mais

quando à noite
no regresso
a uma casa
sem onde
e de ninguém
o meu corpo
se entorna
e a contenção
amarga
que carrega
o dia
se esgota
exausta e só

quando
o dia se revela
sem sentido

é o teu
abraço
que me falha
e falta
sem princípio
nem fim

e é tão
ridículo
chorar
naquele abraço
que não existe

tão perverso
pensar
se serei
para ti
também
esperança
e desalento

que me traz
a tua
ausência

sinto-me fraca
sem tempo
de que não
precise
para recompor
o estrago
ansioso
e triste
que não passa

é noite já
apagou-se o azul
claro do mar
que hoje
não foi nosso

e a noite
quando vem
é saudade

locução
tremenda
daquilo que
não existe