Sunday, April 8, 2012

... a propósito de ser médico


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"Cipriano sorriu, benévolo (porque não consultara ela o Félix?), disse ainda da porta:
- Sabe quem operava eu quando você telefonou?
O Mário.
-O Mário? E que tinha ele?
- Um cancro. Só para nós. Ele pensa que era uma úlcera.
E saiu. De novo no carro, atravessando a cidade, rodava agora devagar, como se repousasse profundamente ou profundamente emergisse de uma noite subterrânea e reencontrasse enfim a vida, esquecida, fácil e evidente de sol, evidente de um destino que se cumpre em perfeição. Dia feliz, dia azul, fresco e linear como uma verdade tranquila. Os eléctricos passavam cheios de gente que regressava aos empregos, as árvores dos canteiros douravam-se de sol, a hora era perfeita como um amanhecer de Verão ou, antes, sim, como a sua memória. E Cipriano sentia-se tocado desse halo de alegria aguda e fugitiva como um aroma de música que se recorda. Que fazia ele na vida? Que redenção o aguardava? Que voz lhe respondia? Então lembrou-se do pobre Pina morto, do pequeno de Guida, de Mário, de Cidália. E um prazer profundo e calmo como só havia no sono dos filhos, invadiu-lhe o corpo fatigado com a obscura certeza de que alguma coisa nele anunciava uma certa convergência dos amigos sobre si, alguma coisa nele respondia à aflição do mundo, alguma coisa nele não era inteiramente inútil e trazia o eco, sim, o eco apenas dessa harmonia que era o sonho derradeiro que todos os homens arrastavam ao longo de longos séculos. Sim, as suas mãos eram bem umas pobre mãos mortais, perecíveis e tão cedo! E a sua palavra nao tinha talvez nunca a unção das palavras que se esperam. Mas alguma coisa da sua alegria ou da sua resignação ou dessa profunda humanidade que ele podia ainda reconhecer em si nas horas da aflição dos outros, alguma coisa de si falava a voz da harmonia, alguma coisa de si se encontrava nos gestos de quem recompõe e ordena e recorda o rasto da esperança. E só por isso, só porque uma breve parte de si mesmo, uma breve fracção respondia ao que havia de profundo e eterno no homem, à sua dor e à sua esperança, Cipriano sentia naquela fugidia manhã de sol, que a sua vida estava certa à sua face e à face do universo que haveria de absorvê-la, aniquilá-la, submergi-la no silêncio. Breve alegria sem fulgor, evidente e fugaz, irreal e presente - era bom, todavia, senti-la agora, sentir através dela que um homem viera ainda ao mundo com
alguma razão, que um pobre ser humano pudera ainda sentir-se fugazmente unido a si, entre uma memória longínqua de música e de amargura... Lembrou-lhe Mário: " a arte não é apenas o seu sinal sensível, um quadro, um poema". Mas era bom que esta sua plenitude não tivesse nenhum nome - ou só o nome de paz.
Quando chegou a casa, Paula esperava-o ainda para almoçar. E Cipriano, olhando-a profundamente, sentiu-se inundado de gratidão e de alegria, porque era bom que Paula o estivesse esperando, se sentasse com ele à mesa e ambos compartilhassem de tudo quanto ele tinha para dizer, como do pão e do profundo mistério dos seus corpos."


in Cântico Final de Vergílio Ferreira

1 comment:

Ana said...

Compartilhar a vida... compartilhar a morte ...