Sunday, August 25, 2013
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foto retirada de www.olhares.com (link do autor)
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O retrato social. Aquela marca que se não desgruda da consciência. A impossibilidade imediata de ser feliz, porque há sempre qualquer coisa que não está bem, que não é bem. A instabilidade intrínseca da acção, que é sempre errada e certa, bem intencionada e vil. A derrota dos planos, muitos, que se fazem, na certeza de que se não cumprirão. O emaranhado de emoções que não podemos expressar, mas que sentimos camuflado dentro de nós. O sorriso frágil que sorrimos para bem aparente do desespero silenciado. A pressa, a ânsia que contemos, porque o tempo se nos afigura lesto e por ora não podemos correr além dos limites humanos de nós. A alvura da manhã, o mar sereno, as luzes brandas do sol-pôr da tarde, que passa, como se nada houvesse além do destino-instante imediato. A concentração iridescente do sentir sem depois. O ar restante que sorvemos insaciados. A sempre falta de qualquer coisa. O beijo, o abraço, o sorriso que nos falha quando anoitece e o corpo torna, desabitado. A nuvem densa de ideias, de contradições, de vontades que se não concretizam. O viver hipnagógico e aturdido por que passamos, na senda de um futuro incerto. O tempo que depomos, ocupados em lutas absurdas. O estar sempre a mais em nós e nos outros. O sentido ausente.
Saturday, August 24, 2013
~
foto retirada de www.olhares.com (link do autor)
~
não fui eu
agora
quem te disse
que o sentido
das pedras
era o único
possível
do imaginário
de coisas felizes
que pensaste
quem te falou
do azul-claro
que é sentir
adentro
dos outros
e nisso
encontrar
a felicidade
de um sorriso
ou a aceitação
da derrota
que é ser homem
e sabê-lo
de fronte erguida
ao sol nascente
da manhã
que brilha
lá fora
não fui eu
quem te trouxe
a notícia
do desespero
nem que te
apresentou
apresentou
à solidão
do mundo
que se não cansa
de gritar silente
o lume aceso
da vida falha
que a nós coube
não fui eu
que te sou
agora
o corpo gebo
e desalinhado
correndo crente
por coisa alguma
ora não sentida
senão como vazio
desconcertante
da inutilidade
destes meus
estéreis dias
esboroados
perfilei-te
sim
sem vontade
e em desacreditação
daquilo que julgaste
poder ser vida
prática possível
destino animal
óbvio e comum
ao bem
inquestionável
reinventei-te
em desabono
da necessidade
de pertenceres
à massa viva
da indignação
de tomares parte
do tempo breve
que te coube
e de avançares
com ele
com ele
em explorações
desconcertantes
mas sempre novas
sempre amanhã
não sei que mais
dizer-te
acredita
não sei de mim
para ti
o onde da vontade
de procurar
de partir de novo
de ir além
da clarividência
obscura
que nos espreita
de condescender
a exaustão do sonho
interditado
de olhar em frente
e de olhos fechados
a luz escassa
do horizonte
já sem mar
e nele não encontrar
absolutamente
nada
não sei de mim
para ti
o sentido
inverso ao das pedras
aquele que dói
mas é verdade
Sunday, August 18, 2013
... viagem ao mundo da beleza

cacela
2013
~
de tudo
ficou o vazio
a sensação vaga
de flutuar inerte
de ter vivido
longe
qualquer coisa
que não sei
se boa ou má
uma vida
que não recordo
mas que sinto
no corpo
e na alma
que não sabe
viver
sem o sonho
que foi seu
~
~
viver
sem o sonho
redescobrir
as cores
concretas
ao sol-pôr
da tarde
que é tão
real
como a dor
que vai
passando
despertar
de novo
para as coisas
que ficaram
longe
depor o medo
dos espaços
abertos
porque
o vazio
é maior
quando
fechados
nos limites
estritos
de nós
olhar de frente
para o passado
e renunciar
ao orgulho
à recusa
dos erros
que foram
muitos
mas
em verdade
à vergonha
de mim
~
~
acolher
a noite
nos braços
e sorri-lhe
~
~
amar
o amor
restante
que é na brisa
quente de verão
um indício
de vida
redescobrir
no horizonte
azul e claro
uma saída
ser feliz
com
o que
de tudo
ficou
(...)
Thursday, August 15, 2013
... entardecer
~
Cacela
Está
desse lado do verão
Onde
manhã cedo
Passam
barcos, cercada pela cal.
Das
dunas desertas tem a perfeição,
Dos
pombos o rumor,
Da
luz a difícil transparência
E o
rigor.
Eugénio
de Andrade
In:
Escrita da Terra (1974)
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