Saturday, March 2, 2019

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O mundo desperta com a luz da manhã. Há uma vida lá fora, cumprindo-se em contínuo, sem que a nossa pressa, sem que o nosso desespero e intransigente inquietude a perturbem.

Há um campo vasto de luz, lá fora, e o odor fresco, verde, salgado, que se não pode atingir. Distam os nossos tempos, as nossas cores contrastantes, as nossas angústias, os nossos silêncios estridentes e vastos. Procuro-te, incessantemente, nesta manhã, nesta dor constante que é sentir-te, estando, só.

Não muito distantes, há dois apelos que por mim chamam e saltam e explodem de alegria quando a meu lado. Mas tudo pesa, e nem essa energia vital e brilhante e verdadeira, nem aquele amor que se não exprime por palavras inteligíveis, poema de um vocabulário próprio e essencial, nem este abraço garantido, nada substitui o sentido ausente.

Procuro sem direcção aquilo que não sinto. Porque há, sei que existe, alguma coisa maior, uma essência que se agita acima de todas as coisas do quotidiano normal, de qualquer intento, de qualquer domínio que se possa controlar por gestos ou palavras secas.

E entre mim (entre nós) e o universo resplandecente e claro que se não alcança, há um vale imenso e oscilante, uma dor que corrói e persiste, uma saudade imensa e intransponível. Nem a música, a música.

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