
Acordo sob o vapor fumegante dos carros transitando em meu redor. A lassidão dos braços e das pernas impede a audácia da manobra, a sagacidade do gesto que me faria chegar mais depressa ao destino. Mas não, não consigo antecipar o tempo, não consigo infiltrar-me por entre as filas que se amontoam, por entre as latas, os cubículos, os contentores que arrastam gentes e gentes para mais um dia de trabalho, e esqueço. Esqueço que deveria já ter chegado, que a reunião de serviço deve estar a começar, que o meu estômago ronca na iminência de não ter tempo para almoçar. Esqueço que se aproximam tarefas complicadas, mais não seja porque burocráticas e, portanto, fatigantes, desinteressantes, onerosas. Ligo então o rádio, recosto-me sobre o banco desportivo, desproporcionalmente maior que o habitáculo, e ao som da chuva, das buzinas, dos arranques desenfreados, das travagens precipitadas, escuto um prelúdio de Chopin, o número quatro (que importa?).
Por mais nobre que sejam as tarefas diárias, por mais que ame a minha profissão (parece estranho falar em profissão), por mais que devote toda a minha energia naquilo que faço, por mais que ame o contacto com os doentes, nada poderá suplantar a sensação de prazer, de libertação, de conforto, de alívio, que sinto ao escutar um pouco de música, um qualquer som que atravesse o espectro da rotina, da diminuta turgescência das horas, da rude frieza do momento.
Bem sei que é importante viver em sociedade, conviver com amigos, partilhar ideias e conhecimentos, rir e chorar com os outros, contudo, sinto por vezes a necessidade de ter tempo para estar comigo, para saber quem sou, para sorver e desfrutar de momentos como este, ironicamente reproduzidos no clamor do trânsito. Quando tudo parece estar perdido, quando o corpo implora por um pouco de descanso, basta uma simples melodia para reerguer a esperança, para renovar a força necessária para enfrentar mais um dia de trabalho.
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Sergio Tiempo
Chopin, Prelúdio nº 4, opus 28, Mi menor