
Dizes que não sei o que digo
E que penso o que não faço,
Que dos céus falta cumprir-se um castigo
Sobre este meu espírito de seda e de aço.
Dizes que não gosto de nada
E que minto quando sinto a dor de alguém,
Que em mim sucumbe a verdade
Sempre que digo o que não convém.
Dizes que compro as palavras
E que transcrevo as ideias dos outros,
Que nas minhas veias secas
Coagulam teorias gastas, versos roucos.
Dizes que não sou nada
E que julgo ser alguém,
Que tenho a felicidade contada,
Que o tempo não se detém.
Mas se digo o que penso
E sei o que faço,
É para que na falta de consenso
Se reacenda esse teu brilho baço.
Germina no confronto a revelação
E em si o descontentamento da verdade.
Maturidade sufragada pela razão
Extinta a flor da poesia em puberdade.
Podes dizer que não sei o que digo
E que penso o que não faço,
Mas se discuto contigo
É porque me corrói esse cansaço.
Insurja-se o viver devassado pela descrença,
Reerga-se o teu sonho há muito resignado,
Calem-se os ecos de um passado sem pertença,
Façamos do presente um futuro partilhado!
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