Danço.
Danças. E a música é lenço branco voando. E a noite é fumo, fumo que arde,
inconsequente e férreo, veloz, voraz. É sede e força que se abraçam. É sombra e
voz que se ligam, imaginação imperfeita dos corpos que não existem. Suor, suor
frio e quente, toque, toque leve e envergonhado. Corre, que o presente não
suporta a nossa dor. Quebra a luz, entra na escuridão luminescente do álcool, vem
comigo, partamos ao meio a fatia de solidão que nos calhou, choremos juntos a
verdade que a embriaguez consola. Porque o presente é insuportável e não ouve
ninguém. Queremos o bem do mundo, tão só o bem simples do mundo, mas somos
sempre em falha, passageiros sem bilhete, multa imperativa, tristeza magoada
que se afunda e nos afunda, sempre mais e mais. Madeira é a que cheira este
estrado em que me deito e estico, tabaco impregnado de tempo, olho turco que espelhando-me
a ti espelha, coisa sem sombra que sou, que somos, vapor, vapor sem lembrança. Voz
ao fundo, música de fundo lento, sala onde dançamos, de cabelos e braços
desnudados, sombras, vultos perdidos e soltos, liberdade que só o vento, muito
vento, nos traz. Assim vagueamos pela noite, pelas noites das memórias vagas. Sentir
vibrante, como te quero. Porque o amor não se basta e o amar concreto é
horizonte que se não revela. Suor, calor, alma em partilha contínua. Fazes-me
falta e não sabes, nem da falta que me fazes, nem de mim. Nem de mim… Do eu,
que sou e mais não posso. Não posso gritar mais pelo que não existe, por ti. Há
coisas e palavras que se não ouvem na confusão dos dias secos. Pudéssemos ao
menos dizer a todos os cantos e recantos e recortes como o amor é denso e mudo
e belo. Pudéssemos quebrar toda a distância. Pudesse eu fazê-lo por nós, por
mim, por ti só. Mas o astro da convenção, do como deve de ser, arrasa-nos com desculpas
e medos infundados. Tenho a mim e ao dia estafado de tanto amar em perda.
Saturday, August 12, 2017
~
Manhã. Noite. Manhã, noite,
noite, manhã. O dia é sempre igual à noite. Neste lugar. Aqui, onde o tempo não
passa. Onde a solidão das máquinas, o rubor das luzes, o gás vesicante das
balas, se não calam. Onde os teus olhos, os teus olhos sós, baços de sofrer, ardentes
de tantos silêncios e pausas e evicções, emudecem os corações que passam sem
parar. Porque o teu corpo, grande, braçudo, maciço. Porque o teu corpo tropeçou
no embaraço da força cadente. Porque a tua força ficou ausente sem que assim
quisesses. Porque a tua vontade foi vencida. Porque não pudeste dizer sim ou
não. Porque o vazio que deixaste cedo se fechou. Assim partiste. Tão perto da
verdade que temias. Tão silente, para que ninguém soubesse. Partiste sem deixar
rasto, partiste como chegaste, levando contigo tudo aquilo que trazias – nada. Porém
muito deixaste, acredita, deixaste, e como dói o que ficou. Como dói a
incapacidade, a crueldade, a esperança imodesta e falsa que te dei, o aperto de
mãos que trocámos naquela manhã, na manhã que não foi noite, nem manhã, nem
nunca mais além do momento, daquele momento, daquele rasgo de luminosidade pérfida e fugaz. Desculpa,
desculpa-me se te magoei demais.
~
Thursday, June 15, 2017
Saturday, May 27, 2017
~
não existe modo
perfeito ou justo
para começar
um poema
um poema
escrevo de forma seca
na língua-mãe
que ignorantemente
desconheço
falta-me o cheiro
o verde húmido
dos campos que sonhei
está longe o mar
foi-se a vontade
em poeira e vento
e o meu corpo
moído das cãibras
impregnado de xilitol
e menta barata
todo ele se envolve
e emaranha
de forma consentida
e (in)sensata
em papéis e metas
e prioridades alheias
ditadas por quem nada sabe
do amor claro e inquieto
das coisas simples
do silêncio são
e imperfeito
que é nesta manhã
despovoada e doce
Saturday, May 13, 2017
Sunday, April 30, 2017
~
Morreste amor nos caminhos conturbados da vida. Fomos alvo, somos vespas cambiantes entre solidões e defesas frondosas. Não encanta a nova poesia nossa. Falta-lhe o suor nos mastros. Somos todo cristalino, crisálidas uivantes nas noites caladas. Quis-te, quimera alada pelo luar sem fim da noite clara. Foste sopro musculado, música vacilante entre espaços de mágoa. Vieste com o fruto-mar, desavesso e errante, e foste logo contradição. Porque tudo é cá dentro, toda a força que não fala, todo o sentir que se não diz. Foste vida no campo denso da falha, esgar contido na felicidade impossível. Porque ao lado nosso existiu o acaso leso, a parábola derradeira do sentir, a tristeza esgueirada pelo vácuo imenso da planície perturbada. E de tudo isso, de toda a inconsistência que fomos, houve ainda a força, aquele nosso motivo maior, a causa por que corremos sem fim, esta saudade imensa (que é saudade porque longe), o teu rosto-sombra que nada disse, a distância curta do nosso entendimento. De tudo aquilo ficou este amar, velho e só.
~
O tempo ia caindo, esmurrado e esguio, naquela tarde em que sentados no chão, nos demos tarde e já sem fim. Nada começou naquele princípio denso. Nada para além do que fui eu só. Mas a música foi levando e trazendo os restos de nós, de mim que fiquei sem onde. Era Lisboa, aquela que já não me existe. Era a tarde rebolando rua abaixo, rua acelerada, rua movimento, rua catadupa, de pessoas e casas desfocadas. Éramos ali em ponto morto, sem futuro. Não sei, não sei mesmo em que ponto fiquei. Sei que estou longe, áziga, distante do princípio de tudo, voltada de costas para a brisa fresca da manhã. Não sei porque acredito no amor, na amizade, na distorção que faço das coisas, que são apenas coisas. Procuro na intransigência da verdade o abraço que me falha, abraço prolongado, prolongamento de nós. Depois, depois fica a saudade, este agora que me custa e não passa. Como quando subia a calçada do lavra e o meu corpo de madeira e corda era na glória que se erguia. Subi a colina errada, manhã cedo, cansada e sem saber porquê, como agora. Deu-me o tempo a alternativa, que não guardei. Deu-me o tempo a forma amarga e triste de partir, mas não tive como. Enganei-me outra e outra vez, espetei-me, imprudente, contra as paredes que me prenderam, que me cercaram no intervalo das cores, dos aromas, da luz que em mim foi vontade de viver. Mas tudo me é prontamente inacessível, tudo me é presenteado a contragosto, mesmo o teu nome, a nomeação da tua falta. Não há vida justificável ante o sofrimento, depois da consciência clara de que não existem manhãs universais, nem torradas quentes para todos. A vida é isto mesmo, uma contradição consentida, um estar bem no normal recalcamento e escusa. Sorrir é esquecer a desigualdade, a forma assimétrica e grosseira, a matemática original, a imperfeição primeira que somos, do alto desta torre de menagem arenosa e lábil.
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