Sunday, February 14, 2010



retirado de www.olhares.pt (link do autor)



faz frio

aqui
e é vento
sibilando
de través
o eco de
silêncio
que escuto
por entre
gelosias
gastas
de tanto
me ouvirem
pensar
o teu ser
e proferir
o teu nome
e desejar
a distante
presença
que me
não
falha
à memória
nem ao
saber-se
verdade
única e
constante
verdade
ao sendo-
-incerto
porvir
de outrora
que agora
se refaz

~

as palavras

talvez as entenda

ou tão somente
creia entender
aquilo
que só o coração
revela
e vela
à razão
moribunda
que te não sente
senão distante
ausente

as palavras
que me atingem

talvez as entenda

talvez
desejasse entender
o verde fruto
da criação
- elo germinante
de meu ser
fasto
no amar(-te)?

talvez
desejasse intender
este sentir
premente
- que é do poema
a fonte
e do epílogo
a revelação?

mas sou toda
dúvida

toda ilusão
e pele
e osso
e humor
secos

falto-me
no brilho
extingo-me
no andrajo
esqueço-me
no sentir
morro-me
no tempo

gasto

sou
massa
amorfa
corpo
enclave
do sentir
repito
traço
grosseiro
dorso
recurvado
gesto
lívido
livor
esparso

as palavras
de ti só

talvez
me contestem

por certo
me não pertençam

as palavras
- poema
de ti só

talvez
condenem
o equilibro
em mim
o encontro
de mim
por ti apenas

palavras
que são vida
- a tua

palavras-poema
que escuto
- porque tuas

palavras
sendo
em verdade
- porque de ti só

verdade
que não encontro
por mais esforços que invente
por mais poemas
que desfaço
porque de ninguém
mais

~

faz frio
aqui
e é lesta
a noite
e o vento
crasso
regelando
os meus
dedos
engolfados
no ímpio
deste papel
de
plástico

~

esqueço
o amanhã
e o agora
desfigurando-se
no limiar
límbico
da insónia

~

adormeço
- límpido é o sonho
e o teu corpo
(nosso corpo)
nele

2 comments:

Ana said...
This comment has been removed by the author.
Ana said...

"Límpido é o sonho
e o teu corpo
(nosso corpo)
nele"

Belo!