Garrett
2013
~
Creio
em ti, Deus: a fé viva
De
minha alma a ti se eleva.
És - o
que és não sei. Deriva
Meu
ser do teu: luz... e treva,
Em que
- indistintas! - se envolve
Este
espírito agitado,
De ti
vem, a ti devolve.
O
Nada, a que foi roubado
Pelo
sopro criador
Tudo o
mais, o há-de tragar.
Só
vive de eterno ardor
O que
está sempre a aspirar
Ao
infinito donde veio.
Beleza
és tu, luz és tu,
Verdade
és tu só. Não creio
Senão
em ti; o olho nu.
Do
homem não vê na terra
Mais
que a dúvida, a incerteza,
A
forma que engana e erra.
Essência!,
a real beleza,
O puro
amor - o prazer
Que
não fatiga e não gasta...
Só por
ti os pode ver
O que
inspirado se afasta,
Ignoto
Deus, das ronceiras,
Vulgares
turbas: despidos
Das
coisas vãs e grosseiras
Sua
alma, razão, sentidos,
A ti
se dão, em ti vida,
E por
ti vida têm. Eu, consagrado
A teu
altar, me prosto e a combatida
Existência
aqui ponho, aqui votado
Fica
este livro – confissão sincera
Da
alma que a ti voou e em ti só ‘spera.
in Folhas caídas, Almeida Garrett
in Folhas caídas, Almeida Garrett

