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Escuto com desdém berros estridentes e afilados profanando o sossego, o silêncio que o meu corpo todo pede, talvez porque qualquer som alheio ao pensamento desequilibre o êxtase mnemónico que daquele momento [me] ocorre. Escuto ainda, sinto ainda no corpo o calor (es)corrente, a ânsia sublimando-se ao abrigo de uma voz serena e doce velando o suor das almas, o pélago vítreo dos meus olhos diluindo-se em lágrimas de felicidade, de um sonho por cumprir, cumprido, de uma espécie de saber contido nos limites que o tempo, material e lento, impõe ao porvir incerto.
Escrevo ao som cavo, já longínquo, da memória, da invocação obsessiva e constante deste coração que tanto insiste, desafiando os limites do seu corcel de nastro, do envólucro que o traz guardado desde as origens. Escrevo sobre mim, sobre este ser que carrego e mal conheço, sobre o conteúdo que se não mostra senão à razão e ao intrínseco sentir que adentro de mim leveda, sem que o mais ínfimo fragmento se exteriorize.
Que importam as palavras já escritas? Os excertos de vida germinando de um sentir alheio, de uma indignação que não é minha? Que importa o que a arte me revela se de mim nada encontro que explique - nem uma alínea, nem uma palavra ou eco do que sou. Comigo apenas, e ao largo do ousar querer que em mim errou, prefiro contemplar a arte da descença, aquele momento ínfimo, mas inteiro, provindo de um estar sendo que algures no tempo idealizara. Comigo apenas, vivo no aparente silêncio da memória, do surrealismo quimérico que por instantes, ali, me fez feliz.
