foto retirada de www.olhares.com (link)
~
há que
resistir
ao peso
de não ser
à fatalidade
de nascer
com tudo
e nada ter
há que
resistir
à dor
volante
e ao riso
crasso
que sorrimos
na ilusão
do dia
lasso
lasso
há que
resistir
ao visco
espesso
da boa
vontade
e das
intenções
que são
sempre
boas
e inquestionáveis
porque nossas
e por nós
há que
resistir
ao saber
e sentir
que nada
existe
e disso
fazer vida
e dizer que
é vida
o desferir
de vontades
de vontades
transitórias
que nos
seduzem
inconstantes
há que
resistir
ao sonho
que é de
todos
igual
e ao abraço
que nele não
cabe
e ao amor
morrente
que nos falha
há que resistir
à solidão
e às cidades
de pedra
vencer ao
sono
interditado
quando
pela noite
pela noite
por fim silente
procuramos
o lado
humano
de nós
e é só vazio
e palavras
rotas
[feitas à
medida
de não sei
bem
o quê]
há que
resistir
à vida
que se sabe
términa
términa
ao
desfalecer
daqueloutro
ali
que por não
ser
nosso
se afigura
se afigura
natural
e justo
e justo
há que
resistir
à cara
limpa e
perfumada
que contemplamos
e aceitamos
manhã ante
manhã
sem cor
há que
resistir
a tudo isto
lavar as
mãos
e ir para a
mesa
comer

