Wednesday, February 6, 2019

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sinto-me hoje
no cumprimento
pleno
das tarefas
da vida
corrente e prática
é Belo este lar
e os pássaros
afora
cantando e rindo
de nós

somos fechados
no bafo quente
e ruidoso
que vem de cima
de lado
de todo o lado
de lado algum

não há voto
que não seja casto
neste silêncio maior
do que o vazio
estridente
restringente
hilário

comporta-te
ó Ruy
que és rei
antes do nome
poema
que entardece
com o verde
da tarde calma
que surgirá
por detrás
desta amálgama
de blocos pardos
banhados em cimento
arinto

chove
fazendo de conta
que chove
nesta vontade
suburbana
e triste
de caçar leões
e desferir
lonjuras
e sonhares
antigos

por agora
para sempre
desde agora
não há chinelo
nem pijama
nem robe
acetinado
que nos
caiam bem

só o dever
cordial
maquinal
deste ofício
único
e intransigentemente
inútil
de ser
mais um
e ainda assim
(ter de)
ser cada

~


é difícil acreditar
em nós
quando à luz
do dia
se está triste
e só

é difícil agir
quando o infinito
que foi
num dia
passado
se extingue
na tua ausência

é difícil
concentrar forças
nos limites do tempo
que passa
por nós
e que que vai indo
sem nós
veloz e em diante
sempre

é impossível
viver
quando a solidão
infecta o vazio
pesado
que é não ter-te
abraço imperfeito
mas inexactamente
amplo

e pensar num futuro
para nós
seres ausentes
deste mundo
mas que ainda assim
precisam de comer
no desespero
que é a falha
de motivo válido
para existirmos
desconexos
absurdos
insistentemente
em vão

é frondoso
o caminho
frio e geado
que percorro
ainda
pensando-te
manhã sadia
de outrora
futuro antecipado
que se não
operou

assim passo
os dias
uns melhores
outros nem tanto
mergulhando
no quotidiano
simples
da casa
da rua
das compras
do amar-te
desapercebidamente
nas coisas simples
que aproximam
os nossos tempos
desfasados

é triste viver
fora do que somos
habitar o espaço
alegre e triste
de uma memória
intrinsecamente
presente
desde o princípio
de nós

viver
morrendo
a cada silêncio
a cada gesto
que me trespassa
e não fica
a cada palavra
que não posso dizer
a cada abraço
enredado
no constrangimento

viver assim
na presença distante
de ti
porque te amo
incondicionalmente
infinitamente
tanto
que talvez
só tu
o consigas sentir
e saber
por mais que o
não diga

correm frágeis
os dias
sem ti

Friday, November 16, 2018

~

Um dia. Talvez um dia regressemos ao momento em que tudo era claro e leve. Em que o sorriso era sempre um sorriso, fizesse chuva, ou sol, ou nada. 

Um dia, talvez, naquele dia, o som regresse ameno, e a brisa, a brisa fresca e ágil da noite, seja imensidão e sonho e tempo infinitamente doce. 

É duro viver sem passado, sem ponto algum além da perda, perene perda que fustiga e corrói. Não há força, não há desejo, não há ímpeto que resista ao esquecimento constante de nós. 

Pensar, repensar um sentido, quando se viu já a esperança sem nome a rebentar das bocas destruídas, sós. Quando seguravas, naquele sopro último, um computador-pessoa, só. Quando embalavas a noite com o respirar ondulante e profundo de quem partia, só. Quando jorravas planos entre golfadas de lucidez, de sangue, só. 

Não há bem possível, plausível, quando a realidade inteira se nos depara assim, imperiosa e dura, numa hora qualquer de silêncios partilhados. 

Um dia. Talvez um dia regresse a ti, a vós. Talvez nesse dia possamos apertar de novo as mãos. E nesse dia, mesmo que as minhas mãos sejam ausentes (e as vossas também), partilharemos juntos a nossa ausência conjunta, a nossa privação alegre do desespero que é viver e saber de tudo isto. 

Tuesday, October 30, 2018

~

Quando pelo inverno, naquela altura em que o odor lenificado do ar frio ressoava estridente pelos vidros do meu quarto, e a vida, a vida, era um enigma fremente e vasto. 

Quando pelo inverno, o nervo e a dor não existiam além dos limites possíveis do nervo, da dor, quando o corpo dava tudo, mesmo no limbo da exaustão, que se não sentia. 

Quando o sabor doce de nada fazer impelia à acção, sem medos nem questões complexas concernindo ao peso do prazer sobre a inércia, ao gosto do sentir sobre o dever. 

Quando a música refringente do concerto para piano em lá menor de Grieg, no seu andamento segundo, cercava os meus olhos de um calor enorme e repuxava o meu corpo todo que vibrava quando ali não era eu, mas a biologia, a química, a física, a música, a natureza, o universo todo, presente e distante, a plenitude plena. 

Quando a palavra e o gesto eram verdadeiros e certos por si mesmos, por virem de outro alguém, por serem consequência e causa da nossa existência, razão da nossa vida.

Quando a perfídia e o medo eram estados ausentes, realidades impossíveis, tamanho o esplendor daquele ar frio, daquela sombra ondulante das árvores sobre a calçada e a chuva em si escorrente. 

Quando hoje, hoje sim, hoje já, que foi hoje sem passar, olho para trás, neste mesmo lugar, ao som desta mesma música, percebo que não há antes, nem depois. Há o meu corpo, o meu mesmíssimo corpo, aqui e agora, como dantes e depois e sempre. 

Agarro-me com força, com toda a força restante, sem mágoas, mas com uma saudade imensa, saudade de alguém que foi eu. Seguro-me a este lugar, a este cais salgado e frio e verde como o mar .

Não sei para onde nem por onde. O tempo passou, as perspectivas mudaram, fiquei eu apenas, memória inquieta, sensação perene e estranha de falta, de medo, de desvio. 

Não quero voltar a ser criança, não, não quero voltar atrás. Preciso apenas de ti, de ti somente, essência simples e ingénua e crua de outrora. 


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Wednesday, September 12, 2018

Wednesday, August 15, 2018

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é em ti
paixão
onde encontro
a coragem
restante
as certezas
as antecipações
os ímpetos
que me levam
para depois
de ti

triste solidão

lugar 
que não detenho
espaço
desassossegado
aberto
livre
tempo
de amar
finda a tormenta
a bravura
das águas revoltas
o precipício inconstante

amanhã
por quem 
se espera
sempre

estás
porque sei
que existes
porque te sinto
no silêncio
todo
desta casa
na luz toda
que se apaga
na penumbra
consentida

não há palavra
nem gesto
que desmintam
o calor incindível
do nosso sentir
calado

somos
por inteiro
na interrogação
no questionamento
da vida
que só existe
e vale
porque somos
em dois sentidos
de mim para ti
de ti para mim
para o mundo
vivo e enérgico
que é lá fora

e por mais
que se não 
toquem
nossas mãos
e que a distância
seja um
espaço vazio
de nós-corpo
és 
serás sempre
comigo

voz 
sem fim
imaterial
matéria
turbilhão
de razões 
e sonhos
e projectos
que por ti
fazem sentido

orla branda
brisa calma
paixão
crescente
amor-paixão
coragem absoluta

azul claro
manhã inteira

janela
que se não abriu
ante aqueloutro
olhar escondido
(o meu)

Thursday, April 26, 2018

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#1
Abril 2018