Por mais sentidos possíveis, por mais portas e luzes que se revelem possíveis, há sempre dois caminhos que se repetem e mudam, na exaustão de si mesmos, cada um por si. Partimos sempre sem pensar, na certeza de que o partir é a escolha mais sólida e segura. Chegamos tristes mas confiantes, cansados mas cientes da força que ressurge, por novas aragens, por novos rostos e esperança renovada. Mas o tempo passa, e essa força renovada é cansaço renovado, e tudo isto, ciclicamente, repetindo-se vezes sem conta. Prometemos a nós mesmos, confiamos a nós mesmos uma certeza que não existe, uma vontade que é de nós mas não é nossa. Combatemos a inércia, a falta de vontade, a inoperância, com brindes e instantes inebriados. E há nesses partires cíclicos, nessas rupturas recorrentes e sofridas, no limiar de cada segundo, um precipício da vontade, um golpe de silêncio, de saudade. Estar-se onde se não está, ir para onde nos remete o coração, sem medos, sem perguntas nem remorso. Mas todo o partir é uma saudade renovada, todos os regressos são a triste constatação de um tempo irrecuperável, de opções e decisões irreversíveis, de perdas e perdas sem fim. Viver é um desequilíbrio equidistante entre o sentir e a norma, entre o medo e a liberdade para ser, em plenitude, em verdade. E neste momento, neste agora, transitados tantos sentidos semelhantes, perdidos tantos momentos, tantas possibilidades verdadeiras, parece-me a mim que tudo isto não passa de um sonhar patético, de um problema de alma, de uma mente perturbada e inconsequente. Parece-me a mim que o problema não vem de fora, deste mundo estranho e árido. Talvez seja eu só, sejamos nós, sós, os causadores de toda esta tormenta, de todo este desespero ilógico. Talvez a incapacidade de relacionamento com o exterior, a dificuldade no estabelecimento de elos, a intransigência para com as pessoas que decidem sobre os nossos futuros, a incapacidade para calar e deixar de transmitir opiniões e questionamentos inúteis, talvez tudo isso seja um defeito nosso e não do mundo, que é sempre o mesmo, que, segundo se diz por aí, foi sempre assim. E nesta dúvida, na percepção de que talvez haja uma fonte de razão quando nos afirmam haver uma constância no mundo que se não pode, não podemos, mudar, nesta assumpção da falha que é minha, que sou eu, no final de tudo isto resta uma tristeza enorme, uma impossibilidade enorme, uma incerteza enorme. Resiste-se esquecendo, em sonos inquietos, a injustificação da vida, a fragilidade deste existir intenso mas sempre inconsequente, deste amar imenso mas antecipadamente só, porém eternamente possível e aberto ao futuro e a todos os sonhos de que somos feitos. Do princípio ao fim, de nós.
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explorações
(no tempo)

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