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Friday, November 16, 2018

~

Um dia. Talvez um dia regressemos ao momento em que tudo era claro e leve. Em que o sorriso era sempre um sorriso, fizesse chuva, ou sol, ou nada. 

Um dia, talvez, naquele dia, o som regresse ameno, e a brisa, a brisa fresca e ágil da noite, seja imensidão e sonho e tempo infinitamente doce. 

É duro viver sem passado, sem ponto algum além da perda, perene perda que fustiga e corrói. Não há força, não há desejo, não há ímpeto que resista ao esquecimento constante de nós. 

Pensar, repensar um sentido, quando se viu já a esperança sem nome a rebentar das bocas destruídas, sós. Quando seguravas, naquele sopro último, um computador-pessoa, só. Quando embalavas a noite com o respirar ondulante e profundo de quem partia, só. Quando jorravas planos entre golfadas de lucidez, de sangue, só. 

Não há bem possível, plausível, quando a realidade inteira se nos depara assim, imperiosa e dura, numa hora qualquer de silêncios partilhados. 

Um dia. Talvez um dia regresse a ti, a vós. Talvez nesse dia possamos apertar de novo as mãos. E nesse dia, mesmo que as minhas mãos sejam ausentes (e as vossas também), partilharemos juntos a nossa ausência conjunta, a nossa privação alegre do desespero que é viver e saber de tudo isto. 

Wednesday, September 12, 2018

Wednesday, August 15, 2018

~


é em ti
paixão
onde encontro
a coragem
restante
as certezas
as antecipações
os ímpetos
que me levam
para depois
de ti

triste solidão

lugar 
que não detenho
espaço
desassossegado
aberto
livre
tempo
de amar
finda a tormenta
a bravura
das águas revoltas
o precipício inconstante

amanhã
por quem 
se espera
sempre

estás
porque sei
que existes
porque te sinto
no silêncio
todo
desta casa
na luz toda
que se apaga
na penumbra
consentida

não há palavra
nem gesto
que desmintam
o calor incindível
do nosso sentir
calado

somos
por inteiro
na interrogação
no questionamento
da vida
que só existe
e vale
porque somos
em dois sentidos
de mim para ti
de ti para mim
para o mundo
vivo e enérgico
que é lá fora

e por mais
que se não 
toquem
nossas mãos
e que a distância
seja um
espaço vazio
de nós-corpo
és 
serás sempre
comigo

voz 
sem fim
imaterial
matéria
turbilhão
de razões 
e sonhos
e projectos
que por ti
fazem sentido

orla branda
brisa calma
paixão
crescente
amor-paixão
coragem absoluta

azul claro
manhã inteira

janela
que se não abriu
ante aqueloutro
olhar escondido
(o meu)

Thursday, April 26, 2018

~

#1
Abril 2018

Monday, March 5, 2018

~

Óbidos
Fevereiro 2018

~

circula o tempo 
mas o espaço 
permanece

e nesse 
movimento
errático
disestésico
nessa presença
dolente
e (in)constante
é primeira 
a mágoa triste
da saudade
sempre tácita
e rugosa
antes das coisas
e motivos e cores
que se assomam
aos dias
desconexos
e vastos
desta viagem 
sem onde

existir
na certeza final
de que tudo finda
seja para quem for 
naquela mesmíssima 
hora derradeira
naquele lugar 
desvalido

despertar 
com essa verdade
que por ser verdade
magoa 
com a força toda
das pedras
contra o mar
em que me espalho 
e extingo

é sem sentido

e neste azul 
de desencanto
nesta luz matinal
desvanecente
não  encontro 
motivo além 
daquele universal
que nos encanta e trai

motivo que 
em nós 
falta
quando nos escapa
a verdade
e o que resta 
é um sentir ausente

porque o amor
essa razão
esse sentido maior
que nos falha no limite
no ponto em que somos nós 
e o outro 
e (a) vida 
na vida de quem parte

(estar longe
é diferente de ser 
longe)

é a verdade
que nos agarra
a este 
sem tempo 
nem espaço
por que corremos 
sem pensar

estar que tudo 
consome 
e invade 
a cada momento
a cada presente 
que o lembrar-te 
nos permite

por isso penso 
para sentir-te

estando

~

costa 
Fevereiro 2018

~

queria dizer
a palavra
amo
a ti 
e ao mundo 
pois quando 
amamos 
amamos alguém 
e ao mundo 
todo 
que nos ama

queria dizê-la
em silêncio
e no silêncio 
ouvir
ouvir-te dizer
o nome
de todas as coisas
do mundo

queria amar 
assim
amar-te perdidamete
como naqueloutro
poema-vida
que não escrevi

e em tal vazio- 
-libertação plena
da ausência
ser
sermos
com a força
toda
da razão
de sermos

Sunday, November 19, 2017

~


porque além 
de tudo 
o que nos pesa

porque além 
de tudo aquilo 
que nos obriga a

além do pensamento 
que não passa
das horas
de solidão primeira

porque além 
do mar sem fim

há um vazio 
profundo e cheio 
de esperança

.

porque atrás
do silêncio 
há o olhar nosso
pedinte e pronto

e no final
um ponto 
convergente
a todos nós
inquiridores 
da vida desigual
e sem critério 

da justiça
ausente
despontada
a cada silêncio 
maior
a cada sentir
mais lêvedo 
a cada perda
a cada amanhã
assaz frágil 
e incerto

.

porque além
de nós
existe o sonho 
que nos espera
sereno e doce

aquela memória
distante
eluente
do turbilhão 
denso e voraz
que nos engole
e demencia

.

porque além 
da vida
existe o viver
insatisfeito
e nele o abraço
imperioso 
que nos falha
na saudade

[...]


Novembro 2017

Saturday, October 28, 2017

~

não consigo sentir
não consigo chegar
a ti
meu desejo antigo
mudo-me inconstante
sem sentido
de ali para sem onde
por esta terra seca
e lábil
inerte e só

já nem a noite
nem a lua-mar
me trazem a brisa
viva
de outros tempos
nem os lugares
que vivemos
eu e tu
meu velho peito
vazio aberto

nem a música
nem o calor brando
das noites
de poesia
nem o frio
que escasseia
neste outono
por demais claro
e rasgado à vida
que é escassa
e frágil

não há abraço
que me abrace
neste sonho
desavindo
neste querer infinito
e vago
que se não mostra
e não explica
neste projecto
que se vai gastando
em condicionalismos
ambiciosos
absurdos

tudo é denso
e transitório
o mundo pesa
tanto
sempre com pressa
sempre com um objectivo
a mais na calha
sempre com um sempre
a mais no sempre
que se não cumpre

não consigo ser
neste hoje
angustiado
mal começa o dia
e o amanhã se apronta
obsessivo
clástico

não consigo encontrar
nesta amálgama
selvática e viril
nesga de água
fresca
brilhando ao céu
profundo
de estrelas e sóis
ardente

não consigo
ver-te assim
reflexo meu
convexo
debruçado
sobre a sombra
inconspícua
da acção
inconsequente e bela
que demora horas
e dias
e anos
existindo simples
na engrenagem
intrínseca e infinita
e indemonstrável
da verdade
despojada

não consigo amar
não consigo sorrir
além do contexto da dor
que passa
da mão que nos aperta
apertadamente
do olhar que nos não foge
e que só ele entende
o nosso igual olhar
desprotegido e só

[proémio
do verbo falado
das palavras duras
que não precisamos
de dizer
nem a eles
nem a nós]

não sei o que dizer
de tudo isto
que é a vida possível
a vida que nem o pão
nem o vinho
enternecem
a vida que é só uma
e para nós tantas vidas
que são uma e uma só
lutando sem defesa
no leito da descrença
da exaustão
da falta de ideias e recursos
e conhecimento
da coragem

(...)

Tuesday, September 12, 2017

~




remar

setembro 2017


 ~

Falta-me a força para caminhar. Tremem as pernas, a cabeça. Na transição para o piso há um torpor que se interpõe entre o meu corpo e a terra. Não é inverno nem verão, aqui. Não é calma nem revolta. Não é silêncio nem estrondo. Burburinho, talvez. 
Passados tantos anos de para aqui vir, há uma estranheza residente, um querer inconstante, uma dúvida persistente. Atrás, o pano da esperança. É Setembro. Está na hora de acabarem as férias. Aproximam-se as aulas, os livros, os cadernos frescos, as folhas de papel, o cheiro a novo dos livros, acabados de comprar.

A praia, o sal impregnado no cabelo, os gelados, as pulseiras de couro, as horas mortas de calor, o corpo estafado de nadar. Contra as ondas, o teu rosto, que foi meu, o dever cumprido, a ordem, a descontracção merecida, depostas as horas de marranço inconsequente.
Mais vale parecer do que ser. Mais vale a ordem cega do que a consciência do nada que somos. Porque quando as ondas brilhavam e o teu, meu, rosto repousava sobre a água, e os olhos se fechavam à passagem da brisa quente, nada mais existia senão aquela sensação rara e impossível de paz, de harmonia, de estar bem com a vida e com o mundo.

Mas o presente é duro. Porque tudo passa, e até a paz cansa e decai. Há uma altura, que não sei precisar, em que nada do que passou faz sentido, em que o estar bem de outrora se revela ilusão, em que é impossível estar bem quando por dentro há uma tristeza perene e densa.

O aqui e agora é estranho, quando dentro de nós há uma memória assertiva e constante que nos traz à lembrança a desigualdade, o precipício de outras gentes, a reclusão de outros corpos, de outros sentires, de outras inquietações, irmãs na perda e na descrença.

O tempo passa muito depressa. A agonia não. E por mais que me esforce, por mais que procuremos agir de forma consentânea com os papéis que nos foram atribuídos, a fragilidade é grande, e a incapacidade para separar as águas monopoliza tudo e a cada instante. 

Não estou aqui senão por ti. E no entanto, por mais que o esteja, desejo sempre estar noutro lugar, longe.

Preciso de voltar a ler, de estudar, de encontrar desesperadamente uma explicação, uma solução, um plano terapêutico que te ponha bem. Espero sempre encontrar uma publicação miraculosa, um sonho tornado número, um preparado tornado referência. Mas infelizmente, e por mais que o desejemos, há limites, há barreiras intransponíveis, há desconhecimento, muito desconhecimento.

E nem por ti, nem pelo teu bem consigo sair deste marasmo. Desta relutância. Deste engenho precário que encontrei - fugir. Fugir dos outros, dos lugares que foram nossos, da consciência de tudo isso, das pessoas que amo, da vida.

Não sei como terminar esta contenda. Por vezes o álcool, por vezes a chuva que embala, o fumo de um cigarro, que aspiro sôfrega ao ar frio do final do dia. Não sei para onde iremos assim, mas iremos, seguramente que iremos, pois não nos resta outra alternativa senão ir continuando a comer, a respirar, a encontrar motivos e perguntas e necessidades e planos e projectos sem destino.

A vida tem tanto de milagre como de desespero. Erguemo-nos sem vontade, conduzimos freneticamente para não nos atrasarmos para o trabalho, ultrajando-o, porém, sobre todas as formas e perspectivas. 

Caminhamos a custo para um dia que se sabe pesado e grande. Mas durante o dia, quando confrontados com gente como nós, a angústia dilui-se pela necessidade absoluta da concretização. E as horas e os dias passam, bem ou mal, passam. No final, ocorre por vezes aquele momento em que sentimos que a missão foi cumprida. Dura pouco, algumas horas, até que um novo dia se inicia e tudo recomeça, outra e outra e outra vez.

Quando paramos e pensamos no que foi feito, sobrevém o que ficou por fazer, por dizer. A vida, a nossa vida própria, que subjugamos, que deixamos sempre para trás. 

Neste espelho, nesta casa, já fui tantas pessoas diferentes, na continuidade do que fui e sou. Já amei, já sonhei, já acreditei no mundo e nos homens, já fui feliz e triste e insatisfeita. Mas tudo isso foi passado, pois é no passado, perspectivando-o, que somos sempre qualquer coisa. E é assim sempre, por mais que se não acredite, por mais que seja o vazio presente.

Longe caminho, este, por que passamos sós. Despido corpo, o nosso, que se reveste de recordações e memórias. Pretensioso sonhar que germina e freme, ainda, no seio de todas as desilusões. 

Sonhar é tudo o que me resta, é sentir primeiro, força vital que me desperta. Porque a vida é uma só, esta, e tu és tu só porque nela, e ela é vida porque tu és nela, na abstracta presença que és.

Vivemos de amar o próximo. Sentir é ter a consciência plena dessa falha.

Saturday, August 12, 2017

~

Danço. Danças. E a música é lenço branco voando. E a noite é fumo, fumo que arde, inconsequente e férreo, veloz, voraz. É sede e força que se abraçam. É sombra e voz que se ligam, imaginação imperfeita dos corpos que não existem. Suor, suor frio e quente, toque, toque leve e envergonhado. Corre, que o presente não suporta a nossa dor. Quebra a luz, entra na escuridão luminescente do álcool, vem comigo, partamos ao meio a fatia de solidão que nos calhou, choremos juntos a verdade que a embriaguez consola. Porque o presente é insuportável e não ouve ninguém. Queremos o bem do mundo, tão só o bem simples do mundo, mas somos sempre em falha, passageiros sem bilhete, multa imperativa, tristeza magoada que se afunda e nos afunda, sempre mais e mais. Madeira é a que cheira este estrado em que me deito e estico, tabaco impregnado de tempo, olho turco que espelhando-me a ti espelha, coisa sem sombra que sou, que somos, vapor, vapor sem lembrança. Voz ao fundo, música de fundo lento, sala onde dançamos, de cabelos e braços desnudados, sombras, vultos perdidos e soltos, liberdade que só o vento, muito vento, nos traz. Assim vagueamos pela noite, pelas noites das memórias vagas. Sentir vibrante, como te quero. Porque o amor não se basta e o amar concreto é horizonte que se não revela. Suor, calor, alma em partilha contínua. Fazes-me falta e não sabes, nem da falta que me fazes, nem de mim. Nem de mim… Do eu, que sou e mais não posso. Não posso gritar mais pelo que não existe, por ti. Há coisas e palavras que se não ouvem na confusão dos dias secos. Pudéssemos ao menos dizer a todos os cantos e recantos e recortes como o amor é denso e mudo e belo. Pudéssemos quebrar toda a distância. Pudesse eu fazê-lo por nós, por mim, por ti só. Mas o astro da convenção, do como deve de ser, arrasa-nos com desculpas e medos infundados. Tenho a mim e ao dia estafado de tanto amar em perda.   

Thursday, June 15, 2017

Saturday, May 27, 2017

~

não existe modo
perfeito ou justo
para começar 
um poema
escrevo de forma seca
na língua-mãe
que ignorantemente
desconheço
falta-me o cheiro
o verde húmido
dos campos que sonhei
está longe o mar
foi-se a vontade
em poeira e vento
e o meu corpo
moído das cãibras
impregnado de xilitol
e menta barata
todo ele se envolve
e emaranha
de forma consentida
e (in)sensata
em papéis e metas
e prioridades alheias
ditadas por quem nada sabe
do amor claro e inquieto
das coisas simples
do silêncio são
e imperfeito
que é nesta manhã
despovoada e doce