Wednesday, April 15, 2020

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Por mais sentidos possíveis, por mais portas e luzes que se revelem possíveis, há sempre dois caminhos que se repetem e mudam, na exaustão de si mesmos, cada um por si. Partimos sempre sem pensar, na certeza de que o partir é a escolha mais sólida e segura. Chegamos tristes mas confiantes, cansados mas cientes da força que ressurge, por novas aragens, por novos rostos e esperança renovada. Mas o tempo passa, e essa força renovada é cansaço renovado, e tudo isto, ciclicamente, repetindo-se vezes sem conta. Prometemos a nós mesmos, confiamos a nós mesmos uma certeza que não existe, uma vontade que é de nós mas não é nossa. Combatemos a inércia, a falta de vontade, a inoperância, com brindes e instantes inebriados. E há nesses partires cíclicos, nessas rupturas recorrentes e sofridas, no limiar de cada segundo, um precipício da vontade, um golpe de silêncio, de saudade. Estar-se onde se não está, ir para onde nos remete o coração, sem medos, sem perguntas nem remorso. Mas todo o partir é uma saudade renovada, todos os regressos são a triste constatação de um tempo irrecuperável, de opções e decisões irreversíveis, de perdas e perdas sem fim. Viver é um desequilíbrio equidistante entre o sentir e a norma, entre o medo e a liberdade para ser, em plenitude, em verdade. E neste momento, neste agora, transitados tantos sentidos semelhantes, perdidos tantos momentos, tantas possibilidades verdadeiras, parece-me a mim que tudo isto não passa de um sonhar patético, de um problema de alma, de uma mente perturbada e inconsequente. Parece-me a mim que o problema não vem de fora, deste mundo estranho e árido. Talvez seja eu só, sejamos nós, sós, os causadores de toda esta tormenta, de todo este desespero ilógico. Talvez a incapacidade de relacionamento com o exterior, a dificuldade no estabelecimento de elos, a intransigência para com as pessoas que decidem sobre os nossos futuros, a incapacidade para calar e deixar de transmitir opiniões e questionamentos inúteis, talvez tudo isso seja um defeito nosso e não do mundo, que é sempre o mesmo, que, segundo se diz por aí, foi sempre assim. E nesta dúvida, na percepção de que talvez haja uma fonte de razão quando nos afirmam haver uma constância no mundo que se não pode, não podemos, mudar, nesta assumpção da falha que é minha, que sou eu, no final de tudo isto resta uma tristeza enorme, uma impossibilidade enorme, uma incerteza enorme. Resiste-se esquecendo, em sonos inquietos, a injustificação da vida, a fragilidade deste existir intenso mas sempre inconsequente, deste amar imenso mas antecipadamente só, porém eternamente possível e aberto ao futuro e a todos os sonhos de que somos feitos. Do princípio ao fim, de nós.


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explorações
(no tempo)

Friday, April 10, 2020

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São longos os dias. Por mais ocupações, por mais deveres ou preocupações em mente, são sempre longos os dias, estes dias, de vazio. Não há espelho que nos sirva, ideia que nos capte a atenção, a constância necessária para um sono sossegado. Porque constante, perene, é a tristeza que trazemos, é a desunião que nos une nesta solidão atroz, é o desprazer de haver gente e mais gente que morre, e de ainda não ter chegado a nossa hora, por ora refastelada e doce, tragada num cálice de porto regado com ameixas e chocolate negro. E por mais que este nosso presente não seja o pior dos cenários do momento, por mais que sobre a nossa cama não pairem seringas infusoras, nem da nossa boca não saia um tubo de plástico. Por mais que possamos abrir os olhos e espreitar, conscientes, a nesga de luz que passa pelos estores corridos dos nossos quartos, por mais que possamos comer à mesa com a solidão, porém bem abastecidos e fastos. Por mais que ainda estejamos vivos e possamos fingir que há uma vida que continua e espera, que existe um futuro-breve,  normal, para o qual fomos educados. Por mais que tudo isto, e toda esta maquinal eloquência, repetida à exaustão do desespero, da incapacidade, da inércia determinada pela falência do que somos enquanto seres, dotados de imperfeição e medos e incapacidade para reconhecermos na morte do outro a imagem da nossa ignorância e mediocridade. Longos são os dias em que preferia arriscar a vida num abraço terno, eterno, no abraço forte que me falha e tarda, infinitamente, pelos dias longos, por estes dias longos e sem sentido. Porque na verdade, e esta é a verdade, somos na medida de por quem somos, e só sorrimos e acordamos felizes na penumbra vital daqueles que amamos e nos amam. Faça chuva, sol, frio, vento, ou uma qualquer tempestade viral que nos arraste e leve. É a solidão a nossa maior hecatombe. É a vibração, o som baixo de quem respira sobre o som baixo que é em nós, de nós, dos nossos corações cruentos por não poderem sentir nem bater por quem, é a vida no limiar do amar absoluto, desprovidamente verdadeiro e essencial, que nos prende a um motivo maior. É o amor, apenas o amor, que nos garante a tolerância bastante para este mundo desigual, cruel, imundo. E nesta loucura, neste apartamento intransigente e feroz, neste viver virtual e cómodo, nesta distância imposta pelo medo, nesta coragem deposta pelo pavor de morrer, e de fazer morrer, como se ainda aqui estivéssemos, vivos e vorazes. Neste vazio frio e mordente, neste congelamento do tempo, no amanhã, não muito longe, naquela sempre manhã azul e clara de verão que por nós espera. Nesta expectativa constante, confiante, segura de si. Em tudo isto reside a longura das horas longas, e este sentir putativo e apaziguador, sobejando sempre, ardente e duro. Pudesse, pudéssemos quebrar as barreiras semânticas do respeito, sair para a rua de braços abertos ao mundo e à vida restante. Pudéssemos viver sem que ao amor se chamasse perversão, nem ao desejo de ser livre se lhe atribuísse o epíteto - egoísmo. Pudéssemos esquecer, assim, tão facilmente, o nome de quem se ama letra a letra revelado. A saudade.

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 Fevereiro de 2020