Sintra
foto retirada de www.olhares.com (link autor)
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(...) Tendo escrito a maior parte da minha obra em Sintra, onde tanto sonhei e trabalhei, eu desejaria ficar ali para sempre (...). Desejaria ficar sepultado à beira duma dessas poéticas veredas que dão acesso ao Castelo dos Mouros (...). Ficar perto dos homens, meus irmãos, e mais próximo da lua e das estrelas, minhas amigas, tendo em frente a terra verde e o mar a perder de vista – o mar e a terra que tanto amei. (...)
~Ferreira de Castro (ligação)
Escrevo de uma febre que ascende, adentro, em mim. Escrevo escutando o silêncio, ao longe. Longe dos prédios, das multidões ofegantes, dos laivos de gordura anediando a tez de ilustres iluminados, de famosos contadores de estórias aclamando a si a mais plena das razões, brotando a si o aparente e fleimonoso saber de todas as causas, de todos os homens, anunciando chavões abstrusos, lançando e impondo, do antemuro da ignorância, a sua suprema e incontestável dádiva pessoal ao mundo. Escrevo ao som crepitante da terra, das pedras soltas rolando sob os meus pés, das folhas secas de Novembro caindo ao som mastro do vento, ondulante, sibilante, vago.
Dependem cascos de árvore cindindo o horizonte-mar, entrecortado ao longe por construções esguias, colunas de cimento arborizando a cidade. Silente e revigorada, sinto em mim toda a força da terra, todo o esplendor do húmus, desta seiva que me alimenta, desta frescura álea devolvendo-me à vida, de que ando ausente, toando em crescente, reluzente, resplandecente, aqui e agora, neste presente instante em que o amor renasce autêntico e capaz, dimanando da força árida dos penedos, da eucaliptal fragrância de saudade dos tempos em que éramos um e um todo só de mar, de céu, de terra, olor bruto de verdade, viandantes astros ao vento-abrigo da vontade, extinta a imposição das horas, depostos os limites da frialdade para que fomos deportados em massa. Pressinto aqui e agora o beijo-olhar unificante, contestante, de nossas vidas fremindo na devassidão dos tempos - tempos de valores apátridas impondo-se contra-vontade. Trago e sorvo, aqui e agora, fragmentos desta glória de estar viva, de sentir-me viva, de dar-me em vida e pela vida, bebendo em êxtase deste momento de fraternal intimidade.
E escrevo, deambulante... Escrevo de uma dor que lanço ao acaso distante, de um estar sendo amargurado, soía doce, alastrando-se, adentro, em mim. Escrevo escutando o silêncio, ao longe. Longe da pólvora amordaçante das almas, do viver altercante e desapaixonado com que dia-a-dia em vão consomem suas vidas... Escrevo longe... Ao longe de tudo aquilo que te não invoque, viandante raiar de solidão. A ti e à sempre presente ausência que me assiste.

