Saturday, May 13, 2017

Sunday, April 30, 2017

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Morreste amor nos caminhos conturbados da vida. Fomos alvo, somos vespas cambiantes entre solidões e defesas frondosas. Não encanta a nova poesia nossa. Falta-lhe o suor nos mastros. Somos todo cristalino, crisálidas uivantes nas noites caladas. Quis-te, quimera alada pelo luar sem fim da noite clara. Foste sopro musculado, música vacilante entre espaços de mágoa. Vieste com o fruto-mar, desavesso e errante, e foste logo contradição. Porque tudo é cá dentro, toda a força que não fala, todo o sentir que se não diz. Foste vida no campo denso da falha, esgar contido na felicidade impossível. Porque ao lado nosso existiu o acaso leso, a parábola derradeira do sentir, a tristeza esgueirada pelo vácuo imenso da planície perturbada. E de tudo isso, de toda a inconsistência que fomos, houve ainda a força, aquele nosso motivo maior, a causa por que corremos sem fim, esta saudade imensa (que é saudade porque longe), o teu rosto-sombra que nada disse, a distância curta do nosso entendimento. De tudo aquilo ficou este amar, velho e só.

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O tempo ia caindo, esmurrado e esguio, naquela tarde em que sentados no chão, nos demos tarde e já sem fim. Nada começou naquele princípio denso. Nada para além do que fui eu só. Mas a música foi levando e trazendo os restos de nós, de mim que fiquei sem onde. Era Lisboa, aquela que já não me existe. Era a tarde rebolando rua abaixo, rua acelerada, rua movimento, rua catadupa, de pessoas e casas desfocadas. Éramos ali em ponto morto, sem futuro. Não sei, não sei mesmo em que ponto fiquei. Sei que estou longe, áziga, distante do princípio de tudo, voltada de costas para a brisa fresca da manhã. Não sei porque acredito no amor, na amizade, na distorção que faço das coisas, que são apenas coisas. Procuro na intransigência da verdade o abraço que me falha, abraço prolongado, prolongamento de nós. Depois, depois fica a saudade, este agora que me custa e não passa. Como quando subia a calçada do lavra e o meu corpo de madeira e corda era na  glória que  se erguia. Subi a colina errada, manhã cedo, cansada e sem saber porquê, como agora. Deu-me o tempo a alternativa, que não guardei. Deu-me o tempo a forma amarga e triste de partir, mas não tive como. Enganei-me outra e outra vez, espetei-me, imprudente, contra as paredes que me prenderam, que me cercaram no intervalo das cores, dos aromas, da luz que em mim foi vontade de viver. Mas tudo me é prontamente inacessível, tudo me é presenteado a contragosto, mesmo o teu nome, a nomeação da tua falta. Não há vida justificável ante o sofrimento, depois da consciência clara de que não existem manhãs universais, nem torradas quentes para todos. A vida é isto mesmo, uma contradição consentida, um estar bem no normal recalcamento e escusa. Sorrir é esquecer a desigualdade, a forma assimétrica e grosseira, a matemática original, a imperfeição​ primeira que somos, do alto desta torre de menagem arenosa e lábil. 

Sunday, March 5, 2017

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Vai-se vivendo entre gente. Os lugares estão todos ocupados, nos cafés, nas lojas, nos bancos frente às lojas de gelados. Serve-se sempre um cafezinho por aqui e por ali. Até escrever sobre o momento ficou mais fácil, seja num telemóvel, seja num computador armadilhado com corretor ortográfico. Piora sempre um pouco, é certo, quando nos corrige palavras às quais se comeram letras, ou quando somos coagidos a aceitar tal transformação incorreta, in-co-rre-()-ta, sob pena daquele tracejar ziguezagueado vermelho nos vir a afetar o discernimento.

Infelizmente somos muito fracos e o tempo é muito curto para nos dedicarmos a tais contendas reivindicativas, ditas fora do plano e objetivos vigentes. Ser diferente, tentar sê-lo, dá ocupação, mas tira trabalho, e é preciso comer. Gostava tanto que o meu instinto de sobrevivência fosse tão laxo quanto o meu querer estar nesta vida diária. Mas os circuitos divergem algures na nossa cabeça e as águas separam-se a ponto de nos tornarmos autómatos do paradoxo, incoerentes, como o tal sentido de justiça, de uma justiça que se afigura com tino e verosimilhança, mas que não existe além dos manuais da jurisprudência, tal como o nome indica, dos manuais, tão somente.  

Hoje está tudo cheio. Até os passeios estão cheios de malta, de putos fumegantes passando o tempo sobre rodas de skate e charros e garrafas de vodka ou absinto. Sim, porque a Lisboa do Cesário ainda vive a absinto e luzes toscas e oleosidades estranhas.

Mas voltando ao atolamento das ruas, das casas, das famílias, que sempre questionam quando voltamos para casa e não conseguimos esboçar um sorriso, proferir um cumprimento que seja de acordo com o amor e tolerância que por nós têm aqueles que nos amam e que amamos, ou que vamos amando dentro do possível, mas regressando a este atolamento comportamental, errado e feio e displicente, sobrevém a dormência, este estado de anestesia em que vivo, esta aceitação atormentada e incómoda que se perpetua, de dia em dia, de pedaço  em pedaço do tempo que passa.

E nem nos exemplos extremos, nem nas mãos cansadas do trabalho, de levarem pancada, nem na fome, nem na solidão dos outros, se afasta esta angústia egoísta, esta tristeza perene, quando a vida nem tem sido assim tão má.

Sinto-me a pior pessoa do mundo, é um facto, sinto-me longe dos propósitos primordiais, coloco-me à margem da partilha, da aceitação dos pares. Na realidade, violo todas as leis que considero justas e salutares. Porque a ânsia, que teima e persiste, a angústia sempre presente, a sensação eminente de perda, a saudade latente das coisas que foram más, mas que foram, a sensação de seguir no caminho errado, a superação de mim que a mim imponho, o não aceitar que a vida é mesmo isto e só.

Resvalo assim, faminta e triste, por estas ruas cheias, preenchidas de vazios como o meu, de silêncios que se extinguem em sorrisos e abraços e gelados e crepes e copos de três ou quatro ou nem sei já. Resvalo só no aconchego gelado do desespero apaziguado, da gente que sorri. 

Sunday, February 19, 2017

Sunday, December 18, 2016

poíesis

criar
mas o quê
que formas
que letras
que figuras
ou cores
consonantes
com a 
sensibilidade
do momento

criar 
o quê
se nem sentir 
consigo
se nem chorar
nem gritar
nem viver
conforme
consigo

visto-me
com 
o que tenho
respiro 
e acordo
e levanto-me
com 
o possível

corro
porque 
me corre
o chão

escrevo
porque 
me pedem
as mãos presas
desabituadas

bato-me
mordo-me
arrasto-me
para sentir-me
além do peso 
que dura
dura dura
até de noite

,

desejados 
são os dias 
que terminam
com um copo
de vinho 
alentejano 
e um sono
profundo e
quieto

SILÊNCIO

só preciso 
de silêncio

Tuesday, November 22, 2016

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Somos, dizia um amigo algures no tempo, demasiadamente tenrinhos, sobretudo para o mundo que nos espera lá fora. 

O pior é que nos achamos sempre maiores, alguma coisa mais importante do que tudo aquilo que evidentemente nos perturba e causa dúvida e incertezas.

Na realidade, não passamos de uns moços armados em seres com super-poderes, dotados de super-inteligência. 

Acreditem, caríssimos, que este tecto velho só ainda não ruiu porque são ruins as carcaças que o carregam.

Vocação, que vocação? A vocação constrói-se, dia-a-dia, com humildade e perseverança. Mais do que passar dias e noites em claro, a decorar frases sem nexo, para manter o status académico, há que parar para olhar em volta, respirar um pouco de ar, compreender o mundo em que somos e são os nossos pares, as pessoas reais, perecíveis e carentes, como nós.

A dor não se alivia exclusivamente com fármacos. A angústia, o medo, a frustração, a perda, não se compadecem com meia dúzia de teorias. 

A fluência médica resulta da espontaneidade do momento, da troca e partilha entre pessoas, da subjectividade, do olhar profundo que a experiência nos vai dando em crescendo. 

Na faculdade não nos ensinam a ser homens, porque não há tempo, porque se teima em enfiar o Rossio na Rua da Betesga. Vociferam-se palavrões, num tempo de antena tantas vezes imposto a contra-gosto e sem vontade.

Mas no meio de toda a falta de sentido, de toda a desistência que se nos oferece e ocorre, há que manter o fio condutor de nós mesmos. Há que, com calma e tempo, sedimentar o conhecimento. Há que procurar sempre o caminho no sentido inverso, colocarmo-nos no lugar do outro, daquela pessoa que sofre e que espera de nós a mesma dignidade e respeito.

Não bastarão seis anos de curso mais outros tantos de internato, nem mesmo uma vida inteira. Ser médico é aprender sempre, é um não saber permanente, é um partir constante para algo que continuadamente se questiona, cá dentro, mesmo naqueles instantes breves em que sentimos ter feito algo de bom por alguém.

Tocar no corpo vivo, que estendido sobre a marquesa passa a ser a extensão das nossas mãos e braços, tomar o corpo quedado, que em nós confia, sentir e escutar a dor, que quase sempre transgride as cercanias do tangível, tudo isto são formas líricas de dizer o quanto de intrusivo há naquilo que fazemos.

Pesa-nos, portanto, uma responsabilidade imensa, uma honestidade imensa que se não pode quebrar, mesmo quando o nosso mais profundo desejo é não sentir a tal massa dura que cresce, é não ver a hipotransparência heterogénea e excêntrica que escandalosamente se revela.

Ser médico é amar o próximo sem direito a sonegar o diagnóstico mais cruel. É estar em permanente colisão com o desejo sincero de que se não passe nada, de que esteja tudo bem. É suportar o fardo terrível da comunicação sincera e clara, por pior que seja o veredicto patológico. É assumir guerras e batalhas que se sabem perdidas à partida, sempre com uma palavra de conforto, de esperança. Ser médico é arregaçar as mangas, sem coibição no esforço. É ser justo e humilde. É respeitar, respeitar.

Ser médico é também ser pessoa. E ser pessoa é ser frágil, débil no sono que tarda quando são connosco as memórias que trazemos para casa, para a vida corrente.

E depois, no meio de tudo isto, de toda esta ambivalência, há o amor, que complementa a ausência de sentido. O amor combativo, que a sensação de perda, iminente, não deverá nunca interditar. 

Porque amar em plenitudes e vazios, e reconhecendo essas plenitudes e vazios, imprevisíveis mas antecipáveis, é o motivo maior para que se não perca a esperança no homem e no propósito de viver.


(...)