Wednesday, February 6, 2019

~


é difícil acreditar
em nós
quando à luz
do dia
se está triste
e só

é difícil agir
quando o infinito
que foi
num dia
passado
se extingue
na tua ausência

é difícil
concentrar forças
nos limites do tempo
que passa
por nós
e que que vai indo
sem nós
veloz e em diante
sempre

é impossível
viver
quando a solidão
infecta o vazio
pesado
que é não ter-te
abraço imperfeito
mas inexactamente
amplo

e pensar num futuro
para nós
seres ausentes
deste mundo
mas que ainda assim
precisam de comer
no desespero
que é a falha
de motivo válido
para existirmos
desconexos
absurdos
insistentemente
em vão

é frondoso
o caminho
frio e geado
que percorro
ainda
pensando-te
manhã sadia
de outrora
futuro antecipado
que se não
operou

assim passo
os dias
uns melhores
outros nem tanto
mergulhando
no quotidiano
simples
da casa
da rua
das compras
do amar-te
desapercebidamente
nas coisas simples
que aproximam
os nossos tempos
desfasados

é triste viver
fora do que somos
habitar o espaço
alegre e triste
de uma memória
intrinsecamente
presente
desde o princípio
de nós

viver
morrendo
a cada silêncio
a cada gesto
que me trespassa
e não fica
a cada palavra
que não posso dizer
a cada abraço
enredado
no constrangimento

viver assim
na presença distante
de ti
porque te amo
incondicionalmente
infinitamente
tanto
que talvez
só tu
o consigas sentir
e saber
por mais que o
não diga

correm frágeis
os dias
sem ti

Friday, November 16, 2018

~

Um dia. Talvez um dia regressemos ao momento em que tudo era claro e leve. Em que o sorriso era sempre um sorriso, fizesse chuva, ou sol, ou nada. 

Um dia, talvez, naquele dia, o som regresse ameno, e a brisa, a brisa fresca e ágil da noite, seja imensidão e sonho e tempo infinitamente doce. 

É duro viver sem passado, sem ponto algum além da perda, perene perda que fustiga e corrói. Não há força, não há desejo, não há ímpeto que resista ao esquecimento constante de nós. 

Pensar, repensar um sentido, quando se viu já a esperança sem nome a rebentar das bocas destruídas, sós. Quando seguravas, naquele sopro último, um computador-pessoa, só. Quando embalavas a noite com o respirar ondulante e profundo de quem partia, só. Quando jorravas planos entre golfadas de lucidez, de sangue, só. 

Não há bem possível, plausível, quando a realidade inteira se nos depara assim, imperiosa e dura, numa hora qualquer de silêncios partilhados. 

Um dia. Talvez um dia regresse a ti, a vós. Talvez nesse dia possamos apertar de novo as mãos. E nesse dia, mesmo que as minhas mãos sejam ausentes (e as vossas também), partilharemos juntos a nossa ausência conjunta, a nossa privação alegre do desespero que é viver e saber de tudo isto. 

Tuesday, October 30, 2018

~

Quando pelo inverno, naquela altura em que o odor lenificado do ar frio ressoava estridente pelos vidros do meu quarto, e a vida, a vida, era um enigma fremente e vasto. 

Quando pelo inverno, o nervo e a dor não existiam além dos limites possíveis do nervo, da dor, quando o corpo dava tudo, mesmo no limbo da exaustão, que se não sentia. 

Quando o sabor doce de nada fazer impelia à acção, sem medos nem questões complexas concernindo ao peso do prazer sobre a inércia, ao gosto do sentir sobre o dever. 

Quando a música refringente do concerto para piano em lá menor de Grieg, no seu andamento segundo, cercava os meus olhos de um calor enorme e repuxava o meu corpo todo que vibrava quando ali não era eu, mas a biologia, a química, a física, a música, a natureza, o universo todo, presente e distante, a plenitude plena. 

Quando a palavra e o gesto eram verdadeiros e certos por si mesmos, por virem de outro alguém, por serem consequência e causa da nossa existência, razão da nossa vida.

Quando a perfídia e o medo eram estados ausentes, realidades impossíveis, tamanho o esplendor daquele ar frio, daquela sombra ondulante das árvores sobre a calçada e a chuva em si escorrente. 

Quando hoje, hoje sim, hoje já, que foi hoje sem passar, olho para trás, neste mesmo lugar, ao som desta mesma música, percebo que não há antes, nem depois. Há o meu corpo, o meu mesmíssimo corpo, aqui e agora, como dantes e depois e sempre. 

Agarro-me com força, com toda a força restante, sem mágoas, mas com uma saudade imensa, saudade de alguém que foi eu. Seguro-me a este lugar, a este cais salgado e frio e verde como o mar .

Não sei para onde nem por onde. O tempo passou, as perspectivas mudaram, fiquei eu apenas, memória inquieta, sensação perene e estranha de falta, de medo, de desvio. 

Não quero voltar a ser criança, não, não quero voltar atrás. Preciso apenas de ti, de ti somente, essência simples e ingénua e crua de outrora. 


~




Wednesday, September 12, 2018

Wednesday, August 15, 2018

~


é em ti
paixão
onde encontro
a coragem
restante
as certezas
as antecipações
os ímpetos
que me levam
para depois
de ti

triste solidão

lugar 
que não detenho
espaço
desassossegado
aberto
livre
tempo
de amar
finda a tormenta
a bravura
das águas revoltas
o precipício inconstante

amanhã
por quem 
se espera
sempre

estás
porque sei
que existes
porque te sinto
no silêncio
todo
desta casa
na luz toda
que se apaga
na penumbra
consentida

não há palavra
nem gesto
que desmintam
o calor incindível
do nosso sentir
calado

somos
por inteiro
na interrogação
no questionamento
da vida
que só existe
e vale
porque somos
em dois sentidos
de mim para ti
de ti para mim
para o mundo
vivo e enérgico
que é lá fora

e por mais
que se não 
toquem
nossas mãos
e que a distância
seja um
espaço vazio
de nós-corpo
és 
serás sempre
comigo

voz 
sem fim
imaterial
matéria
turbilhão
de razões 
e sonhos
e projectos
que por ti
fazem sentido

orla branda
brisa calma
paixão
crescente
amor-paixão
coragem absoluta

azul claro
manhã inteira

janela
que se não abriu
ante aqueloutro
olhar escondido
(o meu)

Thursday, April 26, 2018

~

#1
Abril 2018

Saturday, March 10, 2018

~


vieira
2018

~

de regresso a casa
a este espaço silente
em que sou eu só 
sem expectativas 
nem retornos

a este sonho 
que reinvento 
sem aparas

ao ser-me
agora
de novo
sem saber
quem fui

esqueci-me
de tudo
do todo 
a que me dei
inteiramente

se grande
tiver sido
o pouco 
do que fui 
por inteiro

terá sido
naquele 
dar-me
constante 
humilde
(e)terno 

naquele 
estar
verdadeiro
e pleno
consumido
pela verdade 
de outros olhos
de outros modos
de entender 
a vida

por agora
não sei 
como
sobreviver
a este 
regresso

a esta
casa
estranha

silente

sem 
retorno

Monday, March 5, 2018

~

Óbidos
Fevereiro 2018

~

circula o tempo 
mas o espaço 
permanece

e nesse 
movimento
errático
disestésico
nessa presença
dolente
e (in)constante
é primeira 
a mágoa triste
da saudade
sempre tácita
e rugosa
antes das coisas
e motivos e cores
que se assomam
aos dias
desconexos
e vastos
desta viagem 
sem onde

existir
na certeza final
de que tudo finda
seja para quem for 
naquela mesmíssima 
hora derradeira
naquele lugar 
desvalido

despertar 
com essa verdade
que por ser verdade
magoa 
com a força toda
das pedras
contra o mar
em que me espalho 
e extingo

é sem sentido

e neste azul 
de desencanto
nesta luz matinal
desvanecente
não  encontro 
motivo além 
daquele universal
que nos encanta e trai

motivo que 
em nós 
falta
quando nos escapa
a verdade
e o que resta 
é um sentir ausente

porque o amor
essa razão
esse sentido maior
que nos falha no limite
no ponto em que somos nós 
e o outro 
e (a) vida 
na vida de quem parte

(estar longe
é diferente de ser 
longe)

é a verdade
que nos agarra
a este 
sem tempo 
nem espaço
por que corremos 
sem pensar

estar que tudo 
consome 
e invade 
a cada momento
a cada presente 
que o lembrar-te 
nos permite

por isso penso 
para sentir-te

estando

~

costa 
Fevereiro 2018

~

queria dizer
a palavra
amo
a ti 
e ao mundo 
pois quando 
amamos 
amamos alguém 
e ao mundo 
todo 
que nos ama

queria dizê-la
em silêncio
e no silêncio 
ouvir
ouvir-te dizer
o nome
de todas as coisas
do mundo

queria amar 
assim
amar-te perdidamete
como naqueloutro
poema-vida
que não escrevi

e em tal vazio- 
-libertação plena
da ausência
ser
sermos
com a força
toda
da razão
de sermos