Monday, January 4, 2016

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Começo o ano sem grande coisa para dizer. Com a mesma sensação de estranheza, de que algo errado está para acontecer. 

Não sei bem, ainda, em que imaginário viver - se no imaginado; se no real subterfúgio diário, que nos vai mantendo de pé. 


Porque sentir o medo do outro, a fome do outro, são hábitos que passaram de moda. Ficam mal. Mais facilmente aceitamos a necessidade de posse, o rosto duro e impenetrável das pessoas que sofrem para dentro, a problemática da ignomínia, de mostrar ao mundo o quanto somos frágeis, o quanto precisamos daqueles que nos são próximos. É insuportável a relutância anteposta a um simples e devido obrigado.


Mas nem por isso nos esforçamos. Antes, fugimos do perigo escondendo-nos atrás de um ecrã. Ganhamos voz batucando no plástico. Fechamo-nos no espaço seguro e asséptico que montámos em bloco e dele comunicamos ao mundo o que nos vai no pensamento anónimo. Pois que, por mais que nos esquivemos do face a face, persiste em nós uma vontade imperiosa de prevalecer, de deixar marca, de existir. 


Sem juízos sobre o que estará mais certo ou menos errado, confrange-me o vazio, a solidão que criámos à nossa volta, o silêncio habitado. 


Sentir com os sentidos, tocar, abraçar, rir com os dentes todos, molhar os dedos em gotas de sal humano, reconhecer a vibração silente de outros corações que batem e se interrogam. Talvez precisemos de reocupar os espaços que fomos fechando de geração em geração, de repensar o que andamos a fazer pelos dias que passamos, de adequar as motivações, as aspirações impostas, que nos toldam sem amanhã.


Viver requer tempo e dedicação. É preciso ser presente para aqueles que nos são presentes. A integridade começa lado a lado, no amar próximo, nas frases e gestos simples do quotidiano imediato. 

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