Recordo-te no som inconspícuo da memória. Na penumbra do
silêncio indefinido. Nele abarco armas, vislumbres de emoção constrita, que não
sinto. Reergue-se deste estranho despertar a precisão de ser nada, de inexistir
para o mundo concreto dos homens, que se mordem e arranham.
Sigo na direcção inversa da procura, do vazio pleno.
Agora que a vida surge bela e injustificada, que o sonho é lento e reverso e
enfrenta a finitude que nos condena ao ponto de sermos nada.
Reconhecer a transitoriedade, o prazo escasso para sentir
o intransmissível. Saber da inconsequência da acção, da clandestinidade
subjectiva e breve do amor, que surge e esquece dentro de nós. Abrigar-me num
caminho sem fim, ininterrupto - resposta que não existe. Porque o motivo
essencial é tão só lembrança magoada.
Recordo e estranho esta presença ainda em mim, passadas a
incredulidade, a interrogação, a inevitabilidade de aceitar sem perceber. Agora
que o mar é só azul e água e o vento apenas vento.
Mas a vida tem de prosseguir e em si o desejo inato de
viver a todo o custo, a necessidade primeira de amar o próximo, o idear de uma
certa utilidade para o mundo imediato, a procura do amor extrínseco e
constante, que nos ouve e sabe.
O tempo passa-nos e nós através dele e quando damos
conta ficámos para trás. Porque o peso é muito e não cabe lá muita gente. E o
que resta são os nossos pares apenas. É com eles que nos destinamos a partilhar
o espaço que nos restou.
Não há nada que hoje em mim que valha. Não tenho nada para
dar. Cheguei até aqui a custo e no percurso fui esvaziando as mãos e o coração
e a capacidade de preencher a solidão. Angustia-me a perda, o afastamento, a
desilusão antecipada.
Olho em frente e é escasso o percurso alcançável.
Perfilam-se tolhidos os corpos. Procuro-te sempre na decrepitude das palavras e
gestos perturbantes. O teu olhar lúcido, o abraço breve que me recebe e
entende. Porque és para mim a verdade que julguei existir no próximo, a
presença grave e insuspeita, que não encontro além de ti, o afecto, contido no
verso, esparso no agir. Mas estás longe, também.
Sei que há um caminho a seguir. Que há sempre um início e
um fim simultâneos. Que nada é certo nem previsível. Que a vida se passa a sós
e injustificada.
Talvez fosse já tempo de me não espantar com esta
insignificância, com a falta de sentido que é o viver inconsequente, mas ávido,
o caminhar em círculo, com a ilusão de que se progride.
É difícil aceitar o sofrer sem motivo. Porque, na
essência, somos apenas espelhos reflectindo-se entre si. Luz contida nos
intervalos de nós. Erros que ganharam vida.
Recordo-me do quanto de esperança era o desespero. Do
horizonte-luz, o único e possível, quando na tarde tarde éramos silhueta
cindida ao sol poente sobre o mar. Não importava o frio. Em nós havia o calor
absoluto da vida toda para viver.
Falávamos dos males do mundo, com a incredulidade verde
de quem acreditava na justiça. Porque o passado como recordação, alegre ou
triste, é-o nas cercanias da separação, do corte abrupto com as nossas
certezas. E naquele tempo, não havia passado alegre nem presente triste.
Vivíamos abrigados na nossa existência, falávamos da fome à mesa farta,
dormíamos ao relento porque nos esperava o conforto de um banho quente.
Vivíamos sem sentir aquilo que julgávamos saber, quando confrontados com as
assimetrias da vida. De nós ouvia-se o mascar ruminante e voraz da gente
nova e imperturbável, que se fere e não aleija.
Falta-me a voz. Ou talvez, mais, ouvido que a escute.
Sinto hoje a presença ausente dos espaços. Os corpos que se abraçam sem se
unirem. As mãos que se dão, mas que deslizam, esmorecentes.
E porque a reciprocidade nos falha (e espelha), receamos
sempre revelar o que de mais intrínseco sabemos de nós, a nossa fragilidade.
É difícil existir em conformidade com aquilo de que
discordamos. Dizer que sim, consentir o que nos é estranho e repele. Dormir de
consciência cega. Temer o menosprezo dos outros, a diferença que nos não
distingue do grupo dos falhados.
E por isso tendemos a prosseguir, de rosto lavado, ante
os desígnios da mesura. Gostamos quando nos tocam no ombro por nos portarmos
bem. Somos chamados a corroborar o que não sabemos e dizemos – sim, sem pudor. Somos
aplaudidos se não pensarmos e não pensamos. Somos postergados se não
colaborarmos e assim calamos.
Não existe justiça na natureza. A justiça é uma invenção
do homem maquinal, um desvio centrípeto das condutas marginais, uma forma de
imposição da ordem segundo o grupo dos mais fortes. Se o Homem fosse bom talvez
nos bastasse a ética. Talvez seja por isso que possamos fazer tão pouco e que o
nosso grito seja tão baixo e irrelevante.
Houve um tempo em que se acreditava. Em que sonhar nos
era permitido, sem que daí nos sucumbisse o alheamento inconsequente. Houve
necessariamente um tempo do amor, porque se o não guardássemos na essência, não
existiria esta sensação de perda, de saudade. Aonde ficou não sei. Desconheço a
razão do fogo extinto. O derroteiro dos sonhos que nos instigavam, das paixões que
nos enterneciam.
Findo o inebriamento, resta-me pouco. Perdi o lugar que
pensei ser, calei a voz, as mãos que ninguém escuta. Olho-me ante os espelhos e
o que vejo é luz extinta.
Mas a vida continua. E os dias passam. E precisamos de manter
os mínimos de nós, pelo menos em consideração àqueles que nos são irmãos. Dignificar
o que não é dignificável. Representar a peça enquanto o pano não cai.
É desleal subjugar o sonho dos jovens, deitar por terra a
sua força ante as nossas angústias, confundir os nossos desesperos. Porque o
futuro é neles. É na superação, na revelação que nos facultam, a nós, que um
dia fomos como eles. E é por isso que, extinta a matéria que nos inflamava, é
preciso mostrar-lhes os caminhos que errámos, contrapor direcções, construir
desafios, encontrar um sentido.
Precisamos urgentemente de um motivo, de uma utilidade
para a nossa existência. Dizer que a felicidade está nas pequenas coisas não é ludíbrio
fácil. Privamos hoje do afecto que julgámos ser incondicional. Somos
aborrecidos e indesejados. Ninguém quer saber da índole do que fazemos, nem
porque o fazemos. A despretensão perdeu-se na mesquinhez, na ambição, no
egocentrismo bruto. As nossas expectativas são distorcidas.
Talvez não exista uma saída. Talvez a fragilidade do
nosso futuro seja superlativa e o limite a consciência de tudo isso. Mas só
existe uma vida. Só existe um corpo cansado e com sono, mas que ainda assim é
corpo, que dói e sente. E é nessa verdade, nesse estar sobrevivente no mundo,
nessa nudez que somos nós ao frio da desesperança, que corremos contra o tempo
que passa.
Nada do que vivemos faz sentido. Tão pouco esta
interrogação permanente. Seremos eternos descontentes. É essa a verdade uníssona
que nos nivela e incita, a nossa consolação.

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