(in)sentido
2013
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É difícil viver de incongruências. Acordar de manhã e arrumar o corpo
cansado numa roupa condizente com o mundo. Seleccionar do cartel de cores
desvanecidas o brilho que os outros procuram de nós. Sair para a rua em
silêncio e não sentir a fragrância das flores porque cá dentro é sempre inverno. Envergar a luta e caminhar sob o desconforto lombar que a nós nega destino-outro. Enfrentar os vícios de quem nos recusa. Encenar o modo de agir
mais hábil. Sorrir sempre em frente e sem olhar. Pensar pouco. Ser feliz no
modo concertado de não ser. E ao fim do dia chegar a casa na penumbra do sonho
humilhado. Desarrumar de novo o corpo. Enxaguar a alma num banho quente e
prolongado. Vestir o calor do fogão e partilhar só a verdade restante. Não habita ninguém aqui. Imobilizar os sentidos frente ao sentido
ausente do ecrã. Procurar nas histórias dos outros uma invenção que se assemelhe vida.
E no final de tudo perceber que o amor nos não pertence. Que somos esquecidos desde nascença. Viver é andar perdido no labirinto dos perdidos. Sentir o frio que vem de fora. E no calor ausente enfrentar o sono. Dormitar sobre a vigília desconexa. Baralhar o sistema das ideias com o cansaço-ópio
da insónia. Reprogramar a cordialidade. É difícil viver de incongruências. Esfregar o
corpo que se sente sujo. Arrumá-lo numa roupa condizente. Seleccionar do cartel o brilho que hoje será azul porque faz chuva. Sair
para a rua em silêncio. Num dia a mais que ontem. A menos que amanhã.


