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Por mais silêncio que faça, há
sempre uma voz que fala, ruminantemente, intransigentemente, por dentro deste
meu semblante probo e indeciso.
Fala-me de erros, de
imperfeições, sempre em tom recriminatório. Não se cala
nunca, de tal modo que vem sempre desapaziguar o ambiente estéril que o estar
de bem com a vida requer, para que assim o corpo se não jogue três centímetros
a mais para diante, findo o precipício denso e ignóbil que o vai sustentando.
Mas não é deste ruído que me
queixo. É, sim, da natureza frágil de que é feito este corpo que o contém,
maleável, labiríntico, plasticizável, consoante a aridez do meio e do tempo.
É comigo só, esta contenda. Este
descontentamento perene e lábil. Este faltar sempre, de não sei o quê, que se
tem e larga, impiedosamente.
Perdidamente, disseste-nos tu, num de tantos dias, perdidamente é o teu verbo, que releio à
exaustão, cá dentro, à exaustão.
Amar perdidamente, talvez seja essa
a fonte de vida e dor, talvez seja assim a chama que nos consome,
que nos destrói e regenera.
Mas por que caminhos, por que
razão seguir esse infinito, se aqueles que nos acompanham no percurso se vão
ficando pelas metas incumpridas do destino, sempre em procura, no interregno
desvelado do partir?
Olho em redor e desconheço todos
os passos, todas as vozes, todos os muros da instabilidade material que é hoje
soberana. Desconheço o presente, não te encontro amigo, senão naquele passado feliz, porque passou.
Pudesse eu voltar atrás no tempo,
reencontrar-te, falar-te, dizer-te o quanto me fazes falta, tu, que és gente e
sentir e lugar do passado, deste passado que persiste e falha.
Houvesse uma forma de reelaborar
a malha que fomos, de conjuntar os nossos quereres e sentires irmãos, de
cristalizar numa só imagem a imagem que focámos juntos, nos momentos
partilhados.
É difícil perder os sentidos e
sentires que se fizeram juntos, ao som uníssono do mar bramindo sobre a nossa
integridade jovem e espontânea, ao ar fresco do ponto mais alto da nossa ingenuidade, ao largo
dos deveres e imposições e regras cáusticas que nos foram matando, sempre sob o
auspício daquilo de deve ser, como manda a lei, e o mais que pudesse estar
para aqui a vomitar para bem de uma vidinha próspera e feliz.
Estar só é falar para um
público que não escuta nem sente de semelhante forma, é ter de representar
diariamente um papel imposto e colado a cuspo, é ter de esgrimir argumentos trapaceiros
para que o corpo se levante e não desmorone em picardias ou lágrimas de
desespero.
Faltares-me é falar para dentro,
é guardar o sentir para que se não extinga, é frenar as explosões da alma,
quando o sol cai sobre o horizonte vermelho e roxo, e com ele a vida toda, o
sentido todo, aquarelados.
Sinto saudades, sabendo, porém,
que as saudades nos não faziam grande mossa, naqueles tempos em que o sentir nos bastava. Mas o que não sabíamos, então, era que a música que escutávamos seria transitória, que também os verbos se regeneram e gastam com o tempo.
Talvez por isso me não sinta
preparada para o embate, cada vez mais forte, tão tremendamente célere. Talvez por isso sejam
o silêncio e o distanciamento os modos mais seguros
e imediatos de estar.
Não compreendo o sentido, o motivo de
tudo isto que fomos e somos e seremos. Consinto-me no erro que é calar, porque a vida é uma só e o tempo,
que o ser novo tende a desvalorizar, é demasiadamente vital para que
o deixemos à margem do pensar livre.
Assim pensando, talvez o tempo físico e o
tempo intrínseco a cada sentir, a cada ser, de entre todos os seres, sejam
realidades que se não tocam senão na sua relatividade. Estar enrugado não é ser enrugado nas ideias, no sentir, no desejo infinito de galgar o horizonte, de alcançar a sombra, de encontrar a felicidade, o porto da esperança de qualquer coisa mais, de qualquer gesto mais que se espera, ao limbo do existir longo, vastamente só.
Perdi tempo, esqueci-me de viver quando amar-te
perdidamente, a ti, querer, vontade, força intempestiva e bruta, motivo
vital, me parecia absurdo e dispensável.
Sei-o agora, que escrevo envolta em esperas e dúvidas e questões colocadas fora de tempo, do nosso tempo.
Sofrer é deixarmo-nos
ir na corrente dos outros, é perdermos a capacidade de sonhar, de
procurar o sopro que nos falta, por mais incertezas e contrariedades e dúvidas e
fomes que possam surgir pelo caminho.
Sei e sinto que só assim, em sendo-nos livremente, o silêncio será silêncio
e a voz, insistente e clara, o motor-motim que perdidamente nos tornará à vida, àquele viver de poeta
à solta, àquela energia que nos preenche e ergue face ao vento fresco da manhã, quando o dia é todo por cumprir.

