Saturday, November 29, 2008



Chove. A jusante duas poças que se enlaçam e delas duas sombras esgueiradas pelo vento. Escuto. No silêncio, apenas o ranger das correntes de aço, o nitrido dos estores de uma ou outra casa que se apaga, o tilintar da chuva escorrendo pelos vidros, o sono que tarda em chegar. E então perco-me, perco-me no tempo, neste tempo que me consome a mim, a ti, a todos os que partilham a mesma solidão povoada, lotada de tudo, contra tudo, por ninguém. Procuro a razão de ser deste ar cáustico que nos prende e corrói, desta teia viscosa, de mel, que nos entretém e inebria, desta pseudo-liberdade que controla o mais ínfimo pedaço de nós. E escorro na corrente da vida, despolida, sufragada por uma vontade que não é minha, desiderato imposto pelos grandes líderes, que por si, para si, decidem as nossas vidas.

Findo o exame, sobeja a sensação de dever cumprido, como se nada se tivesse passado, como se o tempo coubesse de novo em si, saradas as escaras, despojado o cansaço, mastigada a total ausência de sentido, digeridas as injustiças, a falsa modéstia, o calculismo que agora se reacende com um fôlego renovado. Extinta a pseudo-humildade, a barreira da incerteza, reerguem-se palácios de gelo, ecoam sorrisos insolentes dos que se julgam dotados de uma inteligência superior, tão fortuita quanto o triste acaso daqueles que, mais sabendo, não tiveram tal sorte, porque os golpes de sorte não são para todos, porque a (in)justiça é só para alguns.

Ainda que o tempo possa mitigar a privação, a clausura, os nervos que se exigiam de aço, permanecerá no devir a lembrança daquele empalidecer rubro, posto o sol a horizonte, daquele odor a Verão, extinta a luz do dia que não chegara a ser. Mas tudo esquece tão cedo e nada muda, apenas o rosto, envelhecido, o dorso, encurvado, o olhar, baço. Passam os anos, as vozes, as gentes, os que de jovens se fazem velhos, os que de crianças ascendem a jovens velhos, os que de súbditos se tornam suseranos e que, suseranos, perpetuam os erros do passado, o mesmo vazio de sentido, tornado razão pelo esquecimento.

Mas nós não somos peças em linha de montagem, não somos pedras atiradas ao charco da ganância, da ambição. Somos pessoas. Pessoas que lutam pelo próximo, pela dignidade da vida. A sorte pode nem sempre estar do nosso lado, porém, do objectivo traçado, resiste uma vontade prima, talvez o único querer concedido, anterior a qualquer tentativa de empinanço, a qualquer galanteio circunstancial, a qualquer sorriso arrogante de quem se contenta com algo que não existe, porque não faz sentido, pois que não somos coisas, nem números. Refiro-me à satisfação plena da causa, à plenitude concretizada num sorriso, num abraço, num aperto de mão confiante, num ser que reconhece noutro ser o empenho de uma vida. Esse será o grande desafio, aquele que pautará os nossos dias, o nosso trabalho, dando-nos força para ultrapassar as contrariedades de uma carreira que se prevê repleta de barreiras, de obstáculos.

Escrevo para aqueles que partilham essa mesma vontade e que, independentemente de notas, títulos ou cargos, incondicionalmente tudo farão para dignificar esta profissão, retribuindo com trabalho, estudo, honestidade e modéstia, a confiança depositada pelos doentes que procurarão o seu auxílio. São esses que admiro e que reconheço como verdadeiros médicos. Para os demais, que não se incluem neste grupo, apenas faço votos para que a sorte os acompanhe.


Deposto o infindável período Harisoniano, venham as férias. Pelo menos até Fevereiro.


1 comment:

J.MARTINS said...

Leio, sorrio, leio mais um pouco, paro, lembro e subscrevo.
Muito bom.
Beijo