Saturday, June 25, 2016

~

desconheço-te
amor
quase toquei
no teu rosto
quase abracei
sorrindo
o teu partir
constante

fomos sempre
os dois
sozinhos

silêncios
partilhados

infinito

outro caminho

o meu presente
figurado
não foi além
de sonhar-te

ser-me
enquanto ser-te
foi silogismo
ingénuo e ilógico

desconheço-te
amor
no particípio
do tempo
que se esgota

existirás

terás existido
em mim?

~

não existe
acção
que eu possa
fazer
consequência
do propósito
que não tenho

inerte mas pesado
vai o meu corpo
pelo caminho
sem fim
do mar longe
que não vejo

é no teu rosto
perfumado
na tua aura
de bondade
misteriosa
e branca
que respiro
e resisto
ao cansaço
acirrante
do meu corpo

faz sempre
noite
aqui
aonde o sonho
embate
no silêncio
carregado
das nuvens
e o mistério
de ser
é certeza indiferente
e dura

porque além
de nós
não existe nada
que se saiba
nada que o coração
fasto de pulsar
sem onde
possa entender

rosto teu
sorriso teu
pródigo

pudesse eu ver-te
além do pensamento
beijar-te
sem denúncia
amar-te
sem porquê

mas nada
posso fazer
de momento
falha-me a força
esvai-se-me
a vontade
no propósito
inconsequente
de viver
atrás do pano

“Porque esta vida
É um teatro,
Vês?!”

Tuesday, April 26, 2016

~

 delével
2016

~

Ouve-se o vento. Escutam-se as gaivotas que aportam ao terraço, frente ao mar. Azul, branco, são as cores que levo comigo, daqui, deste lugar de onde foi possível rever a felicidade, a alegria de ver nascer o dia, ininterrupto e pleno no seu intento.

Mas tudo tem um fim no imediato. O tempo passa, o olhar configura-se em modo triste, as pessoas desunem-se, desamam-se. 

No regresso próximo, de novo a sensação de falta, de perda sem ter prévio. O silêncio, o vazio adentro que me inquieta e assoma, na deriva dos dias correntes.

Amo intransigentemente tudo o que sinto ser verdadeiro. Ultrapassada a barreira da verdade, navego inteiramente ao largo das coisas inúteis. 

Existir decorre num espaço e tempo cujos limites provêm de nós e dos que nos são próximos. Aquela grandiosidade, aquela força ilusória e inultrapassável que anima a nossa juventude, aquele querer sempre mais, aquele sentido de justiça, aquela voz que se não cala, a alma transluzente que se ofende e não desarma, tudo isso se depõe quando nos precipitamos para o abismo da esperança ausente.

Não é fácil encarar a impossibilidade, a frustração, a emancipação inexistente. Perceber que a lógica que nos ensinaram carece de sentido prático. Tornámos-nos adultos à força e pela idade, desprovidos de um manual para a vida, que se não decora nem regula por princípios aritméticos. 

Pior ainda é a confrontação com a nossa mediocridade, é sermos apanhados em todas as curvas. Nesses momentos, em que descobrimos as nossas falhas, os nossos erros, os nossos enganos em relação a nós e ao mundo que ocupamos, a debilidade das expectativas prometidas, desaba sobre nós um peso difícil de suportar. 

De facto, somos tudo e nada em simultâneo. Ser ninguém é condição procrastinada à nascença. Somos gerados e educados para prosperar no terreno débil das virtudes. São-nos dadas ferramentas de combate, princípios éticos e morais, linhas de orientação para a vida, noções de causalidade. E se, num certo momento, parece haver um fundo de verdade nos ensinamentos embotados que os pedagogos tecnocratas do sistema nos inculcam, certo é que os meninos e meninas de amanhã se regem por outras leis, por outros princípios e direitos, por cartilhas em que o bem e a reciprocidade entre os homens são meros preceitos de bom-cristão, que pugna por um sono tranquilo e por um acesso privilegiado aos domínios do oculto. 

Contudo, embora a vida nos pareça desigual e injusta, a verdade é que somos todos homens perecíveis, ossos e músculos que se vergam, Sol a Sol, privados de liberdade, desmarginados de nós. E ainda que existir nos não tenha sido dado a escolher, tanto quanto se (não) sabe, mantemos reservado o direito de pensar em modo livre, de não falar com estranhos, de abraçar as causas que nos agitam. 

É preciso por isso superar a desilusão, o sentir que tudo o que fizemos e construímos antes poderá ter sido em vão e errado. É preciso que nos sintamos livres na origem, no propósito das nossas acções. É preciso darmo-nos enquanto somos presente. É preciso andar, andar sem fim. 

Wednesday, March 30, 2016

~

Manhã cedo. É Março. Escuta-se o reboliço dos pássaros contentes. Há sol que entra pelas persianas. O céu é inesperadamente azul, assim se aguente para o resto do dia. Sinto que talvez seja hoje o dia ideal para voltar a acreditar nos homens. Escolho o azul porque é a cor que apetece, dentro das cores de que disponho no armário. 

Espera-me uma entrevista concursal e, ainda que não seja legume de exposição, há que manter o aspecto dentro da normalidade que se aplica a estas situações. Ir pelo menos penteada, com sapatos íntegros e roupa ajustada ao tamanho. 

E então lá vou, sem grandes nem pequenas expectativas, pois que essas não as tenho há algum tempo. Chego mais cedo e por isso as cadeiras estão vazias. Abatanado, tostas, bolo alentejano. Tudo em silêncio matinal, fora os pássaros que no jardim continuam a cantar, mais e mais. São horas de ir. 

Chego com trinta minutos de avanço, para procurar o local exacto da reunião e porque o cumprimento horário assim o exige, pelo menos a meu ver - antes cedo do que tarde ou em cima da hora. O júri atrasa-se uns minutos. A entrevista começa.

Bom dia. Apresentações. Muito obrigada e tal por ter vindo. Sabe, o seu currículo, bom, é um excelente currículo mas não obedece aos critérios da grelha. Porque escolheu vir cá? Foi uma epifania? 

Não sendo eu crente, achei que deveria justificar a escolha de forma cordial e delicada. Bom, porque as decisões que se tomam na vida vão mudando no seu decurso, porque somos seres que se esperam versáteis num tempo que se apresenta dinâmico e vário. Porque sou apaixonada pelo que me proponho a fazer. Porque (penso para comigo) se não estivesse convicta daquilo que considero ser capaz, não viria sequer aqui, importunar os senhores doutores e a mim mesma. 

Desiludida, lá respondo às questões. Duram cerca de cinquenta minutos, sendo que desde os cinco primeiros persistiu um certo menosprezo, uma certa condescendência protocolar. 

- Pronto, mas olhe, não desista do seu sonho. Se não for desta, continue o esforço e tente noutras oportunidades. Vá ter aulas de canto. Tem boa voz, tem talento. Quando melhorar, num sem nunca à tarde, pode voltar. É provável que estejam por cá outras pessoas. Deixamos a batata quente para elas, que agora faz muito calor e queima, queima. 

Procuro manter a calma e tranquilidade de quem se sabe a falar para três paredes, espessas, porque nem sequer ecoa. 

Currículos à parte, grelhas postas fora, ficam os braços e a vontade transparente e imensa.

Saio triste mas fortalecida. Não me enganei. Não só na minha especialidade continua a ser o papel que importa. Não só as pessoas em quem confiei a minha formação se submetem a desígnios vários e duvidosos.

Claro que o papel serve para muita coisa. Usa-se para publicar, para pedir análises e receitas, para fazer aviões, para jogar ao quantos-queres, para pagar contas, para limpar os beiços e as regiões pudendas, para jogar ao totoloto, entre tantas outras coisas.

O problema é que nós não somos feitos de papel. Somos de carne, osso, espírito. Também não somos todos iguais, não nos guiamos pela mesma bitola. Não quer isso dizer que sejamos mais ou menos competentes, melhores ou piores. 

Somos, simplesmente, diversos, e por mais que me esforce, não consigo conceber a natureza de outro modo. 

Felizmente que é Março e os pássaros cantam e as flores cheiram e o céu é azul e há aqueles que nos amam e que incondicionalmente esperam por nós.  

Felizmente que há uma utilidade próxima e intensa para esta nossa vidinha de papel e riso.