Friday, January 22, 2016

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tarde
2015

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Caminho no deserto vazio de mim. Esgotei, até à exaustão, todas as possibilidades. Tenho cãibras, sinto as pernas presas contra o vento, falha-me a força oponente. Olho a sépia fosforescente. Ao horizonte a turbidez quente das pessoas que passam. São correntes contínuas de esperança, pontos que se afastam, longe. Estendo o braço para a vida distante que se escapa entrededos. Um dia era ali, à luz do dia são, sob o aconchego da noite terna e quente. Abre-se a terra mole e seca. Piso e cheiro e vejo apenas esta amálgama barrenta. É preciso seguir, mesmo que o amor dimanante não me seja dirigido. É preciso beber ainda que a sede seja extinta. Porque as maiores privações são a utilidade, o propósito de nós, mesmo que desconsiderados. O importante é a validade de nós para nós. Aquela que uma vez perdida é difícil de encontrar ou reconstruir, por mais que sejam as alternativas provisórias e incertas. Fazemos o impensável, agimos pelo contrário das nossas convicções, recriamos a personagem, representamos o papel, revisto e emendado por fora. Termina o dia e faltam-nos sempre elementos para o balanço. Apetece-me qualquer coisa doce. Não tenho fome. Bebo um café bem longo. Queimo peito adentro a frustração. Outrora espreitaria o frio fumegante, a chuva batente. Escutaria uma música, talvez um nocturno ou um fado menor. Embrulhar-me-ia confortavelmente na leitura. Porém, não consigo. Lá fora há uma revolução. Pessoas que se matam, crianças esmorecias pela insanidade a que são obrigadas, impulsos nervosos propagando-se por ecrãs e montras e luzes ofuscantes. Estar aqui é aceitar tudo isso, à distância. Estar aqui é negar a mão à pessoa que é só. E nem por isso deixo esta sala. Este idílio cárstico, este marasmo vulcânico, este querer inoperante. Desconstruo a vida, peça a peça, com requinte e tempo. Descubro erros, ideias obturadas. Aqui chegada, a este ponto sem retorno, a este limite, a esta consciência irreversível, não sei para onde ir. Não consigo sorrir, não consigo abrir o coração ao mundo, não acredito nas pessoas, com as devidas e raras excepções. E por mais que procure um sentido para o que realizei, reconheço-o apenas dentro de mim, para mim. Não existo. Talvez não tenha sequer existido senão nessa presunção. A acção desenrola-se voraz. As vozes são as mesmas, os desfechos iguais. Não há justiça nem arrependimento. A guerra foi minha. Fui eu que me feri. Tudo o resto passou lesto e indiferente. A vida continua. Dedicação, ética, respeito. Nada disso importa neste meio em que vivemos. Enganei-me. Deslumbrei-me com a possibilidade de, finalmente, poder vir a fazer algo de útil, de estar no caminho certo para a concretização de um projecto de sempre. É incrível quando nos apercebemos da desfaçatez dos nossos ídolos. Quando, de repente, nos deglutem e digerem corrosiva e lentamente. Sou objecto. Poderia ser esta cadeira onde me sento. Esta mesa sobre a qual me apoio para escrever. O mundo permaneceria igual. As mesmas pessoas seguiriam os mesmos passos. Numa altura, talvez do momento primeiro de onde partem as memórias mais antigas de nós, nessa altura tomamos consciência da nossa presença no mundo, mundo esse que é tanto por descobrir. Aprendemos o nome das coisas, já sabemos andar, começamos a ler e a escrever, crescemos,  já temos força e altura, temos coisas urgentes para descobrir, explorar, fazer. Nessa altura, sentimos que somos únicos, que somos importantes, que temos uma missão, um papel a desempenhar. Ainda que os exemplos paradigmáticos de desigualdade, vulnerabilidade, efemeridade da vida estejam expostos descaradamente, não permitimos que nos demovam a esperança, nem a força. A rebeldia, intransigente e pura, é a nossa arma de arremesso. Somos um escudo incorruptível. Questiono-me, hoje, para que serve tudo isso. Privar os sentidos das cores, aromas, sons. Deixar escapar o brilho da natureza, o céu constelado, aberto ao infinito do infinito. Correr para as aulas, passar horas infindáveis a estudar, entre quatro paredes, sem luz. Todos esses sonhos nos são roubados. No final desse trajecto monótono e escorchante há apenas contas para pagar, um emprego para manter, sob ameaça de despejo e de fome para os nossos filhos. O corpo muda. Não somos já a imagem que ficou, fotografada lá atrás, quando o passar do tempo fora irrelevante, não fosse a vontade desmesurada de andar no banco da frente ou de fazer dezoito anos para poder tirar a carta. É chocante olhar o espelho e não reconhecer o rosto que nos encara. O tempo revela-nos a verdade. Não somos preparados para ela. Não estou preparada. Persigo um modelo passado, obsoleto, idealizado com o passar dos anos. Procuro lembrar-me do que pensaria dantes, do que faria se dantes aqui estivesse, de que forma sairia deste esconso. Talvez outrora eu não pensasse no futuro da mesma forma. Talvez nem o pensasse, pelo menos de forma racional e contada segundo a segundo. Reconhecidos os limites da significância, enquanto hipótese crível, a impossibilidade da realização essencial, a incerteza, não sei o que fazer, o que ser. Por agora, paro.

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