... és a casa de água onde há poucos anos eu escolhi nascer, és a ponte que atravesso sempre que não consigo entender este meu sentir, este meu ser. Tejo, tejo, malha azul, espelho de um verter de mágoa, de saudade, saudade do tempo em que tudo em mim havia para crescer, tempo de amor, de verdade, que antes do pensar chegava a ser.
Mas do rio a cidade, e dos búzios as buzinas, e da pureza o suor sujo, o presumido orgulho neste viver castrado. E agora. Agora percorro o que de percorrido se gastou, grito o que de esquecido se adestrou às incongruências do mundo, da vida, esqueço aquele, o outro, que sofrem no silêncio ázigo da fome, da solidão.
... madrugada, descobre-me o rio que atravesso tanto para nada, porque passa quando findo o passo regresso a este mundo devasso, controlando tudo o que faço, sugando a vida que se esgota neste recanto de sargaço, de sonhos amarelados, de cânticos que se calam no limbo da manhã.
... chamam-lhe Lisboa mas é só o rio que é verdade, e sobre ele a brisa, o travo amargo da pressa que nos impede de sentir, de amar, de viver, simplesmente viver.
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Madredeus - O Tejo


