~
não sei bem
onde
me encontro
que margens
me acercam
na tarde escura
e fria
em que nada sou
além do imediato
é o meu corpo
este
imóvel
que não serve
é o corpo
a única coisa
que possuo
deste espaço-solidão
e o silêncio
a palavra significante
da fragilidade
das coisas humanas
passam corpos
corpos possuídos
passam cores
aromas e lágrimas
e palavras-pensamento
que não detenho
passas-me tu
a sinceridade
desprotegida
do teu olhar
o gesto terno
a voz trémula
com que dizes
o teu sentir
pudesse abraçar-te
e dizer-te tudo isto
e sentir
que tudo isto
é verdadeiro
pudesse amar-te
sem matéria disforme
que o impedisse
ser eu terna também
e frágil
no ruído perturbante
das minhas imprecações
amo-te
amo-te no segredo
da música que partilhamos
amo-te aqui
neste lugar estranho
neste espaço
irreconhecível
onde és memória
e saudade
e vida que renasce
~
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