Morreste amor nos caminhos conturbados da vida. Fomos alvo, somos vespas cambiantes entre solidões e defesas frondosas. Não encanta a nova poesia nossa. Falta-lhe o suor nos mastros. Somos todo cristalino, crisálidas uivantes nas noites caladas. Quis-te, quimera alada pelo luar sem fim da noite clara. Foste sopro musculado, música vacilante entre espaços de mágoa. Vieste com o fruto-mar, desavesso e errante, e foste logo contradição. Porque tudo é cá dentro, toda a força que não fala, todo o sentir que se não diz. Foste vida no campo denso da falha, esgar contido na felicidade impossível. Porque ao lado nosso existiu o acaso leso, a parábola derradeira do sentir, a tristeza esgueirada pelo vácuo imenso da planície perturbada. E de tudo isso, de toda a inconsistência que fomos, houve ainda a força, aquele nosso motivo maior, a causa por que corremos sem fim, esta saudade imensa (que é saudade porque longe), o teu rosto-sombra que nada disse, a distância curta do nosso entendimento. De tudo aquilo ficou este amar, velho e só.
Sunday, April 30, 2017
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O tempo ia caindo, esmurrado e esguio, naquela tarde em que sentados no chão, nos demos tarde e já sem fim. Nada começou naquele princípio denso. Nada para além do que fui eu só. Mas a música foi levando e trazendo os restos de nós, de mim que fiquei sem onde. Era Lisboa, aquela que já não me existe. Era a tarde rebolando rua abaixo, rua acelerada, rua movimento, rua catadupa, de pessoas e casas desfocadas. Éramos ali em ponto morto, sem futuro. Não sei, não sei mesmo em que ponto fiquei. Sei que estou longe, áziga, distante do princípio de tudo, voltada de costas para a brisa fresca da manhã. Não sei porque acredito no amor, na amizade, na distorção que faço das coisas, que são apenas coisas. Procuro na intransigência da verdade o abraço que me falha, abraço prolongado, prolongamento de nós. Depois, depois fica a saudade, este agora que me custa e não passa. Como quando subia a calçada do lavra e o meu corpo de madeira e corda era na glória que se erguia. Subi a colina errada, manhã cedo, cansada e sem saber porquê, como agora. Deu-me o tempo a alternativa, que não guardei. Deu-me o tempo a forma amarga e triste de partir, mas não tive como. Enganei-me outra e outra vez, espetei-me, imprudente, contra as paredes que me prenderam, que me cercaram no intervalo das cores, dos aromas, da luz que em mim foi vontade de viver. Mas tudo me é prontamente inacessível, tudo me é presenteado a contragosto, mesmo o teu nome, a nomeação da tua falta. Não há vida justificável ante o sofrimento, depois da consciência clara de que não existem manhãs universais, nem torradas quentes para todos. A vida é isto mesmo, uma contradição consentida, um estar bem no normal recalcamento e escusa. Sorrir é esquecer a desigualdade, a forma assimétrica e grosseira, a matemática original, a imperfeição primeira que somos, do alto desta torre de menagem arenosa e lábil.
Sunday, March 5, 2017
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Vai-se vivendo entre gente. Os lugares estão todos ocupados, nos
cafés, nas lojas, nos bancos frente às lojas de gelados. Serve-se sempre um
cafezinho por aqui e por ali. Até escrever sobre o momento ficou mais
fácil, seja num telemóvel, seja num computador armadilhado com corretor ortográfico.
Piora sempre um pouco, é certo, quando nos corrige palavras às quais se comeram
letras, ou quando somos coagidos a aceitar tal transformação incorreta,
in-co-rre-()-ta, sob pena daquele tracejar ziguezagueado vermelho nos vir a afetar
o discernimento.
Infelizmente somos muito fracos e o tempo é muito curto para nos
dedicarmos a tais contendas reivindicativas, ditas fora do plano e objetivos
vigentes. Ser diferente, tentar sê-lo, dá ocupação, mas tira trabalho, e é
preciso comer. Gostava tanto que o meu instinto de sobrevivência fosse tão laxo
quanto o meu querer estar nesta vida diária. Mas os circuitos divergem algures
na nossa cabeça e as águas separam-se a ponto de nos tornarmos autómatos do
paradoxo, incoerentes, como o tal sentido de justiça, de uma justiça que se
afigura com tino e verosimilhança, mas que não existe além dos manuais da
jurisprudência, tal como o nome indica, dos manuais, tão somente.
Hoje está tudo cheio. Até os passeios estão cheios de malta, de
putos fumegantes passando o tempo sobre rodas de skate e charros e garrafas de
vodka ou absinto. Sim, porque a Lisboa do Cesário ainda vive a absinto e luzes
toscas e oleosidades estranhas.
Mas voltando ao atolamento das ruas, das casas, das famílias, que
sempre questionam quando voltamos para casa e não conseguimos esboçar um
sorriso, proferir um cumprimento que seja de acordo com o amor e tolerância que
por nós têm aqueles que nos amam e que amamos, ou que vamos amando dentro do
possível, mas regressando a este atolamento comportamental, errado e feio e
displicente, sobrevém a dormência, este estado de anestesia em que vivo, esta
aceitação atormentada e incómoda que se perpetua, de dia em dia, de pedaço em pedaço do tempo que passa.
E nem nos exemplos extremos, nem nas mãos cansadas do trabalho, de
levarem pancada, nem na fome, nem na solidão dos outros, se afasta esta
angústia egoísta, esta tristeza perene, quando a vida nem tem sido assim tão má.
Sinto-me a pior pessoa do mundo, é um facto, sinto-me longe dos
propósitos primordiais, coloco-me à margem da partilha, da aceitação dos pares.
Na realidade, violo todas as leis que considero justas e salutares. Porque a
ânsia, que teima e persiste, a angústia sempre presente, a sensação eminente de
perda, a saudade latente das coisas que foram más, mas que foram, a sensação de
seguir no caminho errado, a superação de mim que a mim imponho, o não aceitar
que a vida é mesmo isto e só.
Resvalo assim, faminta e triste, por estas ruas cheias,
preenchidas de vazios como o meu, de silêncios que se extinguem em sorrisos e
abraços e gelados e crepes e copos de três ou quatro ou nem sei já. Resvalo só
no aconchego gelado do desespero apaziguado, da gente que sorri.
Sunday, February 19, 2017
Sunday, December 18, 2016
poíesis
criar
mas o quê
que formas
que letras
que figuras
ou cores
consonantes
com a
sensibilidade
do momento
criar
o quê
se nem sentir
consigo
se nem chorar
nem gritar
nem viver
conforme
consigo
visto-me
com
o que tenho
respiro
e acordo
e levanto-me
com
o possível
corro
porque
me corre
o chão
escrevo
porque
me pedem
as mãos presas
desabituadas
bato-me
mordo-me
arrasto-me
para sentir-me
além do peso
que dura
dura dura
até de noite
,
desejados
são os dias
que terminam
com um copo
de vinho
alentejano
e um sono
profundo e
quieto
SILÊNCIO
só preciso
de silêncio
Tuesday, November 22, 2016
~
Somos,
dizia um amigo algures no tempo, demasiadamente tenrinhos, sobretudo para o
mundo que nos espera lá fora.
O pior é que nos achamos sempre maiores, alguma coisa mais importante do que tudo aquilo que evidentemente nos perturba e causa dúvida e incertezas.
Na realidade, não passamos de uns moços armados em seres com super-poderes, dotados de super-inteligência.
Acreditem, caríssimos, que este tecto velho só ainda não ruiu porque são ruins as carcaças que o carregam.
Vocação, que vocação? A vocação constrói-se, dia-a-dia, com humildade e perseverança. Mais do que passar dias e noites em claro, a decorar frases sem nexo, para manter o status académico, há que parar para olhar em volta, respirar um pouco de ar, compreender o mundo em que somos e são os nossos pares, as pessoas reais, perecíveis e carentes, como nós.
A dor não se alivia exclusivamente com fármacos. A angústia, o medo, a frustração, a perda, não se compadecem com meia dúzia de teorias.
A fluência médica resulta da espontaneidade do momento, da troca e partilha entre pessoas, da subjectividade, do olhar profundo que a experiência nos vai dando em crescendo.
Na faculdade não nos ensinam a ser homens, porque não há tempo, porque se teima em enfiar o Rossio na Rua da Betesga. Vociferam-se palavrões, num tempo de antena tantas vezes imposto a contra-gosto e sem vontade.
Mas no meio de toda a falta de sentido, de toda a desistência que se nos oferece e ocorre, há que manter o fio condutor de nós mesmos. Há que, com calma e tempo, sedimentar o conhecimento. Há que procurar sempre o caminho no sentido inverso, colocarmo-nos no lugar do outro, daquela pessoa que sofre e que espera de nós a mesma dignidade e respeito.
Não bastarão seis anos de curso mais outros tantos de internato, nem mesmo uma vida inteira. Ser médico é aprender sempre, é um não saber permanente, é um partir constante para algo que continuadamente se questiona, cá dentro, mesmo naqueles instantes breves em que sentimos ter feito algo de bom por alguém.
Tocar no corpo vivo, que estendido sobre a marquesa passa a ser a extensão das nossas mãos e braços, tomar o corpo quedado, que em nós confia, sentir e escutar a dor, que quase sempre transgride as cercanias do tangível, tudo isto são formas líricas de dizer o quanto de intrusivo há naquilo que fazemos.
Pesa-nos, portanto, uma responsabilidade imensa, uma honestidade imensa que se não pode quebrar, mesmo quando o nosso mais profundo desejo é não sentir a tal massa dura que cresce, é não ver a hipotransparência heterogénea e excêntrica que escandalosamente se revela.
Ser médico é amar o próximo sem direito a sonegar o diagnóstico mais cruel. É estar em permanente colisão com o desejo sincero de que se não passe nada, de que esteja tudo bem. É suportar o fardo terrível da comunicação sincera e clara, por pior que seja o veredicto patológico. É assumir guerras e batalhas que se sabem perdidas à partida, sempre com uma palavra de conforto, de esperança. Ser médico é arregaçar as mangas, sem coibição no esforço. É ser justo e humilde. É respeitar, respeitar.
Ser médico é também ser pessoa. E ser pessoa é ser frágil, débil no sono que tarda quando são connosco as memórias que trazemos para casa, para a vida corrente.
E depois, no meio de tudo isto, de toda esta ambivalência, há o amor, que complementa a ausência de sentido. O amor combativo, que a sensação de perda, iminente, não deverá nunca interditar.
Porque amar em plenitudes e vazios, e reconhecendo essas plenitudes e vazios, imprevisíveis mas antecipáveis, é o motivo maior para que se não perca a esperança no homem e no propósito de viver.
(...)
Wednesday, October 26, 2016
~
O mundo, como era dantes, esvazia-se a prumo, na desilusão ambígua do esquecimento, conhecido e aceite a todas as horas deste não querer saber.
Olho ante o presente, penso em ti, no reencontrar-te que se faz tarde. Prontamente, porém, vem-me aquela sensação estranha e familiar de saber-te ausente deste mundo dos outros, que para ti deverá ser ainda mais risível e bacoco do que o era quando não era mundo dos outros, mas nosso, estranho e absurdo mundo, o nosso.
Pensei em ligar-te, mas não sei o número. Como é que se liga para aí? É incrível como mais facilmente conseguiria falar com um estranho, qualquer, à distância fónica de nove dígitos e uns toques.
Recorro por isso à memória, coisa que me vem assistindo mais do que aquilo que seria desejável. Nunca recordei tanto, acredita. Nunca vivi tanto ou senti tanto, parada, entre quatro paredes sólidas.
A vida estreita-se-me, entranha-se-me nestas roupas que visto, nesta cabeleira imensa que são os meus sonhos e propósitos frustrados.
Sente-se tão bem, vê-se tão bem esse apagamento, essa mutação das coisas, esta inconstância do que somos, segundo a segundo.
Não deixa de ser aprazível sentir que não existo para os que me são presentes, assim como não existo para mim senão pela memória do que fui com os que foram densamente, intensamente, comigo.
Cresci com pessoas que já não são aqui, caminhei e descobri por ruas que são fechadas, senti e amei por caminhos intransitáveis, fui feliz numa cidade que já não existe, com gente que não existe, com projectos e músicas que se não tocam já.
Talvez as coisas sejam mais fáceis para este mundo dos novos, mundo esse que codifica e descodifica a cada instante, de rosto voltado para objectos incipientes e estáticos. Talvez as coisas sejam mesmo mais fáceis sem o toque, sem a pulsação, sem a energia de ouro alguém que sente e existe e nos faz saber que a vida não é feita de plástico nem de filamentos nanométricos de materiais indefinidos.
Contudo, e apesar da ilusão que nos consome, continuamos a ser carne, e osso, e trabéculas de sentires e afazeres íntimos, que se calam e fecham em tensão, porque, simples e absurdamente, não há interlocutor possível, não há resposta possível a não ser silêncio, de quem tão perdido quanto quem se sente perdido se volta ao contrário na cama e dorme.
Gostava tanto de conseguir falar contigo, aqui, agora, sempre. De ouvir-te novamente, mesmo que fosse para criticares a minha falta de conhecimento ou aquela permanente aplicação escassa. Sim, as cordas continuam a partir-se por falta de uso.
Mas não, neste mundo globalmente coarctado, não há número, nem telefone, nem carta, nem invenção alguma que me faculte o acesso a ti. Talvez para bem teu, sim, haja alguma positividade no afastamento.
Quem sabe, um dia, na ausência de tudo isso?
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