Por fim o término setentrional de
um dia a mais. A solidão triste e fria. A saudade clástica de ti.
Nem tudo o que escrevemos serve para
dizer aquilo que gostaríamos. Não é fácil trazermo-nos ao mundo das coisas
concretas. Porque a lembrança dói. E apesar da luta para que o silêncio
persista, apesar da luz que apagamos para que os demais [nós] nos não
pressintam, existe sempre qualquer coisa maior adentro, um ruído ininteligível
que tem que sair, rebentar nos escombros do verbo inconsequente e duro.
Gostava tanto de poder abraçar-te
com a força desconjuntada desta vontade que não controlo. De dizer-te, à
distância daquele amor jogado ao abandono, que a vida existe erma, na
continuidade de nós. Que nas cercanias do que vemos coabitam o princípio e o
fim do interlúdio – o único acessível – a que chamamos existir.
E que porque aquilo que
desconhecemos é tão maior, porque o entendimento é uma verdade imperfeita e
frágil, é preciso sentir o pulsar dos outros em nós. Permitir que as nossas
dúvidas sejam resposta às interrogações-irmãs das nossas. Abrir os braços.
Lançar o peito ao vento limpo e frio. Escutar a alvorada, os arrufos primeiros
da vida que desperta, sem propósito, para um dia a mais que ontem, a menos que
amanhã.
Pergunto-me se existirá ordem alguma,
natural, para o desmérito da verdade, da intransigência honesta e cega. É por
demais difícil encontrar um sentido que o justifique. Um motivo ulterior que
não seja ganho próprio. Pensar, projectar,
laborar. Para tudo existe um fim essencial, um objectivo centrípeto que é em nós
primeiro e mais forte. Vencer é
resistir à aniquilação de nós. É ser resiliente e fraco. Já atingir é outra coisa maior, mas não
menos perversa. Ficar para a posteridade. Concretizar a necessidade intrínseca de
permanecer, de deixar socalco. Repetir os sonhos que o serão sempre – sonhos – enquanto
matriz do idear crédulo e convicto, do agir irrepreensível e despretensioso, da
força imensa, do grito ávido que temos cá dentro e nos transborda.
Mas a vida gasta-se e o corpo,
cansado, vai secando. E no final já só quer partir. Não é fácil existir-se ciente
da ausência de futuro. Não é fácil viver sem ar respirável. Ver sem luz que nos
veja. Ouvir sem ouvinte que nos entenda. Envelhecer é experimentar a verdade estéril
dessa condição. É reconhecer a nulidade daqueloutra paixão, imensamente sinuosa
e verdadeira, exaurida pelo tempo. É perceber nela a falácia cíclica que nos
prendeu à vida e não saber o que fazer, o que responder àquela voz crua e doce
de criança, àquele brilho ávido e atento que nos indaga sobre o corpo jazente e frio –
“que ainda ontem sorria”.
Talvez conceder ao vazio o vazio
incrédulo de quem nos acompanha, lado a lado, pelas ruas. Partilhar o tempo, sem
pressa. Escutar com vagar, sem hora marcada para o ponto, as banalidades dos
outros, que são [as] nossas também. Vibrar com a simplicidade de um sorriso. Encontrar
nele a grandeza da verdade, da sinceridade despretensiosa e terna. Talvez assim
se justifique a vida. Talvez assim possamos aceder ao abrigo das palavras
verdes – aquelas que ficaram longe.
Chove, hoje. É uma chuva batida a frio.
Apetece-me chorar, mas não consigo. Falha-me a razão para sentir. Não há
legitimidade possível para o deleite quando a ferida é imensa e arde, insaciável. Questiono-me a cada hora que
passa. Adormeço para acelerar o tempo. Falha-me a razão de ser. A compreensão.
O entendimento deste mundo desequilibrado, aonde viver é uma espécie de favor
que um não sei quê nos vai concedendo, porque não sei quem, primo-neto de não
sei quê, assim deliberou, por bondade, e altruísmo, e garantia das devidas
salvaguardas no além. E no entanto assim, conquanto não possamos falar, conquanto tenhamos
perdido o sentido de direito, de igualdade, continuamos a arrastar-nos
sorrindo, para bem da moral que só a alguns [poucos], pertence.
Mas é para ti que escrevo hoje. Por
ti, que tens estado longe. A ti, que não sinto já, distante. Em ti, causa desta
ausência de sentido que é a minha vida, movida a serotonina e sono. Pudesse eu abraçar-te, dissera-o
já. Pudesse eu quebrar este bloco de gelo que sou agora. Deitar pela pia estas
pastilhas que me amarguram. Voltar àquela inconsciência imberbe, apaixonada. Ao
tempo das cores das árvores sem nome.
Por ora reconheço somente o
absurdo desta deriva. Do acreditar-te desmesurado. Da extensão ilimitada de mim
a ti. Da força bruta com que me lancei ao mundo sem [querer] ver que não
estavas. Da avolição que me consome e paralisa.
Reconheço que não posso dar-me
por inteiro. Que a perfeição só tem sentido porque não existe só. Que te amo [de] mais, tanto quanto o teu ruído me falha. Que é aí mais claro o silêncio crasso, dolente,
que em mim dói.
Tenho sono. Tenho muito sono.
Tenho sono. Tenho muito sono.