
por Lisboa 2010
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Passei. Igual a tantas tardes de quase Verão. Em mim mesma. Passei centrada em projectos inconsumados, pensamentos que não chegam a surgir, tamanho e infindo o cansaço, o torpor, a chusma de nadas instalando-se comoda e cautelosamente no friso dos dias. Passei com a força de quem procura, desconhecendo o quê e o onde, descrente de qualquer indício, de qualquer rumor de verdade.
Amo. Amo incessantemente tudo quanto em mim desperte o sentir terno. Amo deste silêncio escoando em brisa, deste vazio dimanante do espaço de onde te recordo e escrevo e não encontro, porque és distante.
Perdi-te já. Perdi-te enquanto nos perdíamos por aqui. Enquanto percorríamos, já sem hora, quelhas e becos de luz parca dissipando-se ao cande entardecer. Nada mais importava. Nada mais para além do sonhar, que ali era viver e estar sendo.
Ousei pensar que éramos um só querer, um só sentido. Mas agora passo. Passo tão somente, em uníssono, comigo só, remoendo restos de sentir sobrevindo ao pensamento. Passo ao corrente da impossibilidade em nós, igual a tantas tardes de outras tardes. Passo amando tudo, a cada instante primordial. Passo beijando as esquinas das ruas que se cruzam, escutando o tanger da multidão resvalando pela calçada. Passo. Simplesmente passo, amando tudo aquilo que te não evoque.
É tarde, quase noite. Já não há barcos, nem pessoas, nem gaivotas, nem ninguém.



