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Chamemos-lhe sorriso, misericordioso sorriso, ou tão somente sorriso ardil, limpando o sucedâneo nebular dos dias que passam, sem condição nem saber algum que afugente a sua marginal presença.
Pressinto-a onde o querer acaba e onde a verdade, crua, toda em si se revela. É nesse espaço, onde a fé se tinge de descrença, onde as palavras se sucedem, melífluas, procurando explicar a incongruência da vida. É aí que ela existe comigo e de onde escuto, serena, o seu cantar ludibriante, signo perverso contentando aquele e aqueloutro olhar plangendo de esperança na vastidão da noite que os consome.
Eis um corpo, um rosto estendido ao afago seresteiro das horas. Silhueta pensante esta, que Rodin adulterara sob o másculo pretexto de configuração do intelecto ao gosto ignorante do homem-animal. Esta recurvando-se sobre a dor, toldando-se, já sem forças, sobre a causa que a enleva, sobre todas as suspeições, todas as dúvidas, todos os medos. Esta exaurida, já sem nome, combatendo apátrida por uma causa de sangue, de sangue apenas.
É lesto o tempo esvaindo-se em sonhos e possibilidades, emasculando-se entre quatro paredes fundentes. Em si, e no ígneo sentir tornado espanto primordial, em si tudo se dilata, silente. E é amor, é amor a força épica que o sustém, o epílogo que se recusa e tarda.
Por isso lhe chamei sorriso (e sorrio), para lhe não chamar solidão.