Friday, February 20, 2009


Fotografia de Carlos Froufe
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Gritavam os miúdos que saiam do campo de futebol. Gritavam repetindo as mesmas frases, as mesmas palavras até à exaustão. Talvez o fizessem em tom reivindicativo, preenchendo os entediantes minutos de mais uma tarde de escola, procurando uma espécie de libertação.

Lembrei-me então de quando à sexta-feira esperava que a minha mãe fizesse a sua ronda ao talho ou ao supermercado. Por vezes preferia ficar no carro, noutras ir com ela. Lembro-me da minha ânsia para chegar a casa, para descalçar os ténis (que alívio!), para largar a mochila num qualquer recanto do quarto, e num qualquer recanto despausar os meus desenhos, os jogos na megadrive, retomar a peça que preparava, ver um pouco de televisão.


Recordo-me, como se fosse hoje, do cheiro dos estofos do carro, do sabor salgado desses mesmos estofos, das listras de bombazina verde-seco, dos encostos de esponja preta que premia, premia, premia, para passar o tempo, a espera. Recordo-me da vitrina do talho, calafetada com uma espécie de silicone branco, que durante semanas a fio serviu de pousio para uma minhoca. Sento-me no novo banco de madeira encostando a testa ao vidro e vendo as pessoas que saíam e entravam da loja de pneus, sentindo o seu odor a geada, a mar. Escuto as conversas desinteressantes dos adultos, procuro matar o tempo lambendo as pontas dos dedos, saboreando o seu gosto salgado, desvanecido a cada lavagem salivar, sentindo as rugas da pele, vislumbrando os desenhos digitais assim revelados.

Nunca mais chegava a casa, nunca mais era hora de descalçar os sapatos, tinha fome. Por vezes, lá conseguia um croissant de queijo fundido, que um dia deixou de existir, extinguindo-se assim um dos meus prazeres de infância.
Circulava pelo tracejado labiríntico dos mosaicos rosa-carne, admirando os sapatos novos, dobrando e lacerando a borracha descolada dos antigos, talvez na sequência de um jogo de futebol ou da "apanhada". Cantava incessantemente a mesma música que cantara na escola, como se de uma espécie de coreia vocal se tratasse, balanceava o meu corpo na berma do passeio, contava os cigarros amontoados à porta do supermercado, também ele cheirando a supermercado, a fruta, a drogarias, a pão, a bolos, a água de queijo fresco em fim de dia.

E o tempo passava lentamente, contando cada minuto, vivendo cada segundo, cada milésimo de segundo. Sentia o dia como hoje não sinto, porque falta tempo, porque escasseia a oportunidade de ver, ouvir e cheirar o momento, como quando era criança e podia parar para sentir o sabor dos dedos, o cheiro dos bancos do carro, do lugar, do talho, da rua, das castanhas, da praia, da escola, do pavilhão de educação física, do balneário da natação, do fato de judo, das cordas da guitarra.

Bem sei que poderá parecer estranho, mas tais gestos que aos adultos poderão parecer descabidos, desajustados, não são mais do que formas de expressão instintivas, oriundas da nossa essência eminentemente animal, adornada pela racionalidade, pela maturidade adquirida com o passar dos anos. Recordar-me da dual aspereza do papel-manteiga, suave como pétala, árido como lixa, da textura dos lápis de cera, do som do giz contra o quadro de granito (como gostava daquele som, daquele peso semigravítico), reporta-me à infância, àquele tempo onde tudo havia para descobrir, donde brotava uma energia mágica, sobretudo ao Domingo, quando acordava bem cedo, pegava nos cereais e ia para a sala ver os desenhos animados enquanto todos dormiam. Como era bom aquele acordar, aquele sol entrando pelas janelas, aquele silêncio matinal.

Tempos ouve em que me dedicava a brincar às rádios, "Rádio Becas", por sinal. Tinha por hábito desarrumar e trocar os discos ao meu pai que, ou se passava completamente, ou se ria do meu compenetrado papel de apresentadora, com phones e tudo. Bem sei que eram maiores do que a minha cabeça e bem menos resistentes aos "esticões" (ainda dei cabo de uns Techicns...), mas tudo aquilo era um mundo a desvendar, toda aquela música, nomeadamente a dos anos oitenta. Fazia entrevistas, colocava e retirava cassetes, tantas vezes gravadas com ruído, pelo menos até descobrir a diferença entre as normais e as de metal (tratava-se apenas de escolher o modo do gravador). Divertia-me à grande.


Recordo-me ainda de uma altura em que vinha a correr para casa, à hora do almoço, para não perder a missão impossível. Pegava num banco da cozinha, levava-o para a sala e esticava as pernas, entretendo-me a comer uns rebuçados de chocolate com caramelo. A propósito, alturas houve em que ia amontoando os papéis nas entranhas do maple. Não sei porque o fazia. Não menos tardou que fossem descobertos.

Eram coisas de criança. Um mundo à parte da normalidade, daquilo que fazia quando estava sob supervisão dos adultos. Penso que qualquer criança cria o seu espaço, vive num mundo com duas dimensões, a sua e a dos mais velhos, participa no seu jogo de pares, dotado de regras e códigos próprios, ri e chora por razões muitas vezes inaudíveis à macroescala (aos ouvidos dos adultos), mas não menos verdadeiras, não menos plausíveis, não menos passíveis de provocarem uma lágrima ou um sorriso.

O que se torna realmente chocante é a incapacidade que os adultos têm para se libertarem dos seus problemas, para olharem o mundo com olhos de criança, regozijando-se com um pouco de sol, o mesmo sol que tanto nos alegrava, pois que era sinal de podermos ir para o recreio. O que é realmente entristecedor é o facto de nós, adultos, nos prendermos a coisas tão superficiais, como uns sapatos, uma mala, um belo carro, um gordo ordenado, uma posição de topo, quando não há melhor sensação do que terminar um jogo de futebol e regressar a casa pontapeando uma bola descascada pelo uso, sentindo as gotas de suor escorrendo pela face, a camisola aderindo ao corpo, a brisa da tarde tacteando o rosto, os cabelos ondulando ao som dos pássaros, a força emanando das plantas em flor.

Nada há de melhor do que seguir em frente, de rosto posto no céu, sem pensar no amanhã, na crise em que nos fecharam como se estivéssemos presos pelos grilhões da culpa, da vontade de sermos felizes, de querermos desfrutar da simplicidade da vida.

Onde quer que estejamos, em qualquer tempo, em qualquer idade, escutemos a imberbe voz que um dia em nós viveu, sintamos o sabor da liberdade, voltemos a ser criança, nem que por um só dia.

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